Notícias da Paraíba ou não acredito em paradoxos que não saibam dançar

Quando recebi o convite para acompanhar a I Mostra Walfredo Rodriguez, realizada pela prefeitura de João Pessoa para reunir filmes que surgiram do edital de mesmo nome na capital paraibana nos últimos anos, um motivo me impeliu a aceitar: a rara oportunidade de testemunhar, do meu lugar de estrangeiro sudestino, um processo cinematográfico local em curso, com suas nuances próprias, seus tempos fortes e seus tempos fracos, com uma diversidade e uma amplitude difíceis de apreender nos festivais de escopo nacional. Entre movimentos comuns e… CONTINUA

Deixa eu pintar o meu nariz

Qual a natureza desta sensibilidade que surge do nosso olhar demorado sobre rostos cansados, maquiagens e adereços exagerados, cobrindo-lhes como procurando dar cor ou vida ao que parece sucumbindo à exaustão; corpos brutos enfurnados entre paredes carcomidas, mas cobertas por um véu rosa-choque translúcido e brilhante, coloridos por luzes como as das árvores de natal e embalados por músicas pops e bregas? Estes rostos andróginos, cheios de rugas, vestindo-se como personagens dos mais clássicos filmes ou cosplay de super-heróis norte-americanos, como que vivendo a ressaca… CONTINUA

A vida deles

A realização de um documentário sobre uma cidade pequena americana parece um passo natural dentro da trajetória de Frederik Wiseman, que, desde o início dos anos 1960, tem se dedicado a observar uma determinada instituição dos Estados Unidos contemporâneo, um filme depois do outro, seja a escola, o hospital, a universidade, o departamento de polícia, o zoológico ou biblioteca. Monrovia é uma cidade do Meio Oeste de cerca de 1400 habitantes, localizada no estado de Indiana. Pertencente ao distrito de Morgan, que em 2016 elegeu… CONTINUA

Traumas e perturbações: o fantasma do Pai

Não são poucos os filmes ao longo da nossa história, principalmente a das duas últimas décadas, que trilharam a necessidade de um órfão acertar as contas com o pai, seja esta figura paterna uma autoritária, fortemente presente, ou uma fantasmática, que impõe sua presença pela ausência. A figura cinematográfica do pai é frequentemente a que nos indica um norte ou uma orientação – que nos insere numa tradição de alguma natureza – e a imagem do órfão é também frequentemente a do abandonado pela história,… CONTINUA

Névoa digital

Na história do cinema, poucos filmes se prestaram tanto à citação como Um Corpo que Cai. A proposta de A Névoa Verde de recriação do filme de Hitchcock de 1958 deveria ser, portanto, recebida com certa desconfiança, não fosse a estratégia singular adotada por Guy Maddin e seus colaboradores no projeto, os irmãos Johnson. Essa estratégia de trato com o filme baseou-se em uma série de escolhas determinadas. O primeiro passo foi o de reduzir Um Corpo que Cai a uma série sucessiva de motivos,… CONTINUA

Imagens para o amanhã

I. Do cotidiano: Grass A carreira de Hong Sang-soo reflete, piamente, um interesse pelos longos diálogos de plano único, uma intuição de que nos fugidios intercâmbios verbais entre duas ou mais pessoas, que se dispõem genuinamente à troca, pode-se mesmo encontrar o inestimável. O traço se repete em Grass, mas deixa de ser um dispositivo narrativo para se consumar como o retrato do mundo humano em si mesmo, como um sumário essencial das relações. Através de bate-papos, marcados por imponentes músicas clássicas, em cafés e restaurantes,… CONTINUA

A história do mundo ou daqueles que não tem memória

Mais para o final de A Valsa de Waldheim, de Ruth Beckermann, um dia antes do segundo turno da eleição austríaca de 1986, assistimos a imagem de um homem que reclama a negligência histórica das gerações passadas para com um acontecimento de inegável violência como o nazismo, ao mesmo tempo em que conclama à sua geração que não cometa os mesmos erros. Não cometer erros é lembrar, parece nos dizer. Essa lembrança precisa ser mantida viva, organizada, embalsamada, para que um povo crie a sua… CONTINUA

Anotações tardias: “A culpa deve ser do Sol”

Zoe Leonard tem um poema: I want a dyke for president. O cenário da democracia representativa se perdeu no ralo da sarjeta de um esgoto fluorescente. Não sai tartaruga ninja daí. Era hora de explodir os bueiros. Mas na falta de renascença, falemos sobre pragmatismo pós-moderno. Eu quero alguém que se traveste, com dentes ruins, que comeu comida ruim no hospital, usou drogas e já cometeu desobediência civil pra presidente. Uma utopia: Linn da Quebrada pra cadeira. Jup do Bairro vice. Do primeiro minuto de… CONTINUA

Ouvindo com olhos livres

O dicionário Houaiss registra, no sentido figurado, duas acepções para “caleidoscópio”: 1) “conjunto de objetos, cores, formas etc. que formam imagens em constante mutação”; 2) “sucessão vertiginosa, cambiante, de ações, sensações”. A palavra foi adotada em 2018 para nomear uma mostra paralela do 51o Festival de Brasília composta por cinco longas-metragens que, segundo texto do catálogo do evento (repetido diariamente por um apresentador antes de cada sessão), abriam espaço “para realizadores que se arriscam muito, em suas propostas absolutamente únicas e pessoais (seja no sentido… CONTINUA

O convívio com uma heroína de pele preta

Juliana (Grace Passô) bateria à porta com insistência. Chamaria por mais um dos moradores das tantas casas que visita para verificar prováveis focos dos mosquitos transmissores da dengue. Nessa casa, nessa sequência, ela não precisou, como de costume, chamar ninguém; a porta já estava aberta. Juliana sentiu-se à vontade, sentou num sofá aconchegante, enquanto, em off, vem uma voz suave, que pergunta se ela quer café. Polida, Juliana nega, diz que não precisa. “Precisa sim”, rebate, carinhosamente, a anfitriã. Comenta que há muito tempo não… CONTINUA