Desmedidas

“Resiliência” é um conceito originalmente desenvolvido na física para descrever as potências de certos materiais capazes de sofrer perturbações sem realizar ruptura. Nas últimas décadas, o conceito rapidamente se espalhou em outros campos científicos, como na ecologia, na psicologia e na teoria dos sistemas, tornando-se uma metáfora privilegiada para descrever a capacidade de certos corpos de sofrer tensionamentos sem se romper, acumulando energia para se recuperar depois da perturbação. O termo é apropriado pelo artista visual e sonoro mineiro Marcellvs L. para intitular o seu… CONTINUA

Interrogar a vitalidade da fronteira

Categorias como “documentário” e “experimental” (ou “avant-garde”) pertencem àquela classe de palavras traiçoeiras, dessas que – na falta de precisão – é sempre bom evitar. Com elas, no entanto, acontece um fenômeno curioso: não há ninguém que assuma o fardo de uma definição exaustiva e cabal – e ninguém que não entenda o que se quer indicar quando as invocamos. E isso porque, embora uma tentativa de conceituação dispare um sem fim de problemas de natureza estética e filosófica, é fácil constatar que ambas formam… CONTINUA

As transformações silenciosas

O díptico Equinócio de Primavera e Equinócio de Outono, exibido no Festival Ecrã, no Rio de Janeiro, introduz um novo tipo de estrutura na obra de James Benning. Quatro parâmetros geográficos são definidos para cada um dos seus planos de longa duração, mostrados na forma de cartelas: o horário, a temperatura, a altitude e a quilometragem de cada plano. Os filmes foram construídos no caminho de uma única estrada em Sierra Nevada, Califórnia, respectivamente no primeiro dia da primavera e no primeiro dia do outono.… CONTINUA

A última Canaã

“A pintura não é nada senão um pano de algodão tecido pelo inferno, que dura pouco e tem pouco preço; ao retirar-se a fina película que a recobre, ninguém mais se dá conta do que acontece”. Carta de Pontormo a Benedetto Varchi, 1564 “Ce monde, je ne sais pourquoi dejà exténué, ne vient pas vers nous, ne nous entrâine pas em lui: il nous change momentanément- il exige plutôt pour être vu que nous percevions notre raccourcissement em face de lui, ou plus exactement que… CONTINUA

Das superfícies

Existe um paradoxo essencial no cinema de Olivier Assayas, uma dialética entre o aparente e o alegórico que encontra nos elementos culturais e na gama referencial de filmes como Espionagem na Rede (Demonlover, 2002), Traição em Hong-Kong (Boarding Gate, 2007) e este Personal Shopper (2016) norteadores emblemáticos de uma era. Essa bagagem de menções e apontamentos, através de uma conceituação do e pelo aparente ao mesmo tempo que assume tais elementos pelo que eles são – perspectivas tecnológicas em voga e premissas de um cinema… CONTINUA

A imagem antes do olhar

Ponderando uma tela branca em sua residência, com o pincel em mãos e prestes a tocá-la, o pintor e professor de artes Wladyslaw Strzeminski (Boguslaw Linda) é interrompido pela sombra avermelhada de um painel cobrindo a sua janela. Inicialmente, ouvimos o discurso ufanista em um megafone falando do governo socialista instaurado na Polônia. Em seguida, um plano mais fechado mostra a tela em branco que o pintor contempla ser tomada por uma luz avermelhada, oriunda de uma bandeira rubra de pano sendo erguida em seu… CONTINUA

O abandono da política

Neblinas. Fumaças artificiais. O cinza das penumbras esticando-se por uma cidade. É no mínimo inquietante ver como essas imagens são similares, se repetem e se complementam em três obras aparentemente tão distantes como 300 Milhas, Alipato – a Brevíssima Vida de um Malandro e Penúmbria. Em formatos diversos, esses três filmes traduzem em cenas, ora documentais, ora ficcionais, realidades imediatas vividas por países como Síria, Filipinas e Portugal. Em comum, a falta de horizontes, certos flertes com a distopia, e uma maneira de olhar para… CONTINUA

Imagens contra a rua

Existem imagens que gritam. Existem outras, não menos fortes, estridentes, ou inquietantes que conotam silêncio, introspecção. Presentes numa mesma sessão, os curtas Nunca é Noite no Mapa (2016) e Na Missão, com Kadu (2016) possuem um precioso ponto em comum: em ambos a câmera em punho transforma-se num gesto de resistência possível. Mais do que isso: são filmes alinhados a movimentos sociais por reivindicações de moradia e resistência contra a gentrificação, como o Estelita, em Recife, e o Izidora, em Belo Horizonte. É pela câmera,… CONTINUA

Da cosmética da fome à gentrificação da violência

Quando Ivana Bentes escreveu no Jornal do Brasil, em 2001, seu célebre texto sobre a “cosmética da fome”, certo cinema brasileiro de forte apelo comercial buscava explorar, sob novas vestes, territórios à margem da urbanidade burguesa – nomeadamente, os sertões e as favelas – que foram paradigmáticos na constituição da identidade do Cinema Novo. Segundo a autora, ao retomar alguns dos temas tratados no célebre manifesto “Eztetyka da fome” (1965), de Glauber Rocha, alguns filmes de meados dos anos 1990 e do início da década… CONTINUA

As mãos do prisioneiro

É preciso aguardar até às últimas imagens de Os Bons Tempos Chegarão em Breve, de Alessandro Comodin, para se deparar com a evidência concreta de sua declarada homenagem à iconografia bressoniana: a mão do prisioneiro que segura na grade de sua cela. A influência anunciava-se de forma subreptícia aqui e acolá, mas com esta imagem final o mesmo gesto dotado de expressividade metafísica em O Batedor de Carteiras (1959) passa a ser uma menção mais frontal e evidente, um diálogo com uma determinada tradição cinematográfica… CONTINUA