Uma percepção impossível

“Dizer que Madeleine é uma falsa loira, francamente não resolveria nada” Daniel Arasse, historiador do maneirismo italiano “Estou sempre procurando por você e acho que sinto falta de tudo, porque sinto sua falta” Marie de Rabutin Chantal, marquesa de Sévigné Closes, planos de conjunto, vistas gerais e planos de detalhe: o cinema – por osmose fetichista numa arte tão votada à obsessão en abîme pela imagem ou por direito genealógico de herança – herdou da pintura o retrato e o modulou segundo modus operandi muito… CONTINUA

A noite iniciática

“Ô Frâiche nuit, nuit transparente, Mistère sans obscurité; la vie est noire et dévorante; ô frâiche nuit/ nuit transparente, donne-moi ta placidité/ (…) mon coeur bouillonne comme une urne; ô sainte Nuit, nuit taciturne, fais le silence dans mon coeur” Lieder de César Franck, letra de Louis de Fourcauld “The process of delving into the black abyss is to me the keenest form of fascination” Howard Phillips Lovecraft, The Nameless City O primeiro plano de A Noite Amarela é um close de uma menina que… CONTINUA

O fundo do coração e outras superfícies

“Nada de grandioso no mundo se realizou sem paixão” Hegel, Prefácio à Fenomenologia do Espírito “A Realidade não é arte, mas uma arte realista é aquela que cria uma integral estética da realidade” André Bazin, O que é o cinema? A sentença que propriamente ameaça saltar para fora e estilhaçar, com uma pressão de hidrogênio afetivo, o bojudo universo centrípeto dos personagens de No Coração do Mundo – sim, eles sonham, mas moram em Contagem -, propulsionando o filme mais diretamente para o hors champ… CONTINUA

O Cassavetes performático e fantasmático: A via-crucis pática em “A Morte de um Bookmaker Chinês”, “Noite de Estreia” e “Amantes”

“Se a mimeses só representa em imagem o que viu, a phantasia também o que não viu” Flavius Filóstrato, Vida de Apollonius de Tyane “Que fórmula encontrar para dizer ou pensar que o falso é real?” Platão, O Sofista “Se a sujeira desempenha um papel positivo sob certas condições, é porque a ausência de forma possui um poder criador. A sujeira, a loucura, a morte – em suma: tudo o que é, em relação a um sistema, o negativo e o outro, deve ser de… CONTINUA

Aqueles que marcham com a noite

Filme da entropia como Sistema, da Devastação como doxa, da irreconciliação terrorista, ou devaneio expressionante sobre a insônia assombrada por dêbacles de Reação, Os Sonâmbulos aposta na alegoria como talvez a forma que nos restou, em tempos infectados por enxames de fatos e de faits divers, para pensar arquétipos: esta é uma Grande Forma Épica, destinada à Fixação de Gestos iniciáticos e Movimentos irreversíveis, e se insere como a representação mais evidentemente teológica daquele enunciado épico que, a partir do século XIV, vai dar passagem,… CONTINUA

Os corpos gloriosos

Em “Plan contre flux”, um texto já clássico no estudo de dicotomias cinematográficas, Stéphane Bouquet fala-nos do cinema somático do “fluxo”, modulado pelo beat energético do plano-sequência, que captura os devires de um corpo; e um cinema (mais clássico) do plano fixo, do ponto de vista, da perspectiva universal, do cogito do sujeito do conhecimento. O cinema de Claire Denis sempre se inclinou mais para o fluxo, mas o acompanhamento de seus filmes por esses devires desregulados da matéria nunca lhe interditou o dever de coreografá-los, de… CONTINUA

A dívida, o segredo, o labirinto

“Queriam nos queimar vivos”, Nuno, personagem de No Quarto da Vanda, de Pedro Costa “Estes genealogistas da moral jamais viram até aqui, nem que fosse de maneira vaga, que o conceito de Schuld (falta, culpa), por exemplo, conceito fundamental da moral, remonta ao conceito bem material de schulden (dívida); (…) Durante o mais longo período da história humana, não punimos de maneira alguma porque pensávamos o malfeitor como responsável por sua ação, portanto de forma nenhuma pensando que apenas o culpado deve ser punido; não,… CONTINUA

Um épico playground guerrilheiro

“Por uma concepção do sujeito ‘descentrada’ e ‘diluída’; (…) o japonês ignora a palavra pleno, que garante ( se garante) a existência do sujeito” ( Plano de trabalho sobre o cinema japonês de hoje, por Pierre Baudry) “Ler, esta prática” Mallarmé “O não-domínio assumido pelos Straubs não implica nenhum abandono ao acaso como última instância ( um acaso é um ‘vil significante’, como dizia Barthes), mas lhe imprime um campo determinado, uma área de ação circunscrita, a manobra como margem inscrita na maquinaria” La vicariance… CONTINUA

O lugar do “lá”

Em crítica, fala-se comumente em efeitos de fora de campo, retórica destinada a ativar na cabeça do espectador a ideia, sugerida embora, de que ao campo preexiste sua alteridade incomensurável, de natureza tópica (a equipe, a câmera de filmar) ou transcendental-significativa (a Memória, o Imaginário): a pontualidade ou vastidão do fora de campo desvelado vai decidir em geral da grandeza do filme; pensemos, por exemplo, em thrillers, neste travelling dianteiro que progressivamente vai se aproximando do corpo a quem segue, na noite alta; não é… CONTINUA

A última Canaã

“A pintura não é nada senão um pano de algodão tecido pelo inferno, que dura pouco e tem pouco preço; ao retirar-se a fina película que a recobre, ninguém mais se dá conta do que acontece”. Carta de Pontormo a Benedetto Varchi, 1564 “Ce monde, je ne sais pourquoi dejà exténué, ne vient pas vers nous, ne nous entrâine pas em lui: il nous change momentanément- il exige plutôt pour être vu que nous percevions notre raccourcissement em face de lui, ou plus exactement que… CONTINUA