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Levante de um corpo em colisão

Uma montagem confrontativa abre a experiência de Cadê Edson?, empurrando-o ao choque entre materiais dissemelhantes que forja o ritmo particular do filme e acende dentro de sua dinâmica os fios desencapados constitutivos do gesto político que ele realiza. Entre a chispa de um e outro momento retratado, Cadê Edson? conecta-se às três camadas que serão trabalhadas em implicação mútua ao longo do filme: a figura da liderança política de Edson, a do movimento popular por moradia no Distrito Federal e a da conjuntura política que remexe o país durante as filmagens.

Para a relação firmada entre cada uma das três camadas, um ponto em comum sedimenta a condição de existência de todas elas: a denúncia enquanto modo de inscrição. Seja na exposição da perseguição jurídica ao líder político, nas imagens da repressão policial ao movimento popular ou na asfixia social vivida no âmbito conjuntural, o filme acontece em meio ao desafio de lidar com o comparecimento da violência enquanto um vetor narrativo e ainda assim redescobrir dentro de si a pulsão que o impeça de paralisar-se diante dela. Para romper com o perigo resignante da denúncia, ele lança mão das ferramentas que vai adquirindo no corpo-a-corpo com as histórias da luta que coletamos junto ao filme durante sua experiência.

A começar pelo modo de aproximação vivido com cada um dos personagens com quem se conversa – nunca o mesmo enquadramento e jamais um enquadramento qualquer. O filme entrega a atenção de sua forma àqueles a quem escuta mesmo que os depoimentos sejam ligeiros, como demanda o ritmo da montagem. Essa amizade com seus interlocutores dá a Cadê Edson? uma boa dose de vitalidade para que o filme não esmoreça, ainda que trabalhe a dureza de cada relato para instaurar sua presença.

Derivando desse exercício de escuta, o filme incorpora ao seu movimento interno aquilo que apreende do movimento dos personagens. O choque entre os materiais enseja nele a mesma corrente elétrica que os militantes tocam ao narrarem a si próprios a partir das experiências coletivas. A conjuntura política brasileira participa desse bate-cabeça entre materiais distintos organizada pela pulsão de quem a experimenta nos pontos limites de seu cotidiano. Se o impeachment consegue se tornar elemento narrativo antes das olimpíadas brasileiras, por exemplo, é porque o fio se conduz não a partir de uma ordem cronológica, mas por uma espécie de giro da memória que inscreve a história da luta desalinhavada como uma criatura viva que pensa e recorda a si mesma.

A relação farockiana que Cadê Edson? estabelece com as imagens do poder – sejam elas os vídeos-performance produzidos pela polícia militar ao filmar a reintegração de posse de um dos prédios ocupados ou o depoimento dos militantes na delegacia após serem presos e ameaçados – compartilha da mesma firmeza com que Edson comenta as contradições que o fizeram afastar-se do MTST quando o movimento se aproxima do governo Dilma. As feridas são tocadas sem melindres ou maquiagens. Edson se retira para organizar junto com outra leva de companheiros um novo movimento por moradia no DF, o MRP (Movimento de Resistência Popular), e a precisão com que o filme incorpora o comentário crítico revela uma proximidade que dissolve tanto a chave da idealização quanto a da repulsa.

Na ligação entre sujeito e movimento político, a marcação do título não chega a se justificar. Durante o debate pós-filme descobrimos que a escolha se dá pela vontade de responder ao quadro que a grande mídia projetou para Edson durante o processo legal que ele respondia sob ameaça de ser condenado a mais de dez anos de prisão. Numa reação imediata a essa caricatura, o filme se realiza no desejo de desenhar um outro rosto para a figura de Edson, daí a pergunta-mote. Contudo, após a experiência empírica do filme se suceder com a participação polifônica que lhe é característica (quando uma luta fala, ela não diz jamais “eu”) a permanência do titulo perde sua potência de engajamento. Inscreve uma individualidade organizadora que não se coaduna ao escopo do filme – esse sim capaz de se guiar por Edson sem precisar enquadrar excessivamente a sua figura – e periga aderir à vontade policialesca de cercar o movimento no sujeito que em tese o lidera.

Cadê Edson? se ressalta entre os filmes da 23ª Mostra de Tiradentes por se encorajar a olhar no olho de seu presente histórico sem deixar que esse ato, por susto ou melancolia, atrofie suas articulações. Pelo trabalho temporal que o coloca num ato de reciclagem ininterrupto, em que o futuro e o presente se imbricam, o filme consegue nos oferecer uma frequência que recria a si mesma a cada instante. Situar a câmera lado a lado, nem acima nem abaixo, dos sujeitos que emanam a eletricidade do levante, parece apontar uma proveitosa linha-de-força nessa direção. Mesmo que os assistamos chorar ou apanharem das forças repressivas, existe uma verdade criada pelo filme no lamento e na dor que necessitam serem compartilhados, mas não podem se resolver em si mesmos. O filme retrabalha, assim, a pergunta que Kênia Freitas faz no seu texto para a mostra, citando Saidiya Hartman: “como revisitar a cena de sujeição sem replicar a gramática da violência?”. Uma pista que Dácia nos entrega é o gesto de fazer-se companheira dos muitos corpos que se forjam no embate com a situação de adversidade comum. Como cada filme também cria um corpo para si, Cadê Edson? passa a ser um deles.


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