Imaginar o concreto

Não faz muitos anos que o crítico argentino Roger Koza definiu a Mostra Tiradentes como um “oásis de liberdade”. Talvez eu tenha pegado a conversa pela metade, mas não duvido que o mesmo Koza diria algo semelhante – em maior ou menor medida – sobre outros festivais brasileiros que também privilegiam obras formalmente arrojadas e não raro com conteúdos políticos explícitos. O que talvez pormenorize a opinião de Koza é o recente definhamento dos demais festivais que serviam de “oásis” aos realizadores brasileiros, especialmente os… CONTINUA

Ao limite do desespero

Na mesma semana do lançamento de Vaga Carne e Sete Anos em Maio, Regina Duarte saiu da Secretaria Cultura e foi para a Cinemateca. O crítico Fábio Andrade estava certo ao dizer que “o cinema brasileiro é, hoje, menor do que seus filmes”, e não apenas pela barbárie bolsonarista – isso é óbvio – mas pela força propositiva da nossa filmografia recente. Minha semana também foi tumultuada e acabei não participando da conversa em torno dos filmes (realizada quarta e publicada ontem). Mas achei ótimo… CONTINUA

Tradução de “Por uma nova cinefilia” (Girish Shambu)

Este texto  foi publicado originalmente na revista Film Quarterly em março de 2019. De partida, agradecemos a autorização do autor Girish Shambu e da Film Quarterly pela possibilidade de trazer aqui uma versão dele em português. A escolha deste recente manifesto sobre os ambientes cinéfilos atuais para publicação na Cinética se dá por alguns motivos. Interessou à nova composição da editoria pensar sobre as mutações que o campo da reflexão sobre cinema passa nos últimos anos e este texto sintetiza as linhas gerais de certos… CONTINUA

Melancolia que nos confina

Em seu primeiro documentário, Marcelo Gomes revisita uma cidade que frequentou ainda criança, quando viajava junto ao seu pai, funcionário público que fazia inspeções fiscais nas cidades do interior de Pernambuco. É assim que chegamos em Toritama, cidade que recentemente se tornou famosa pela produção de jeans, o mesmo local que Marcelo, ao retornar, logo admite: “eu tento reconhecer o lugar, mas nada parece igual”. Com efeito, o lugar que ele guarda na memória de infância “era um mundo rural de feiras livres, plantadores de… CONTINUA

A eminência do corpo

Embora erguido sobre muito sangue indígena, o Brasil filmado por A Febre é um país em ruínas: desemprego, desmatamento, falência das fábricas, transporte público precário e hospitais abarrotados. Em lugar da formação de uma nação pujante e industrialmente desenvolvida, o Brasil teria se tornado um mero exportador de produtos primários (ou tão somente “montados” no país) e importador de alta tecnologia das grandes potências. A produção cede lugar à circulação na mesma medida em que o tipo ideal do trabalhador brasileiro não é mais o… CONTINUA

Sob o peso do próprio olhar

Na edição de Tiradentes de três anos atrás, Victor Guimarães escreveu um ensaio sobre uma incômoda veia do cinema jovem que então despontava. Nomeada pelo crítico de gentrificação da violência, a tendência dizia respeito ao comportamento apaziguador do olhar de vários dos filmes exibidos naquele ano. Filmes que, através de procedimentos formais específicos, produziam imagens estéreis e distanciadas, diante das quais o espectador se mantinha estranhamente não contaminado, a despeito da pregnância do universo retratado. Várias das questões daquele texto voltaram à tona com a… CONTINUA

Contingência petrificada em fatalidade

Sempre que falamos em Ozualdo Candeias, é difícil não lamentar pelo lugar encoberto que o realizador ocupa na história do cinema brasileiro ou mesmo pela dificuldade em encontrar cópias dos seus filmes. O que urge, por outro lado, é que lamúrias e queixas parecem impróprias ao falar do cinema de alguém que enxerga seus personagens sem qualquer paternalismo ou transigência, e justamente desse gesto extrai força e sentido inesperados. Assistindo os filmes de Candeias, fica a impressão de que ninguém melhor que ele soube incorporar… CONTINUA

A íntima utopia

Difícil quem não tenha se deparado com a impossibilidade ao tentar explicar nossa história recente. A pulsão por Democracia em Vertigem nasce do seu desassombro em erguer uma contra-narrativa decidida a intervir no debate público, sem medo de retomar as totalizações, os diagnósticos amplos, as grandes teses sobre a Nação que se tornaram incomuns no cinema brasileiro. Para tanto, a diretora Petra Costa lança um olhar prospectivo sobre os últimos anos, recuperando momentos perdidos e atando pontas soltas, para então narrar os consecutivos tropeços da… CONTINUA

A metafísica do cinema de Eugène Green

Em Todas as Noites (2001), primeiro filme de Eugène Green, há um momento em que Jules (Adrien Michaux) discute com seu professor de literatura. Perguntado sobre o que seria a poesia, ele responde: “a poesia é a presença manifestada na linguagem de uma ordem universal que se pode sentir quando se está sozinho numa igreja”. Encontraremos uma caracterização da arte semelhante, desta vez em La Sapienza (2014), quando Godofredo comenta sobre a arquitetura: “Em todos os templos, sentimos uma presença. O arquiteto deve convocá-la.” Esta,… CONTINUA

As pulsões do cinema de Philippe Grandrieux

1 Desde que defini-lo como cineasta passou a ser mais adequado que artista plástico, realizando obras destinadas à exibição em salas de cinema e não museus, Philippe Grandrieux se tornou rapidamente uma das principais referências do cinema contemporâneo mundial ao conquistar prêmios importantes em festivais como Locarno e Veneza. O francês despontou ainda na videoarte, trafegando entre inúmeros trabalhos para TV, museus, performances, curtas experimentais e documentários, antes de finalmente realizar os quatro longas – Sombras (1998), A Vida Nova (2002), Um Lago (2008) e… CONTINUA