No meio do caminho

Em uma entrevista de 2012 publicada no livro El Otro Cine de Eduardo Coutinho, o diretor de Moscou diz que a obra em questão “é um filme que deu errado, mas eu considero ao mesmo tempo que tem um mistério interessante”. Essa caracterização de Moscou como um fracasso acompanha o filme desde seu lançamento, assim como, em diversos artigos, as palavras-chaves “incompletude” ou “inacabamento” ou sua dificuldade se comparada à aparente frontalidade de sentidos de seus filmes ao longo dos anos 2000. Passada quase uma… CONTINUA

Entre ver e ser visto

O cinema guardou, ao longo de sua história, uma relação ambígua com sua pulsão escópica. O cinematógrafo – arte da ação = imprimir gestos, movimentos, ritmos num espaço-tempo determinado pelo próprio ato da impressão – tinha na curiosidade do olho-câmera uma espécie de ponto de atrito, usado tanto como metáfora de si quanto como motivos do olhar pela fechadura, adentrar espaços interditados ao público ou explorar dimensões da vida cotidiana inapreensíveis por diferentes razões. Porém, ao mesmo tempo que o cinema anedotiza o mundo, aguçando… CONTINUA

Crônicas de Tiradentes: 5. Jogos de cena – a forca e a força da autoria

A) A forca da autoria Um plano zenital mostra uma mulher com seu bebê recém-nascido. Ela parece exausta, atônita, pode-se até mesmo questionar se não estaria morta. Um pequena morte sobreposta a uma nova vida. Momentos depois esta mulher irá afogar esta criança num riacho, observada à distância pela câmera, até sobrar apenas o lençol branco que cobria o bebê flutuando na água, como uma tela em branco encharcada de significado. Rebento, de André Morais, faz desse mote sua narrativa. Esta mulher caminha. Não se… CONTINUA

Crônicas de Tiradentes: 4. Por entre espaços

É interessante reunir no mesmo texto Dias Vazios, de Robney Bruno Almeida, e Baixo Centro, de Ewerton Belico e Samuel Marotta, ainda que sob certos riscos. Pois, evidentemente são filmes com pontos de partida e universos muito diferentes e aproximá-los pode apenas cair na armadilha de juntar duas obras exibidas no mesmo dia, no mesmo evento. Uma mera casualidade. Contudo, com todas as diferenças, ambos os filmes estão ancorados no espaço e no deslocamento como motor narrativo, algo que não é novo, nem exclusividade desses… CONTINUA

Crônicas de Tiradentes: 3. Novos engajamentos

Em 2015 escrevi um texto discutindo a reconfiguração de forças ideológicas no cinema brasileiro que se avizinhava a partir de minhas percepções da cobertura do Festival de Brasília de 2014, quando Branco Sai Preto Fica, de Adirley Queirós, ganhou o principal prêmio do evento e, num gesto histórico, anunciou a divisão da premiação em dinheiro com os outros filmes em competição. Foi o ano da participação, além do filme de Queirós, de Ventos de Agosto, de Gabriel Mascaro, Brasil S/A, de Marcelo Pedroso, Pingo D’Água,… CONTINUA

Crônicas de Tiradentes: 2. Perdidos e malditos

Madrigal para um Poeta Vivo apresenta, logo de início, um panorama muito simples e claro. Tico, o poeta do título, surge na escuridão carregando um foco de luz e calor que servirá para acender uma fogueira. Em seguida, a equipe surge no meio de uma paisagem florestal andando pelos becos naturais da mata guiados pelo protagonista, antes de letreiros com os versos de Louco (Hora de Delírio), de Junqueira Freire, e um prólogo que apresenta o coveiro escritor e dá a informação de sua morte.… CONTINUA

Crônicas de Tiradentes: 1. Em torno do singular

Chego a Tiradentes este ano depois de dois anos e meio realizando um estudo panorâmico sobre o cinema brasileiro independente, comumente conhecido como novíssimo cinema brasileiro, o que cria para mim uma situação curiosa. Volto a um contexto que me é muito próximo, com novos filmes de cineastas os quais mergulhei sistematicamente nos últimos trinta meses, como Adirley Queirós, Affonso Uchoa, Rodrigo de Oliveira, Luiz Pretti; ao mesmo tempo em que as diversas mostras do festival este ano trazem cineastas e obras sobre os quais… CONTINUA

Meditação para um novo tempo

De 2006 até aqui, muitas mudanças ocorreram na Cinética, dos diferentes layouts ao longo desses anos, marcando as intenções da editoria quanto ao modo de abordar os filmes e pensar o cinema naquele momento, às diversas configurações do grupo de redatores e colaboradores da revista. Como lembrado em editorial anterior, hoje nenhum membro fundador encontra-se ativo na Cinética – ainda que eventuais colaborações especiais de ex-redatores tenham acontecido nos últimos anos. Contudo, este ano guarda a mais significativa das mudanças da história da revista: a… CONTINUA

O ritmo dos contrastes

O grosso da literatura dedicada ao Cinema Novo brasileiro alinhavou os filmes, especialmente a fase inicial de 1959 a 1962, a partir de dois vetores: o debate político em torno da realidade brasileira como princípio da feitura dos filmes, e a representação do povo, seus problemas e cultura como temas centrais à narrativa. Partindo da conjunção desses dois princípios seria possível, pelo olhar autoral dos artistas, chegar a uma “linguagem brasileira”, nova e única, expressão legítima desse povo representado na tela. A busca da realidade… CONTINUA

Fora da ordem

Hoje, tão fácil quanto produzir, editar, divulgar e distribuir imagens, é recusá-las. O mesmo clique que dispara também afasta e, assim, a roda do mundo (virtual) continua a girar entre a adoção e afastamento de um mar de pixels. Mas as imagens existem. Mais que nunca. Se elas mantinham um valor de ícone ligado a rituais muito concretos da comunidade, servindo como mediação entre seres humanos e instituições – a igreja católica desde a Idade Média, os Estados nacionais a partir do século XVI, e,… CONTINUA