A burocracia não nos servirá em tempos de guerra

Estamos situados em uma sala escura. Nela, dois corpos posicionam-se um diante do outro. Raros os planos em que ambos serão dispostos no mesmo quadro, mas é a partir da interação entre eles que acessaremos um dos momentos mais paradigmáticos da história recente do país, seus ecos e seus fantasmas – atualmente sempre à espreita, em busca de um corpo no qual encarnarem. O momento: aquele Brasil pós-1964, os interstícios de uma guerra travada entre as forças do Estado e qualquer uma que ousasse contestá-las.… CONTINUA

Monstruosidade contraditória

O que são “as boas maneiras” referidas no título do filme de Juliana Rojas e Marco Dutra? A expressão é carregada de sentido irônico, ao qualificar determinado comportamento (“maneiras”) como bom (“as boas”), pressupondo que exista, em contraponto, um ruim. Sob qual ponto de vista estão “as boas maneiras”? Da dupla de realizadores? Dos personagens? Do espectador? Eis o primeiro enigma de um filme que, a partir de uma fábula de horror, desenvolve a complexidade de relações sociais num Brasil urbano de ares contemporâneos, onde… CONTINUA

Pedagogia de uma montagem que fala

Uma sala de aula, assim como um corpo, só consegue existir em relação com aquilo que se situa fora dela. Por mais que alguns façam de tudo para neutralizar tal condição através de um jogo retórico que rejeita e ignora a implicação do fora no curso dos acontecimentos imediatos, ele se fará presente. Ainda que tal jogo retórico produza fantasias como a ideia de grupo autossuficiente ou a percepção de um eu isolado, alguma corrente de ar teimará em vir lá da onde não estamos… CONTINUA

Um épico playground guerrilheiro

“Por uma concepção do sujeito ‘descentrada’ e ‘diluída’; (…) o japonês ignora a palavra pleno, que garante ( se garante) a existência do sujeito” ( Plano de trabalho sobre o cinema japonês de hoje, por Pierre Baudry) “Ler, esta prática” Mallarmé “O não-domínio assumido pelos Straubs não implica nenhum abandono ao acaso como última instância ( um acaso é um ‘vil significante’, como dizia Barthes), mas lhe imprime um campo determinado, uma área de ação circunscrita, a manobra como margem inscrita na maquinaria” La vicariance… CONTINUA

Névoa digital

Na história do cinema, poucos filmes se prestaram tanto à citação como Um Corpo que Cai. A proposta de A Névoa Verde de recriação do filme de Hitchcock de 1958 deveria ser, portanto, recebida com certa desconfiança, não fosse a estratégia singular adotada por Guy Maddin e seus colaboradores no projeto, os irmãos Johnson. Essa estratégia de trato com o filme baseou-se em uma série de escolhas determinadas. O primeiro passo foi o de reduzir Um Corpo que Cai a uma série sucessiva de motivos,… CONTINUA

Veemência pacífica

Camocim se interessa pelo momento eleitoral da cidade de mesmo nome, localizada no interior de Pernambuco, acompanhando de perto a cabo eleitoral Mayara em sua campanha por César Lucena. Em torno desse propósito, o filme se concentra nos 45 dias que antecedem a eleição até o resultado final, em que logo percebemos que os conflitos políticos daquela pequena cidade sintetizam questões mais gerais do Brasil, pois Camocim parece estar simultaneamente no meio do nada e no centro de tudo. Ao inserir-se nesses limites indefinidos, o… CONTINUA

Diante da dor das outras

A delicadeza pode ser, mas nem sempre é um atributo do cinema realizado por mulheres, feito com mulheres. Baronesa (2017), de Juliana Antunes, não é um filme delicado (ainda que seja realizado com cuidadosa atenção à realidade retratada). Dores íntimas, violências e confrontos mobilizam este filme “entrincheirado” (como diz a realizadora), na zona de uma guerra cotidiana que atravessa as casas, as vidas e os corpos das mulheres periféricas que nele assumem protagonismo. Como sonhar, ou como continuar a sonhar, ali, onde o mundo parece… CONTINUA

É preciso acreditar

Chocante (2017) e Bingo – O Rei das Manhãs (2017) são filmes de nostalgia. Não existiriam sem a certeza de conquistar, com pouco esforço, uma parcela do público ávida pela máquina do tempo que a leve de volta a algum lugar do passado. Como máquinas do tempo ainda não foram inventadas, a arte criou seus dispositivos: ficções de ontem que não pretendem contar uma história, mas conjurar um espírito. Filmes que não estão nem aí para o drama ou a comédia. O que interessa, na… CONTINUA

Acorda, gravidade!

  “Acorda, humanidade!”: com esse grito imperativo começava a epifania do morador de rua em Superoutro (1989), o filme de Edgard Navarro cujo desfecho faz a ponte com seu trabalho mais recente. Eram justamente Abaixo a Gravidade (2017) as últimas palavras do protagonista, antes de se atirar do alto do Elevador Lacerda para um voo transcendental e simbiótico com Salvador. A mesma expressão apareceu novamente em O Homem que Não Dormia (2011) e agora se torna convite direto para um novo mergulho no imaginário de… CONTINUA

O animal belo feroz

Quando assistimos a sequência de episódios que compõe a saga da Leona Assassina Vingativa adentramos a particularidade do universo forjado no instante em que uma câmera amadora é acionada com o intuito de experimentar, através do registro em vídeo, outro modo de recriar aquela brincadeira de encenação já improvisada tantas vezes quando de bobeira pelos cômodos da casa, na companhia vespertina das amigas depois de verem juntas algum episódio de Maria do Bairro ou A Usurpadora. Nessa tarde, o registro será mais um caminho para… CONTINUA