“Deus ajuda quem cedo madruga” – Considerações tardias sobre o 21º Festival Brasileiro de Cinema Universitário

É certo que hoje podemos pensar o mundo do trabalho como um tema especialmente recorrente nas imagens do cinema brasileiro, mas mais interessante do que evidenciar um diagnóstico de problemáticas à vista, é buscar compreender os sentidos que se produzem e se transformam a partir das novas e variadas formas de relacionamento com essa questão que há muito nos persegue; é perceber como eles articulam os reflexos de uma realidade em mutação, ou ainda: como eles mesmos se tornam a própria expressão dessa mutação. Não… CONTINUA

Movimento é memória; memória é História

Há uma sedução estranhamente poderosa no plano de abertura de Millennium Mambo, naquele corpo desconhecido que caminha por um corredor do qual nada sabemos, dentro de uma configuração espaço-temporal desprovida de qualquer encadeamento narrativo lógico: como chegamos aqui e para onde estamos indo? Como se situar diante da ritualização de uma imagem por completo incógnita, cuja própria matéria de reverência parece estar a se descobrir no momento mesmo em que a reverenciamos? O que se desvenda no diálogo com o olhar continuado é um certo… CONTINUA

Capitalismo natalino ou Papai Noel anda de fusca, não de trenó

Em um trecho do livro Capitalist Realism: Is There no Alternative?, o escritor britânico Mark Fisher, ao perspectivar a relação entre cultura e tradição, encapsula algumas preocupações presentes em Esqueceram de Mim. Em referência a um ensaio de T.S. Eliot, o autor argumenta que ele “descreve a relação recíproca entre o canônico e o novo. O novo se define em resposta ao que já está estabelecido; ao mesmo tempo, o estabelecido precisa se reconfigurar em resposta ao novo. A alegação de Eliot era que o… CONTINUA

Em busca do afeto

A abordagem do espaço extraterrestre como ambiente fílmico é uma tarefa estética delicada, porque impõe aos corpos, que por ali transitam, uma invariável interação com um denso volume de percepção codificada. É uma paisagem impassível de ser subtraída dos significados implícitos de materialização da infinitude do desconhecido, assim como de tudo que um status representacional de tal ordem deposita sobre o sujeito ali localizado. Sedimentar significados sobre o “personagem espacial” se torna, pois, um jogo de negociação com uma bússola insuflada de iminência significante. Como… CONTINUA

Imagens para o amanhã

I. Do cotidiano: Grass A carreira de Hong Sang-soo reflete, piamente, um interesse pelos longos diálogos de plano único, uma intuição de que nos fugidios intercâmbios verbais entre duas ou mais pessoas, que se dispõem genuinamente à troca, pode-se mesmo encontrar o inestimável. O traço se repete em Grass, mas deixa de ser um dispositivo narrativo para se consumar como o retrato do mundo humano em si mesmo, como um sumário essencial das relações. Através de bate-papos, marcados por imponentes músicas clássicas, em cafés e restaurantes,… CONTINUA

Nas garras do medo

A experiência do ser jovem no século XXI é indissociável da proximidade claustrofóbica com as mais diversas e espessas camadas de uma ansiedade imperativa sobre a tônica do cotidiano. Formar uma existência social enquanto juventude pós-digital implica construir aprendizado e mudança a partir de enfrentamentos e de negociações diárias com os impulsos de controle de um nêmesis pós-moderno. O preço do fraquejo é um abismo de identidade própria, que só costura unidade geracional pelos reencontros familiares com corredores sem fim, portas para salas escuras e… CONTINUA