Beijo no passado

Difícil ver Carvana (2018), documentário de Lulu Corrêa, sem a constatação da morte, apesar da manifesta celebração ao biografado. Morto em 2014, Hugo Carvana foi o bigodudo cara de pau, o suburbano flâneur, que depois tornou-se membro de uma autoconfessada elite intelectual. Era engajado: participou do Teatro de Arena de Augusto Boal, casou-se com a militante Martha Alencar, exilaram-se durante a ditadura de Garrastazu Médici. Mas era também adepto do Beco das Garrafas, figurante nas chanchadas da Atlântida, a mãe criadora do Dino, de Vai… CONTINUA

Figuras de um desmantelo blue

Um dos conceitos mais envolventes sobre espaço que conheço foi cunhado por Milton Santos. Com uma simplicidade cortante, Santos afirma: “O espaço geográfico é uma acumulação desigual de tempos onde convivem simultaneamente diferentes temporalidades”. Ao ler essa sentença, a primeira impressão que surge é a de um desvio do espaço pelo tempo. Mas há, na formulação, uma interessante provocação: o convívio – e essa palavra não é trivial – de distintas camadas temporais, como se o espaço fosse crivado por inscrições, vestígios, palimpsestos, acúmulos e… CONTINUA

Quando corpos desafiam suas figuras

Uma das formas de testar e sentir o corpo é confrontar os seus limites. Embora opostos, o sublime e o grotesco são dois gestos estéticos que costumam desafiar as fronteiras dos nossos corpos. Com o sublime, o corpo é afrontado numa extremidade do sensível. Diante de um espanto, aposta-se numa transcendência, pela qual os olhos, os ouvidos e mesmo a pele passam a sentir algo que não se supunha possível. Com o grotesco é o próprio corpo que entra em colapso, pende para o verso… CONTINUA

Figuras da persistência

Há um conhecido provérbio grego a dizer que “a faca não corta o fogo”. Muito aparta-se com uma lâmina. Muito ceifa-se com sua violência, sua vontade de dividir. Diante do fogo, a lâmina e seus ásperos fios de metal tornam-se impotentes – nada retiram. Queimam-se, apenas. O provérbio é uma metáfora sugestiva para captarmos a potência de dois documentários brasileiros que estrearam nesta Berlinale de 2019. Embora tenham formas de abordagens e mesmo grupos temáticos bem diferentes, ambos os filmes oferecem retratos contundentes de algumas… CONTINUA

Cinética Podcast #1 – 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes

No primeiro episódio do Cinética Podcast, participam Raul Arthuso, Marcelo Miranda e Maria Trika, num bate-papo sobre os filmes da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes. O festival aconteceu entre os dias 18 e 26 de janeiro de 2019, na cidade histórica mineira, e contou com grande cobertura da revista. No podcast de estreia da revista, a conversa trata principalmente dos títulos da Mostra Aurora, mas também são discutidos filmes das mostras Olhos Livres, Corpos Adiante e Foco. CINÉTICA NAS REDES Para ler, curtir, enviar… CONTINUA

O diabo opera no desespero

De todos os capítulos que costuram Canastra Suja, de Caio Sóh, dois se destacam. Incluem a longa sequência que começa aos 71 minutos de exibição e vai até os 103, quando Pedro (Pedro Nercessian) volta para casa, bagunçado e derrotado, após a tentativa de se enturmar em uma festa de jovens michês e clientes endinheirados. Onde muitos enxergam sordidez, sensacionalismo, vejo augúrio: Pedro é a imagem do brasileiro contemporâneo. Aquele que perdeu as esperanças, que se deixou levar pela própria ignorância, que não tem representatividade… CONTINUA

Aqueles que marcham com a noite

Filme da entropia como Sistema, da Devastação como doxa, da irreconciliação terrorista, ou devaneio expressionante sobre a insônia assombrada por dêbacles de Reação, Os Sonâmbulos aposta na alegoria como talvez a forma que nos restou, em tempos infectados por enxames de fatos e de faits divers, para pensar arquétipos: esta é uma Grande Forma Épica, destinada à Fixação de Gestos iniciáticos e Movimentos irreversíveis, e se insere como a representação mais evidentemente teológica daquele enunciado épico que, a partir do século XIV, vai dar passagem,… CONTINUA

O atravessar do toque

SUPERPINA: Gostoso é Quando a Gente Faz!, de Jean Santos – título, que, aparentemente, faz referência a pornochanchadas brasileiras – é um ficção científica sobre um estranho fenômeno que provoca clarões de luz multicolor no céu de alguns bairros de Recife, como Pina (onde a trama do filme se desenvolve), que desencadeia alguns acontecimentos estranhos como ataques de carrinhos de supermercado. SUPERPINA também nos conta sobre Paula, uma jovem cantora, que passa suas tardes junto de Isaura, uma senhora aposentada, e trabalhando no excêntrico supermercado… CONTINUA

hino à noite

o quadro da segunda entrevista de a rosa azul de novalis parece ordinário. marcelo dorio, nosso dândi tropical, sentado no sofá verde musgo à frente de uma parede com pinceladas abstratas rosas, com o mesmo roupão do plano anterior conversa conosco. já tendo olhado para a câmera na primeira cena convidando a equipe/o espectador a entrar no interior da casa, em seu domínio privado, em seu interior (futuramente literal), agora o pressuposto é de que ele vá só desdobrar seus insights e confissões. no dispositivo… CONTINUA

A cidade é um campo de batalha

Assim como em A Cidade é uma Só? (2011), de Adirley Queirós, Parque Oeste começa com mapas traçados de uma jovem cidade planejada. No primeiro, a cidade é Brasília; aqui, Goiânia. E, da narrativa de progresso e promessa, que esses filmes fazem seu contra plano. Nesses projetos de urbanismo das cidades, a “promessa modernizadora” haussmanniana expele para as bordas a população trabalhadora, através de mecanismos de especulação, encarecimento do centro e repressão, e assim ordenando o regime de visibilidade da cidade em sua geografia, cuja… CONTINUA