Liquefazer a pedra, experimentar o fóssil

Anúncios feitos no escuro, nascenças que se dão no deslocamento, o canto inaugurando estradas, elementos que se fizeram pulsantes nos cinco outros filmes da Mostra Olhos Livres, despontam com roupagem muito própria em Irmã (2020). O filme de Luciana Mazeto, Vinícius Lopes começa dentro do olho, para logo em seguida fazer a pele virar tela. Ana (Maria Galant) e Júlia (Anaïs Wagner) estão de costas, e o contorno das duas se torna suporte para uma imagem projetada, prenúncio de uma viagem que está para começar.… CONTINUA

A dura língua do todo

Subterrânea (2020) parte de um estilhaço. Uma única fotografia emerge silenciosa: oito homens e duas bandeiras hasteadas posam ao redor de uma pedra. A ideia de fragmento – corporificada primeiro pela própria foto que paira desamparada – se estende para o motivo da pose, quando percebemos que a pedra se trata de um meteorito encontrado no interior da Bahia. “Um pedaço de outro mundo”, resto de alguma coisa desmembrada que fez viagem até aqui. Uma voz off nos revela que a foto flagra o momento… CONTINUA

Convívio extraviado

Amador (2020) compartilha de um dos esforços mais belos do cinema documentário: como fazer do filme a companhia de uma vida. O tempo da relação aparece no tempo das filmagens, uma amiga filma um amigo. Por meio de planos que se demoram em conversas íntimas e uma câmera que acompanha e refaz movimentações humanas, somos apresentadas a Jônatas Amador, artista plural que se criou em casas e praças e ruas de Belo Horizonte. O material bruto do filme ficará sempre inacabado, enquanto a montagem precisa… CONTINUA

— Canta pra mim?

Distopia não é a palavra, é tudo perto demais. O mundo já acabou algumas vezes. E renovadas formas de se chegar ao fim se delineiam a cada aurora. A ruína vem sendo escrita, filmada e recontada com distintas fisionomias. Tantas imagens e sonoridades foram concebidas para ensaiar uma faísca que guardasse uma parte desta terra sofrendo o interminável processo de arrasamento e restauro. A matéria trabalhada na mais recente manifestação de Glenda Nicácio e Ary Rosa é o futuro próximo de um Brasil desmoronado. Voltei!… CONTINUA

para Rodson, com amor

Há que se agasalhar bem a sensação de perda, Rodson ou (Onde o Sol Não Tem Dó) (2020) é um luminoso excesso. A tela suporta muito mais do que nela cabe, alguma coisa vai escapar aos olhos. Rodson nunca será capturado por inteiro. O filme de Cleyton Xavier, Clara Chroma e Orlok Sombra é efeito de um acúmulo. Nascido de uma longa investigação vivida pelo coletivo Chorumex desde 2015, Rodson é o terceiro acontecimento da Trilogia do Terceiro Milênio, precedido por Tsunami Guanabara (2018), de… CONTINUA

Para que as crianças saibam

Por vezes, filmes desenham mapas, riscam a silhueta de espaços inteiros, traçam a amplidão de estradas, escrevem cartas geográficas e nos convidam a deitar os olhos, os pés, a boca sob as coordenadas de um chão. Outros filmes são como partituras – mapas de música – que guardam a substância que precede a língua. Abandonam qualquer palavra e se fazem de graves e agudos, refundando o alfabeto em rumores musicais. Há ainda filmes que inventam um enlace entre partitura e mapa, de modo que já… CONTINUA

Sinfonia do conjunto

um dois três quatro: (caminho percorrido por @vovodorap, @dedezinhodobem, @gusmuniz1 e @peedromarshall) O quadro acima foi retirado do quarto passo de uma sem-fim correspondência. O recurso utilizado pelas pessoas que compõem a peça, que gera o efeito criador-coletivo, é facilitado pelo uso de uma ferramenta do aplicativo Tiktok. A ferramenta permite que as usuárias adicionem seu próprio vídeo a um vídeo pré-existente, mantendo o áudio do primeiro material. Os remixes com o áudio inaugural de Dezeri Xavier entoando os versos de Hungria Hip Hop se… CONTINUA

delém

Durante esta semana, a Cinética publicou um conjunto de quatro aproximações ao filme Retrato de uma Jovem em Chamas (Céline Sciamma, 2019). A obra mobilizou a redação e impulsionou as colaboradoras a se descobrirem em outras formas de exercício crítico. A poeta Júlia de Souza escreveu um ensaio em torno do filme, os redatores Luíz Soares Júnior e Júlia Noá colaboraram com textos e hoje encerramos a série com “delém” um ensaio em vídeo feito por Ingá e Mariana de Lima.  O coração na boca do mar, por Julia de Souza A percepção impossível,… CONTINUA