Meditação para um novo tempo

De 2006 até aqui, muitas mudanças ocorreram na Cinética, dos diferentes layouts ao longo desses anos, marcando as intenções da editoria quanto ao modo de abordar os filmes e pensar o cinema naquele momento, às diversas configurações do grupo de redatores e colaboradores da revista. Como lembrado em editorial anterior, hoje nenhum membro fundador encontra-se ativo na Cinética – ainda que eventuais colaborações especiais de ex-redatores tenham acontecido nos últimos anos. Contudo, este ano guarda a mais significativa das mudanças da história da revista: a… CONTINUA

O ritmo dos contrastes

O grosso da literatura dedicada ao Cinema Novo brasileiro alinhavou os filmes, especialmente a fase inicial de 1959 a 1962, a partir de dois vetores: o debate político em torno da realidade brasileira como princípio da feitura dos filmes, e a representação do povo, seus problemas e cultura como temas centrais à narrativa. Partindo da conjunção desses dois princípios seria possível, pelo olhar autoral dos artistas, chegar a uma “linguagem brasileira”, nova e única, expressão legítima desse povo representado na tela. A busca da realidade… CONTINUA

Fora da ordem

Hoje, tão fácil quanto produzir, editar, divulgar e distribuir imagens, é recusá-las. O mesmo clique que dispara também afasta e, assim, a roda do mundo (virtual) continua a girar entre a adoção e afastamento de um mar de pixels. Mas as imagens existem. Mais que nunca. Se elas mantinham um valor de ícone ligado a rituais muito concretos da comunidade, servindo como mediação entre seres humanos e instituições – a igreja católica desde a Idade Média, os Estados nacionais a partir do século XVI, e,… CONTINUA

Todo dia é um ato

Certa vez um comediante estadunidense disse: “Se você se lembra dos anos 1960 é porque não estava lá”. Para além da evidente provocação com a nostalgia (artística, revolucionária), há na blague uma traição saborosa, pois, para a maioria dos que lá não estiveram, o espírito da época é inapreensível em sua profusão de sentidos, contradições, possibilidades e angústias, especialmente o turbilhão em torno de 1968. Neste ano central para o mundo contemporâneo, os movimentos sinfonicamente dessincronizados em várias partes do Ocidente pontuavam uma promessa nunca… CONTINUA

Da tradição

.49º Festival de Brasília. O início de Antes o Tempo Não Acabava, de Sergio Andrade e Fábio Baldo, retrata de maneira bastante descritiva um ritual indígena. A câmera solta, na mão, observa os detalhes do ritual, maneia os cortes entre corpos em movimento no espaço, revelando a locação, as pinturas e vestuários tradicionais, com planos fechados mobilizados pela ação do evento. Os personagens fazem uma poção, cujo teor exato desconhecemos, sabendo apenas que é ”muito poderosa”. Ao redor de homens mais velhos regendo o ritual,… CONTINUA

Da centralidade do corpo

. 49º Festival de Brasília . Diante da parede desgastada de seu apartamento, Elon (Romulo Braga) faz uma espécie de exercício – inapreensível ao espectador pelo plano mais fechado – que agita seu dorso nu. De costas para a câmera, os ombros do personagem se contraem e relaxam com intensidade cada vez maior, como se o homem corresse sem sair do lugar. Os músculos se tonificam e criam um desenho gráfico de pele e ossos em movimento que transfigura no corpo a condição atormentada da… CONTINUA

Dos encontros

. 49o Festival de Brasília . Os primeiros minutos A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha, mostram a chegada por ônibus à cidade de Belo Horizonte de Teresa (Elizabete Francisca), jovem portuguesa imigrante, cujo sotaque se revela ao interagir com personagens anônimos da rodoviária. Fala de amenidades, espera por algo que não fica muito claro. Ao longo do filme, ela caminha pelos espaços do centro da capital mineira, adentra bares, lojas, percorre as calçadas e atravessa as ruas, num estudo da “arte de andar pelas… CONTINUA

Da urgência

. 49o Festival de Brasília .    Parte importante do cinema brasileiro da última década foi feita sob o signo da urgência. A principal delas foi durante muito tempo a urgência da encenação, a necessidade de expressão que, de modos diferentes, movimentou boa parte dos filmes e a sede pelo cinema de uma gama de realizadores. Essa urgência aparecia de modo muito cristalino em Conceição – Autor Bom É Autor Morto (2007), filme coletivo que discute a feitura da própria obra e os modos de encenação… CONTINUA

Uma apresentação

Em Maio de 2016, a Cinética completou dez anos de existência. A celebração alegre e justa da longevidade ativa e o conforto dos sapatos velhos colocavam resistência pertinente: por que mudar? Ainda sim, como se vê, mudamos. Novamente. E, mais do que uma carta de explicações ou um editorial – formalidade que se faz supérflua daqui por diante, embora os trabalhos da editoria permaneçam vitais para a existência da revista – cabe aqui sobretudo um convite, uma breve rodada de apresentação ao leitor que à… CONTINUA