O bullying nosso de cada dia

Filmes sobre transições adolescentes são quase todos iguais. Principalmente os ruins. Lá pelo início dos anos 1980 o cinema norte-americano esquentou a fórmula, repetida ad nauseam, e um bom marco talvez seja Gatinhas e Gatões (Sixteen Candles, 1984), de John Hughes, ornamento da Sessão da Tarde. Claro que ressalvas existem: o brasileiro As Melhores Coisas do Mundo (2010), de Laís Bodansky, e o mexicano Depois de Lúcia (Después de Lucia, 2012) trabalharam velhíssimos dilemas com criatividade e filiação à causa. Mesmo Hughes inventaria, em 1985,… CONTINUA

Um continente perdido

Vida de Menina (2003) esconde, pelo menos, três Helenas: a Solberg, que o dirige; a Morley, que escreve o texto base; e a suicida, adaptada por Paulo Emílio Salles Gomes, no roteiro do Memória de Helena (1969), de David Neves. Todas flutuam em torno de Minha Vida de Menina, o livro que Alice Dayrell Caldeira Brant, sob o pseudônimo de Helena Morley, publicou aos 62 anos, em 1942. Era uma senhora idosa no Brasil getulista. Abriu as páginas do tempo, contou as peripécias dos seus… CONTINUA

Uma vontade imensa de acertar

Primeiro a justiça histórica: “Como Nossos Pais”, na versão de Elis Regina, é um hit da indústria cultural brasileira. Tanto quanto “O Que é, O Que é”, de Gonzaguinha, que aparece vezenquando nas novas comédias – a exemplo de Muita Calma Nessa Hora (2010). “O Que é, O Que é” sinaliza a fé, a esperança, o amor, ou mesmo o fim iminente de uma sessão de karaokê. Já “Como Nossos Pais” é um estado de graça. Várias estrofes sobre o generation gap, o dream is… CONTINUA

Do Chile para outro lugar

“Marijuana ou morfina?”: esta era uma das piadas de Pablo Neruda, ao receber os amigos. Em vez de potes com as inscrições de “sal” e “pimenta”, colocava no saleiro e no pimenteiro as palavras “maconha” e “morfina”, como se oferecesse drogas pesadas, que ajudassem na digestão. Passam-se os anos, Neruda morre e o corpo foi exposto em uma de suas casas – aprumado, de terno, no caixão. A poucos passos dali nascia a noite chilena, que havia recebido Augusto Pinochet doze dias antes, em setembro… CONTINUA

Sobre medalhões e excluídos

Antônio Pitanga viveu a Nova Era no cinema brasileiro. Nascido em Salvador, 1939, o fato lhe garantiu um batizado cósmico: estava no lugar certo, na hora certa. Anos depois, no meio de uma turma de loucos, sob as bênçãos do crítico Walter da Silveira, abandonou o sobrenome seco, o sobrenome comedido, o sobrenome funcionário público – um mero “Sampaio” – pelo “Pitanga”. Da árvore frondosa e carnuda, tropical como todos deveriam ser. Se Oswaldo Massaini produziu O Pagador de Promessas (1962), na Boca do Lixo… CONTINUA

A vingança é um prato que se come frio

A década de 1970 no Brasil terminou no dia 15 de janeiro de 1985, quando Tancredo Neves foi eleito – indiretamente, através de um Colégio Eleitoral – presidente. Tancredo era o candidato civil de um país que vinha sendo governado por militares desde 1964. Apelidado “Tancredo Never” pelo general de plantão, João Baptista Figueiredo, sua vitória representou epifania na história brasileira. A partir dali, tudo mudou para continuar igual, porém sob a égide da “Nova República”, que se encerrou na deposição definitiva da presidente Dilma… CONTINUA

O filho que é a mãe

Zilhões de eons atrás, quando patrulhas do politicamente correto ainda não haviam tomado a galáxia, certa homossexualidade masculina era vista como uma tentativa do individuo de ser a mãe, tomar o lugar simbólico do seu primeiro amor. Esse conceito (ou preconceito?) abarcava desde o machismo chauvinista até a psicanálise de botequim (não existe psicanálise fora do botequim). Padres, médicos e policiais acreditavam que o sujeito alucinava uma “mulher ideal” e, em vez de possuir a figura feminina e arrastá-la para a alcova, embatucava na ideia… CONTINUA

O novo ópio

No 17 de junho de 1989, uma noite agradável de outono, a Rede Globo apresentava no Supercine, 21:45, o filme Chuva de Milhões (1985). Dirigida por Walter Hill e estrelada por Richard Pryor, a comédia encaixava-se perfeitamente no gosto da criançada da época. Mas duvido que, naqueles tempos dos aparelhos de TV escassos e pais vigilantes, muitas crianças tenham adiado o sono para darem boas risadas. A Globo (sempre) foi esperta e reprisou o filme na tarde do emblemático 1 de janeiro de 1990, no… CONTINUA

Entre a ideologia e a psicologia

Não sou Ana Cristina César, mas vejo nos filmes de outra A(n)na, a Muylaert, uma ótima oportunidade de “puxarmos significantes”. Durante muito tempo, ainda teremos a discussão sobre Que Horas Ela Volta? (2015) ser um libelo do período de certa utopia distópica vivida pelo Brasil nos últimos 14 anos, ou o registro de uma intrincada composição de seres humanos perplexos e assombrados, em busca de um sentido para a vida. Entre a ideologia e a psicologia, o espectador, ao ser assistido pelo filme, também revela-se.… CONTINUA

O país do cinismo

Se o leitor quiser saber como era o Brasil há 30 anos, sugiro que veja filmes. Os anos 80 do século XX foram uma época de intensa criatividade no cinema brasileiro. Também foram tempos de enormes confusões: a Embrafilme engasgava, atolava as produções em burocracias intermináveis e os críticos debatiam-se em discussões que o passar do tempo provou inúteis. Nada disso importa. O que interessa é que os filmes estão lá. Se o cinema não servisse para milhões de outras coisas, ao menos cumpriria função… CONTINUA