A revolução será televisionada?

O cinema de M. Night Shyamalan é um cinema habitado por mediações. Por mais transparentes e cristalinas sejam suas narrativas – grande herdeiro das regras do classicismo, ele as reconfigura para um viés puramente moderno –, o roteirista e diretor sempre as conduz por elementos exteriores ao seu centro. Desde O Sexto Sentido (1999), não há filme de Shyamalan em que o suposto ponto de partida, na verdade, seja exatamente o cerne do drama, pois pelo caminho surgirá algum elemento de mediação que desviará a… CONTINUA

“Meu amor é assim, bruto e sincero demais”

Poucas coisas podem te preparar para Vermelha. Abrindo o texto assim, pareço falar de uma obra de absoluta novidade, inovação, frescor e ousadia. É isso, mas também não é. O primeiro longa-metragem de Getúlio Ribeiro te instala numa ambiência reconhecível, tanto narrativa quanto esteticamente. Começa com dois homens na faixa dos 70 anos a baterem laje numa casinha simples de bairro. Falam amenidades, discutem quanto mede um alqueire e um hectare e qual a melhor lua para cortar cabelo. Nada parece fora do lugar, e… CONTINUA

Monstruosidade contraditória

O que são “as boas maneiras” referidas no título do filme de Juliana Rojas e Marco Dutra? A expressão é carregada de sentido irônico, ao qualificar determinado comportamento (“maneiras”) como bom (“as boas”), pressupondo que exista, em contraponto, um ruim. Sob qual ponto de vista estão “as boas maneiras”? Da dupla de realizadores? Dos personagens? Do espectador? Eis o primeiro enigma de um filme que, a partir de uma fábula de horror, desenvolve a complexidade de relações sociais num Brasil urbano de ares contemporâneos, onde… CONTINUA

Ouvindo com olhos livres

O dicionário Houaiss registra, no sentido figurado, duas acepções para “caleidoscópio”: 1) “conjunto de objetos, cores, formas etc. que formam imagens em constante mutação”; 2) “sucessão vertiginosa, cambiante, de ações, sensações”. A palavra foi adotada em 2018 para nomear uma mostra paralela do 51o Festival de Brasília composta por cinco longas-metragens que, segundo texto do catálogo do evento (repetido diariamente por um apresentador antes de cada sessão), abriam espaço “para realizadores que se arriscam muito, em suas propostas absolutamente únicas e pessoais (seja no sentido… CONTINUA

Acorda, gravidade!

  “Acorda, humanidade!”: com esse grito imperativo começava a epifania do morador de rua em Superoutro (1989), o filme de Edgard Navarro cujo desfecho faz a ponte com seu trabalho mais recente. Eram justamente Abaixo a Gravidade (2017) as últimas palavras do protagonista, antes de se atirar do alto do Elevador Lacerda para um voo transcendental e simbiótico com Salvador. A mesma expressão apareceu novamente em O Homem que Não Dormia (2011) e agora se torna convite direto para um novo mergulho no imaginário de… CONTINUA

Sobre as formas positivas

Na superfície, A Forma da Água organiza todos os seus elementos nos lugares mais apropriados e adequados. A fábula característica do cinema de Guillermo Del Toro se desenvolve na fricção entre a representação de um mundo e uma época fáceis de identificar num mínimo conhecimento histórico (a Guerra Fria e a corrida armamentista entre norte-americanos e russos) e a entrada do fantástico como desestabilização das regras desse mundo (o homem-anfíbio encontrado num rio da América do Sul, referência extraída diretamente de O Monstro da Lagoa… CONTINUA

Mapa da miséria

“Premiado em Karlovy-Vary, o filme interessou ao público europeu; de um ponto de vista formativo para o cinema brasileiro, é um destes enganos que devem ser estudados a fim de que não se repitam.” O diagnóstico cruel de Glauber Rocha em relação a O Canto do Mar (1953), registrado na Revisão Crítica do Cinema Brasileiro e publicado pela primeira vez em 1963, colaborou para certo apagamento do filme de Alberto Cavalcanti na historiografia mais séria e relevante do cinema brasileiro. A virulência de Glauber surgia… CONTINUA

O despertar dos vivos

A primeira imagem de choque em O Nó do Diabo é a cabeça de um homem negro explodindo com um tiro de escopeta. O atirador é um homem branco. Logo em seguida, o mesmo matador acerta uma jovem negra pelas costas. Estamos apenas com alguns minutos e o filme já nos lança no turbilhão de assistir àqueles corpos abatidos sob o jugo implacável de um jagunço moderno. A que (e a quem?) valem aquelas imagens num filme brasileiro hoje? Da cultura de um país que… CONTINUA

Era uma vez, num castelo assombrado

Ainda nos créditos iniciais, em tela preta, a suave voz masculina anuncia o plot enquanto tocam os acordes da banda Goblin: “Suzy Bannion decidiu aperfeiçoar suas técnicas de balé na mais famosa escola de dança da Europa. Ela escolheu a celebrada academia de Friburgo. Um dia, às 9h da manhã, ela deixou o aeroporto Kennedy, em Nova York, e chegou à Alemanha às 22h40, hora local.” Após os créditos, a primeira imagem é o painel eletrônico anunciando os voos que pousaram. Num travelling, a câmera… CONTINUA

Existo, logo enceno

Em tela preta, a voz de Troy Maxson (Denzel Washington) ressoa. Nos segundos iniciais, Um Limite entre Nós (Fences) se apresenta como um filme dedicado à palavra. Ao aparecer a primeira imagem, com dois personagens se movendo pendurados num caminhão de recolhimento de lixo, torna-se também um filme dedicado ao corpo. A soma do verbo com a carne é a base de sustentação do tour de force de Troy como um furacão de emoções que, no cotidiano simples e íntimo de um bairro de Pittsburgh… CONTINUA