Os fantasmas da história tocados por luvas de pelica

Há uma peculiar dialética entre proximidade e distância que ronda a maior parte dos documentários de João Moreira Salles. Seus filmes de retratos, com contornos biográficos, como Nelson Freire (2003) e Entreatos (2004), alternam-se entre instantes de uma aproximação mais reservada e uma forma de olhar que resvala em certa intimidade. Lembro do close do cigarro a descansar no cinzeiro, lentamente, num momento franco, confessional, do tímido pianista Nelson Freire; das falas de Lula, no seu jatinho de campanha eleitoral, numa conversa um tanto distinta… CONTINUA

Pretextos e adereços

O fatalismo no cinema de Felipe Bragança desabrocha de um gesto de resistência juvenil. Uma violência que pode ser apenas simbólica em seu trato subversivo, mas que preserva uma dimensão política implícita em sua condição de um não-contentamento. Desde seus curtas-metragens e primeiros longas realizados em parceria com Marina Meliande, o diretor parece assimilar uma sentença narrativa em que os personagens, para não serem engolidos por um entorno ameaçador, preservam certa integridade, uma inocência utópica que não só infantiliza um modo de ser e de… CONTINUA

Mapa da miséria

“Premiado em Karlovy-Vary, o filme interessou ao público europeu; de um ponto de vista formativo para o cinema brasileiro, é um destes enganos que devem ser estudados a fim de que não se repitam.” O diagnóstico cruel de Glauber Rocha em relação a O Canto do Mar (1953), registrado na Revisão Crítica do Cinema Brasileiro e publicado pela primeira vez em 1963, colaborou para certo apagamento do filme de Alberto Cavalcanti na historiografia mais séria e relevante do cinema brasileiro. A virulência de Glauber surgia… CONTINUA

Um continente perdido

Vida de Menina (2003) esconde, pelo menos, três Helenas: a Solberg, que o dirige; a Morley, que escreve o texto base; e a suicida, adaptada por Paulo Emílio Salles Gomes, no roteiro do Memória de Helena (1969), de David Neves. Todas flutuam em torno de Minha Vida de Menina, o livro que Alice Dayrell Caldeira Brant, sob o pseudônimo de Helena Morley, publicou aos 62 anos, em 1942. Era uma senhora idosa no Brasil getulista. Abriu as páginas do tempo, contou as peripécias dos seus… CONTINUA

Miragem na montanha

Como na abertura de Casa Grande (Fellipe Barbosa, 2014), o primeiro plano de Gabriel e a Montanha é de uma eloquência cristalina. Uma panorâmica segura, ritmada e imponente revela dois homens que recolhem capim no alto de uma montanha, até que um deles encontra algo na mata. Gradualmente, a câmera abandona os corpos dos trabalhadores e a paisagem inicial, aproximando-se lentamente do rosto de um rapaz branco, morto em um buraco na pedra. O que acompanharemos a seguir são os 70 dias de aventuras que… CONTINUA

Uma noite de “facas longas”

Uma das maiores virtudes de O Animal Cordial, primeiro longa da Gabriela Amaral Almeida (que conta com vários curtas no currículo, entre eles Uma Primavera, A Mão que Afaga ou Estátua, de 2011, 2012 e 2014, respectivamente), é a de saber articular uma intenção de produzir um discurso sobre o Brasil – um Brasil atual, dos dias de hoje, mas no qual o patrimônio histórico, com todas as suas problemáticas e nuances (políticas, culturais, sociais, raciais), está permanentemente presente – com um olhar reflexivo, inteligente… CONTINUA

O ritmo dos contrastes

O grosso da literatura dedicada ao Cinema Novo brasileiro alinhavou os filmes, especialmente a fase inicial de 1959 a 1962, a partir de dois vetores: o debate político em torno da realidade brasileira como princípio da feitura dos filmes, e a representação do povo, seus problemas e cultura como temas centrais à narrativa. Partindo da conjunção desses dois princípios seria possível, pelo olhar autoral dos artistas, chegar a uma “linguagem brasileira”, nova e única, expressão legítima desse povo representado na tela. A busca da realidade… CONTINUA

Viver em desencaixe

Após um curto prólogo, As Duas Irenes convida a câmera à mesa, onde quatro mulheres de idades diferentes gravitam em torno de um patriarca que olha pela janela. A decupagem inaugura o nó dramático com um plano médio que coloca Tonico (Marco Ricca) na cabeceira da família, olhando para fora daquela casa (e, no cinema, todo olhar é uma forma de desejo). O filme não será sobre ele, assumindo seu ponto de vista, e o corte seguinte anuncia que suas ações deflagrarão (ou melhor, deflagraram)… CONTINUA

O cinema canvas e o último respiro

Três prévias, Lumière: 1. Laveuses sur la rivière (1897) Ninguém duvida do esmero cênico dos primeiros filmes dos Lumière, mas este filme-plano, especificamente, parece destoante do imaginário que os irmãos fundadores evocam. As costumeiras linhas diagonais que denotam uma espacialidade mais aprofundada por entre camadas – primeiro, segundo, terceiro plano – dão lugar a uma impressão de achatamento, como uma superfície bidimensional. Sabemos que os elementos da parte inferior da imagem estão mais próximos do que os da parte superior, mas a distância é pouco… CONTINUA

A cena muda

A descrição da sessão de estréia de Era uma vez Brasília em sua cidade-título sugeriria ter sido uma ocasião muito adequada ao que o filme sugere buscar. Sala lotada, pessoas no chão, o diretor de Branco Sai Preto Fica apresenta seu mais recente filme. Começa a projeção e um problema se produz: Adirley Queirós – cuja imagem foi amplamente fetichizada por um certo olhar classicista que o elegeu como cineasta da quebrada da temporada, como Messias encarregado de encenar “nossa” revanche contra “eles” – lançou… CONTINUA