O mundo desde o fim

No trato com o romance de Antonio di Benedetto, há uma omissão significativa em Zama. Já na jornada final, quando o destacamento reunido para a caça do bandido Vicuña Porto se depara com o grupo de índios conhecido como “os cegos”, di Benedetto invoca uma anedota marcante. Depois que a tribo inteira tivera a visão extirpada pelos inimigos, os homens e mulheres encontraram uma insuspeita liberdade na mutilação: em terra de cego em que não há sequer um caolho, todas as convenções tradicionais são, de… CONTINUA

Espelhos do poder

Terremoto Santo é possivelmente a manifestação mais desconcertante da pesquisa atual dos artistas Bárbara Wagner e Benjamin de Burca. Conscientes da função apaziguadora que uma certa ideia de cultura popular ocupou na formação dos imaginários nacionais e regionais, e ao mesmo tempo muito sensíveis às ambivalências políticas do cinema e da fotografia etnográficos, os artistas têm se lançado a um questionamento das formas de visibilidade do que chamam de “corpo popular”. A pesquisa tem resultado em um conjunto notável de filmes de curta duração, inicialmente… CONTINUA

Nada é provisório

O golpe civil-militar de 1964 promoveu uma mudança paradigmática no tipo de cinema produzido pelos cinemanovistas. Dentre as muitas manifestações que surgiram a partir de Aruanda (Linduarte Noronha, 1960) ou Cinco Vezes Favela (Marcos Farias, Miguel Borges, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirszman, 1962) até o catedrático ano, a perspectiva do grupo se aproximava de cenários da pobreza (como o Nordeste e a favela) e, em paralelo, defendia a autoria e a originalidade estética do movimento, tão bem descrita por Glauber Rocha… CONTINUA

A lírica do exílio nos filmes de Leonardo Mouramateus

# What the hell am I doing here? O escape. Vazar. Dar no pé; sair fora. Os primeiros curtas-metragens de Leonardo Mouramateus retratam anseios como esses, nos quais seus personagens aspiram por terrenos bem distantes. Mauro em Caiena (2012) já sugeria algumas pistas. Em over, a voz do diretor evoca uma carta a um tio que fugiu dos “prédios feiosos de Fortaleza”, embrenhou-se clandestino pela Amazônia, tornou-se um imigrante ilegal, um refugiado. Nem aqui, nem lá, e ainda por voltar – a passar por um… CONTINUA

O bullying nosso de cada dia

Filmes sobre transições adolescentes são quase todos iguais. Principalmente os ruins. Lá pelo início dos anos 1980 o cinema norte-americano esquentou a fórmula, repetida ad nauseam, e um bom marco talvez seja Gatinhas e Gatões (Sixteen Candles, 1984), de John Hughes, ornamento da Sessão da Tarde. Claro que ressalvas existem: o brasileiro As Melhores Coisas do Mundo (2010), de Laís Bodansky, e o mexicano Depois de Lúcia (Después de Lucia, 2012) trabalharam velhíssimos dilemas com criatividade e filiação à causa. Mesmo Hughes inventaria, em 1985,… CONTINUA

Crônicas de Tiradentes: 5. Jogos de cena – a forca e a força da autoria

A) A forca da autoria Um plano zenital mostra uma mulher com seu bebê recém-nascido. Ela parece exausta, atônita, pode-se até mesmo questionar se não estaria morta. Um pequena morte sobreposta a uma nova vida. Momentos depois esta mulher irá afogar esta criança num riacho, observada à distância pela câmera, até sobrar apenas o lençol branco que cobria o bebê flutuando na água, como uma tela em branco encharcada de significado. Rebento, de André Morais, faz desse mote sua narrativa. Esta mulher caminha. Não se… CONTINUA

Gesto fundamental

Não dá para falar de Bandeira de Retalhos sem passar pelo violão de seu diretor. Na verdade, não dá para falar da história da arte moderna no Brasil sem ir a ele. Violão perdido, porque, arremessado com justiça a uma plateia estúpida, foi rebaixado a gesto desvairado dum artista em fúria. Enfurecido Sérgio Ricardo estava, ali no 3o Festival de Música Popular Brasileira da Record, em 1967, pois o mimado público o impedia de tocar “Beto Bom de Bola” por puro fricote de querer ouvir… CONTINUA

Crônicas de Tiradentes: 4. Por entre espaços

É interessante reunir no mesmo texto Dias Vazios, de Robney Bruno Almeida, e Baixo Centro, de Ewerton Belico e Samuel Marotta, ainda que sob certos riscos. Pois, evidentemente são filmes com pontos de partida e universos muito diferentes e aproximá-los pode apenas cair na armadilha de juntar duas obras exibidas no mesmo dia, no mesmo evento. Uma mera casualidade. Contudo, com todas as diferenças, ambos os filmes estão ancorados no espaço e no deslocamento como motor narrativo, algo que não é novo, nem exclusividade desses… CONTINUA

A imagem da vida

Todos os Paulos do Mundo começa com voz off de seu biografado recitando o mito da Torre de Babel, sobre a proliferação dos povos pela Terra, com suas línguas e culturas distintas confundindo-se, em desentendimento. Extraída de 500 Almas (2004), de Joel Pizzini, a fala aparece agora, neste longa de Rodrigo de Oliveira e Gustavo Ribeiro, imantada ao começo de A Vida Provisória (1968), de Maurício Gomes Leite. Na cena, um plongée avista a cidade do alto e mergulha até Paulo José, que assiste mais… CONTINUA

Crônicas de Tiradentes: 3. Novos engajamentos

Em 2015 escrevi um texto discutindo a reconfiguração de forças ideológicas no cinema brasileiro que se avizinhava a partir de minhas percepções da cobertura do Festival de Brasília de 2014, quando Branco Sai Preto Fica, de Adirley Queirós, ganhou o principal prêmio do evento e, num gesto histórico, anunciou a divisão da premiação em dinheiro com os outros filmes em competição. Foi o ano da participação, além do filme de Queirós, de Ventos de Agosto, de Gabriel Mascaro, Brasil S/A, de Marcelo Pedroso, Pingo D’Água,… CONTINUA