É preciso acreditar

Chocante (2017) e Bingo – O Rei das Manhãs (2017) são filmes de nostalgia. Não existiriam sem a certeza de conquistar, com pouco esforço, uma parcela do público ávida pela máquina do tempo que a leve de volta a algum lugar do passado. Como máquinas do tempo ainda não foram inventadas, a arte criou seus dispositivos: ficções de ontem que não pretendem contar uma história, mas conjurar um espírito. Filmes que não estão nem aí para o drama ou a comédia. O que interessa, na… CONTINUA

Balaio de gatos

Em algum corredor da minha infância, lembro da mitologia em torno de uma peça de teatro, chamada Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá. Com o passar dos anos, o que era espanto – muito pela sonoridade do título, que eu adorava, entre chicabons e cigarrinhos de chocolate – transformou-se em algo concreto. Os pedaços foram se encaixando, contextualizei a peça no imaginário GLS, que, assim, ganhou outro sentido. Pois bem, o mesmo ocorre com Garota de Ipanema (1967). O suburbano Leon Hirszman, quem diria,… CONTINUA

O bullying nosso de cada dia

Filmes sobre transições adolescentes são quase todos iguais. Principalmente os ruins. Lá pelo início dos anos 1980 o cinema norte-americano esquentou a fórmula, repetida ad nauseam, e um bom marco talvez seja Gatinhas e Gatões (Sixteen Candles, 1984), de John Hughes, ornamento da Sessão da Tarde. Claro que ressalvas existem: o brasileiro As Melhores Coisas do Mundo (2010), de Laís Bodansky, e o mexicano Depois de Lúcia (Después de Lucia, 2012) trabalharam velhíssimos dilemas com criatividade e filiação à causa. Mesmo Hughes inventaria, em 1985,… CONTINUA

Um continente perdido

Vida de Menina (2003) esconde, pelo menos, três Helenas: a Solberg, que o dirige; a Morley, que escreve o texto base; e a suicida, adaptada por Paulo Emílio Salles Gomes, no roteiro do Memória de Helena (1969), de David Neves. Todas flutuam em torno de Minha Vida de Menina, o livro que Alice Dayrell Caldeira Brant, sob o pseudônimo de Helena Morley, publicou aos 62 anos, em 1942. Era uma senhora idosa no Brasil getulista. Abriu as páginas do tempo, contou as peripécias dos seus… CONTINUA

Uma vontade imensa de acertar

Primeiro a justiça histórica: “Como Nossos Pais”, na versão de Elis Regina, é um hit da indústria cultural brasileira. Tanto quanto “O Que é, O Que é”, de Gonzaguinha, que aparece vezenquando nas novas comédias – a exemplo de Muita Calma Nessa Hora (2010). “O Que é, O Que é” sinaliza a fé, a esperança, o amor, ou mesmo o fim iminente de uma sessão de karaokê. Já “Como Nossos Pais” é um estado de graça. Várias estrofes sobre o generation gap, o dream is… CONTINUA

Do Chile para outro lugar

“Marijuana ou morfina?”: esta era uma das piadas de Pablo Neruda, ao receber os amigos. Em vez de potes com as inscrições de “sal” e “pimenta”, colocava no saleiro e no pimenteiro as palavras “maconha” e “morfina”, como se oferecesse drogas pesadas, que ajudassem na digestão. Passam-se os anos, Neruda morre e o corpo foi exposto em uma de suas casas – aprumado, de terno, no caixão. A poucos passos dali nascia a noite chilena, que havia recebido Augusto Pinochet doze dias antes, em setembro… CONTINUA

Sobre medalhões e excluídos

Antônio Pitanga viveu a Nova Era no cinema brasileiro. Nascido em Salvador, 1939, o fato lhe garantiu um batizado cósmico: estava no lugar certo, na hora certa. Anos depois, no meio de uma turma de loucos, sob as bênçãos do crítico Walter da Silveira, abandonou o sobrenome seco, o sobrenome comedido, o sobrenome funcionário público – um mero “Sampaio” – pelo “Pitanga”. Da árvore frondosa e carnuda, tropical como todos deveriam ser. Se Oswaldo Massaini produziu O Pagador de Promessas (1962), na Boca do Lixo… CONTINUA

A vingança é um prato que se come frio

A década de 1970 no Brasil terminou no dia 15 de janeiro de 1985, quando Tancredo Neves foi eleito – indiretamente, através de um Colégio Eleitoral – presidente. Tancredo era o candidato civil de um país que vinha sendo governado por militares desde 1964. Apelidado “Tancredo Never” pelo general de plantão, João Baptista Figueiredo, sua vitória representou epifania na história brasileira. A partir dali, tudo mudou para continuar igual, porém sob a égide da “Nova República”, que se encerrou na deposição definitiva da presidente Dilma… CONTINUA

O filho que é a mãe

Zilhões de eons atrás, quando patrulhas do politicamente correto ainda não haviam tomado a galáxia, certa homossexualidade masculina era vista como uma tentativa do individuo de ser a mãe, tomar o lugar simbólico do seu primeiro amor. Esse conceito (ou preconceito?) abarcava desde o machismo chauvinista até a psicanálise de botequim (não existe psicanálise fora do botequim). Padres, médicos e policiais acreditavam que o sujeito alucinava uma “mulher ideal” e, em vez de possuir a figura feminina e arrastá-la para a alcova, embatucava na ideia… CONTINUA

O novo ópio

No 17 de junho de 1989, uma noite agradável de outono, a Rede Globo apresentava no Supercine, 21:45, o filme Chuva de Milhões (1985). Dirigida por Walter Hill e estrelada por Richard Pryor, a comédia encaixava-se perfeitamente no gosto da criançada da época. Mas duvido que, naqueles tempos dos aparelhos de TV escassos e pais vigilantes, muitas crianças tenham adiado o sono para darem boas risadas. A Globo (sempre) foi esperta e reprisou o filme na tarde do emblemático 1 de janeiro de 1990, no… CONTINUA