História do olho

A mais recente embarcação de James Gray lembra: não somos ingênuos a pelo menos três dos rastros mais distintivos, e, portanto, também, mais reiterativos, escorregadios, da chamada ficção científica como tratada pelo cinema – e não simplesmente porque a certos gêneros a assinatura de seus traços é uma docilidade aos olhos: 1) fala-se de uma noção de cidade, de um espaço reflexivo diante das relações que ali se travam e/ou não mais se travam, 2) é perceptível um arranjo de técnicas constituintes dos limites de… CONTINUA

Aqueles que não querem se afetar

Durante uma hora, vinte e oito minutos e dezessete segundos, entre os dias vinte e quatro e vinte cinco de maio de 1975, a lua sangrenta se interpôs por completo entre o sol e a terra, lambuzando a Argentina de vermelho. Exatamente dez meses a partir do eclipse lunar total a Argentina sofreria um golpe, que retiraria Isabelita Perón do governo e uma junta militar, liderada por Jorge Rafael Videla, ascenderia ao poder e iniciaria uma ditadura no país. É no contexto desses dois eventos… CONTINUA

Enterrando nossos vivos

Lá pela metade da terceira história do excepcional La Flor (2019), de Mariano Llinás, Dreyfuss (Horacio Marassi), um cientista alemão sequestrado que termina amarrado no banco de trás de um carro em terras desconhecidas, liga os pontos que o levaram até aquele momento para tentar imaginar seu destino. Enquanto as sequestradoras guiam por planícies desertas, falando apenas em francês, ele especula que elas estão apenas esperando que o cair da noite: – “Chegou a hora. Elas vão me matar.” Mas elas não o matam. E… CONTINUA

O retorno ao pornodrama

Escondida em uma quitinete no Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro de Copacabana, a pornochanchada permanece viva entre nós. Tem saudades do tempo em que, serelepe, circulava pela cidade querida. Invadia a praia, os botequins e, principalmente, os cinemas. Passeava de carro, mantinha outro endereço em São Paulo, fumava cigarros Vila Rica – porque levava vantagem em tudo –, era fértil e desejada. Hoje muitos pensam que está morta, mas a verdade é que sempre a alimentamos clandestinamente e, de vez em quando, alguém… CONTINUA

“Deus ajuda quem cedo madruga” – Considerações tardias sobre o 21º Festival Brasileiro de Cinema Universitário

É certo que hoje podemos pensar o mundo do trabalho como um tema especialmente recorrente nas imagens do cinema brasileiro, mas mais interessante do que evidenciar um diagnóstico de problemáticas à vista, é buscar compreender os sentidos que se produzem e se transformam a partir das novas e variadas formas de relacionamento com essa questão que há muito nos persegue; é perceber como eles articulam os reflexos de uma realidade em mutação, ou ainda: como eles mesmos se tornam a própria expressão dessa mutação. Não… CONTINUA

Brasileiros são os outros

Raros os cineastas que conseguem gerar expectativas a cada vez que lançam um novo filme. Pedro Almodóvar e Quentin Tarantino são os primeiros que me vêm à mente. Talvez Woody Allen, aos 83 anos, mantenha esse espírito. Clint Eastwood, aos 89, é outro da lista. Mas no caso de Allen e Clint temos a celebração do passado glorioso. É como um show dos Rolling Stones, ou de Paul McCartney: o sentimento de “uau, eles ainda estão aqui!” supera o impacto que possam causar. No clube… CONTINUA

Ninguém solta a mão de ninguém

O nordeste sertanejo de Bacurau faz remissão ao retrato da região feito por alguns cineastas pernambucanos no pós-retomada. Ele é espaço de confluência entre a tradição e a modernidade (um cortejo de enterro ao som da guitarra elétrica amplificada). Tem como ponto turístico o museu, mas tem wi-fi aberto e localização no Google Earth. Se um O Céu de Suely fazia do calor vencido pela geladeira um dos signos de transformação desta geografia durante a Era Lula – uma paleta de cor vívida e brilhante… CONTINUA

O fundo do ar entre duas carrocerias

Logo que a greve dos caminhoneiros, em maio de 2018, bloqueou inúmeras rodovias do país e se fez assunto incontornável – por efeito cascata, percebida no desabastecimento de produtos e nas filas de carro infindáveis por combustível –, muitos interrogaram sobre o locaute articulado pelas empresas distribuidoras, instrumentalizando os caminhoneiros como “massa de manobra” de intenções patronais na diminuição do preço combustível. Imbuída da postura crítica que “vê aquilo que está por trás das aparências”, essa versão deu a tônica para que setores do campo… CONTINUA

Coração no olho

Um bandido de meia tigela, uma cobradora de ônibus cansada de aguentar desaforo e uma aspirante a gênia do crime armam um golpe pra acertar a boa de uma vez por todas e meter o pé. Ao redor do trio principal, uma porção de gente toca a vida no bairro Laguna, entre juntar dinheiro pra trocar de carro e vingar a morte do filho assassinado. A crônica prosaica encontra o filme de ação, como já era o caso nos dois curtas cujos personagens fazem parte… CONTINUA

Contingência petrificada em fatalidade

Sempre que falamos em Ozualdo Candeias, é difícil não lamentar pelo lugar encoberto que o realizador ocupa na história do cinema brasileiro ou mesmo pela dificuldade em encontrar cópias dos seus filmes. O que urge, por outro lado, é que lamúrias e queixas parecem impróprias ao falar do cinema de alguém que enxerga seus personagens sem qualquer paternalismo ou transigência, e justamente desse gesto extrai força e sentido inesperados. Assistindo os filmes de Candeias, fica a impressão de que ninguém melhor que ele soube incorporar… CONTINUA