Esse assombroso passado

Se hoje um criador precisa lidar com as lembranças de tudo que existiu antes no cinema, ele ainda pode contar com uma constante: o poder do fascínio da ficção, da necessidade humana de fabular, encontrando no cinema uma ferramenta poderosa pela maneira como consegue acessar um imaginário e fazer literalmente que se veja o mundo por outras lentes. Nesse sentido, poucos cinemas são tão informados pelo poder da imagem cinematográfica e pela mitologia por ela criada quanto o de Quentin Tarantino. E se isso é… CONTINUA

Projeções do real

Não é preciso nenhuma grande interpretação crítica, até porque tal fato está falado com todas as letras no testemunho de um dos entrevistados com maior acesso ao personagem-título de Diego Maradona: na combinação desses dois nomes havia na verdade duas pessoas diferentes com quem os próximos a ele precisavam se relacionar. E se não se pode dizer que a ideia dessa necessária separação entre “Diego” e “Maradona” não chegue a ser uma novidade (afinal, Pelé – sempre ele assombrando narrativas de Maradona – já falava… CONTINUA

Às armas, cidadãos

Não tenho lembrança da competição em Cannes começar com três filmes em diálogo tão claro e direto, entre si e com o mundo à sua volta. Vindos dos EUA, da França e do Brasil, os filmes de Jim Jarmusch, Ladj Ly e Kleber Mendonça Filho/Juliano Dornelles conversam não apenas pela chave mais fácil da incorporação dos códigos de distintos cinemas de gênero (filme de zumbi, filme policial, filme de ficção científica/ação/gore) mas principalmente pela forma como, ao propor um olhar absolutamente grudado no presente sócio-político… CONTINUA

Jardim dos detritos

Considerado por trinta anos como um filme perdido, O Jardim das Espumas voltou à circulação no Brasil com a descoberta de uma cópia na França, em 2014. Marco do que se convencionou chamar de Cinema Marginal, trata-se ainda de um filme muito mais conhecido do que propriamente visto. O descobrimento de uma cópia tida como desaparecida não apenas tem permitido que outra geração tenha acesso a este trabalho de Luiz Rosemberg Filho, mas atribui ao filme a condição de uma ação diferida. O atraso com que… CONTINUA

A Chance de Um Milhão de Dólares

Erasmo Carlos sempre foi uma espécie de “patinho feio” na história da música brasileira. Noves fora sua imagem de sujeito bonachão, coautor das canções que Roberto Carlos imortalizou, a narrativa consagrada de Erasmo é a de uma espécie de Pete Best ao contrário: o que permaneceu no lugar certo na hora certa, mas que nunca conseguiu devolver em sua própria carreira a complexidade que o amigo de fé, irmão camarada, esbanjou até se tornar uma caricatura. Em meados dos anos 1970, para um desavisado, Erasmo… CONTINUA

Beijo no passado

Difícil ver Carvana (2018), documentário de Lulu Corrêa, sem a constatação da morte, apesar da manifesta celebração ao biografado. Morto em 2014, Hugo Carvana foi o bigodudo cara de pau, o suburbano flâneur, que depois tornou-se membro de uma autoconfessada elite intelectual. Era engajado: participou do Teatro de Arena de Augusto Boal, casou-se com a militante Martha Alencar, exilaram-se durante a ditadura de Garrastazu Médici. Mas era também adepto do Beco das Garrafas, figurante nas chanchadas da Atlântida, a mãe criadora do Dino, de Vai… CONTINUA

Figuras de um desmantelo blue

Um dos conceitos mais envolventes sobre espaço que conheço foi cunhado por Milton Santos. Com uma simplicidade cortante, Santos afirma: “O espaço geográfico é uma acumulação desigual de tempos onde convivem simultaneamente diferentes temporalidades”. Ao ler essa sentença, a primeira impressão que surge é a de um desvio do espaço pelo tempo. Mas há, na formulação, uma interessante provocação: o convívio – e essa palavra não é trivial – de distintas camadas temporais, como se o espaço fosse crivado por inscrições, vestígios, palimpsestos, acúmulos e… CONTINUA

Quando corpos desafiam suas figuras

Uma das formas de testar e sentir o corpo é confrontar os seus limites. Embora opostos, o sublime e o grotesco são dois gestos estéticos que costumam desafiar as fronteiras dos nossos corpos. Com o sublime, o corpo é afrontado numa extremidade do sensível. Diante de um espanto, aposta-se numa transcendência, pela qual os olhos, os ouvidos e mesmo a pele passam a sentir algo que não se supunha possível. Com o grotesco é o próprio corpo que entra em colapso, pende para o verso… CONTINUA

Figuras da persistência

Há um conhecido provérbio grego a dizer que “a faca não corta o fogo”. Muito aparta-se com uma lâmina. Muito ceifa-se com sua violência, sua vontade de dividir. Diante do fogo, a lâmina e seus ásperos fios de metal tornam-se impotentes – nada retiram. Queimam-se, apenas. O provérbio é uma metáfora sugestiva para captarmos a potência de dois documentários brasileiros que estrearam nesta Berlinale de 2019. Embora tenham formas de abordagens e mesmo grupos temáticos bem diferentes, ambos os filmes oferecem retratos contundentes de algumas… CONTINUA

Cinética Podcast #1 – 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes

No primeiro episódio do Cinética Podcast, participam Raul Arthuso, Marcelo Miranda e Maria Trika, num bate-papo sobre os filmes da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes. O festival aconteceu entre os dias 18 e 26 de janeiro de 2019, na cidade histórica mineira, e contou com grande cobertura da revista. No podcast de estreia da revista, a conversa trata principalmente dos títulos da Mostra Aurora, mas também são discutidos filmes das mostras Olhos Livres, Corpos Adiante e Foco. CINÉTICA NAS REDES Para ler, curtir, enviar… CONTINUA