Ouvindo com olhos livres

O dicionário Houaiss registra, no sentido figurado, duas acepções para “caleidoscópio”: 1) “conjunto de objetos, cores, formas etc. que formam imagens em constante mutação”; 2) “sucessão vertiginosa, cambiante, de ações, sensações”. A palavra foi adotada em 2018 para nomear uma mostra paralela do 51o Festival de Brasília composta por cinco longas-metragens que, segundo texto do catálogo do evento (repetido diariamente por um apresentador antes de cada sessão), abriam espaço “para realizadores que se arriscam muito, em suas propostas absolutamente únicas e pessoais (seja no sentido… CONTINUA

Acorda, gravidade!

  “Acorda, humanidade!”: com esse grito imperativo começava a epifania do morador de rua em Superoutro (1989), o filme de Edgard Navarro cujo desfecho faz a ponte com seu trabalho mais recente. Eram justamente Abaixo a Gravidade (2017) as últimas palavras do protagonista, antes de se atirar do alto do Elevador Lacerda para um voo transcendental e simbiótico com Salvador. A mesma expressão apareceu novamente em O Homem que Não Dormia (2011) e agora se torna convite direto para um novo mergulho no imaginário de… CONTINUA

Sobre as formas positivas

Na superfície, A Forma da Água organiza todos os seus elementos nos lugares mais apropriados e adequados. A fábula característica do cinema de Guillermo Del Toro se desenvolve na fricção entre a representação de um mundo e uma época fáceis de identificar num mínimo conhecimento histórico (a Guerra Fria e a corrida armamentista entre norte-americanos e russos) e a entrada do fantástico como desestabilização das regras desse mundo (o homem-anfíbio encontrado num rio da América do Sul, referência extraída diretamente de O Monstro da Lagoa… CONTINUA

Mapa da miséria

“Premiado em Karlovy-Vary, o filme interessou ao público europeu; de um ponto de vista formativo para o cinema brasileiro, é um destes enganos que devem ser estudados a fim de que não se repitam.” O diagnóstico cruel de Glauber Rocha em relação a O Canto do Mar (1953), registrado na Revisão Crítica do Cinema Brasileiro e publicado pela primeira vez em 1963, colaborou para certo apagamento do filme de Alberto Cavalcanti na historiografia mais séria e relevante do cinema brasileiro. A virulência de Glauber surgia… CONTINUA

O despertar dos vivos

A primeira imagem de choque em O Nó do Diabo é a cabeça de um homem negro explodindo com um tiro de escopeta. O atirador é um homem branco. Logo em seguida, o mesmo matador acerta uma jovem negra pelas costas. Estamos apenas com alguns minutos e o filme já nos lança no turbilhão de assistir àqueles corpos abatidos sob o jugo implacável de um jagunço moderno. A que (e a quem?) valem aquelas imagens num filme brasileiro hoje? Da cultura de um país que… CONTINUA

Era uma vez, num castelo assombrado

Ainda nos créditos iniciais, em tela preta, a suave voz masculina anuncia o plot enquanto tocam os acordes da banda Goblin: “Suzy Bannion decidiu aperfeiçoar suas técnicas de balé na mais famosa escola de dança da Europa. Ela escolheu a celebrada academia de Friburgo. Um dia, às 9h da manhã, ela deixou o aeroporto Kennedy, em Nova York, e chegou à Alemanha às 22h40, hora local.” Após os créditos, a primeira imagem é o painel eletrônico anunciando os voos que pousaram. Num travelling, a câmera… CONTINUA

Existo, logo enceno

Em tela preta, a voz de Troy Maxson (Denzel Washington) ressoa. Nos segundos iniciais, Um Limite entre Nós (Fences) se apresenta como um filme dedicado à palavra. Ao aparecer a primeira imagem, com dois personagens se movendo pendurados num caminhão de recolhimento de lixo, torna-se também um filme dedicado ao corpo. A soma do verbo com a carne é a base de sustentação do tour de force de Troy como um furacão de emoções que, no cotidiano simples e íntimo de um bairro de Pittsburgh… CONTINUA

Heróis de lugar nenhum

Daniel Blake (Dave Johns) e Chesley “Sully” Sullenberger (Tom Hanks) são de mundos diferentes, com demandas, ações, desejos e ilusões diferentes. Acima de tudo, eles vêm de filmes diferentes. Algo, porém, parece uni-los em alguma medida: o caminho de transfiguração entre serem sujeitos ordinários e, por força de circunstâncias para além de suas vontades, tornarem-se sujeitos extraordinários. Tanto em Eu, Daniel Blake (2016) quanto em Sully – O Herói do Rio Hudson (2016) tenta-se atingir certa expiação por meio da cumplicidade e adesão do espectador… CONTINUA

As cidades onde vivo, temo e enlouqueço

.49º Festival de Brasília. Três filmes no Festival de Brasília 2016 – o curta-metragem Estado Itinerante , de Ana Carolina Soares, e os longas A Cidade onde Envelheço, de Marília Rocha, e Elon não Acredita na Morte, de Ricardo Alves Jr. – têm Belo Horizonte como ambientação, menos na geografia da cidade como ponto de partida do que nos espaços urbanos a servir de moldura para deslocamentos ou prisões, trajetórias erráticas ou desvios de caminho. São, antes de tudo, filmes sobre como o enquadramento desvela… CONTINUA

Bernardet na Berlinda

. 49 Festival de Brasília .  Num texto para a cobertura do Festival de Brasília de 2015 sobre Fome, de Cristiano Burlan, escrevi aqui mesmo na Cinética: “A armadilha (do filme) começa na escolha do próprio Jean-Claude Bernardet para o papel principal de um mendigo. Como fica cada vez mais evidente a cada novo filme protagonizado pelo crítico – entre eles, Filmefobia (2008) e Periscópio (2014), de Kiko Goifman; Pingo D’água (2014), de Taciano Valério; e o citado Hamlet, de Burlan –, nunca um trabalho… CONTINUA