3% e o triunfo do individualismo

As palavras do sociólogo francês Alain Ehrenberg expressam muito bem as potencialidades e os dilemas de 3%, a série brasileira distópica da Netflix, criada por Pedro Aguilera: “nós vivenciamos um fenômeno duplo: uma universalização crescente, mas que continua sendo abstrata (a globalização) e uma individualização igualmente crescente, mas que pode ser sentida de forma bem concreta. Podemos combater em conjunto um chefe ou uma classe adversária, mas como fazer isso frente à globalização?” Se na primeira temporada a trama era centrada nas competições desenvolvidas pelo… CONTINUA

O mecanismo

Se a expressão “cinema de arte” tem alguma relevância, ela se refere principalmente à possibilidade de delimitar todo um “sistema”, termo aqui entendido como um modelo de exploração econômica e de possibilidade de financiamento de obras que engloba uma série de elos da cadeia do audiovisual, entre os quais os festivais seriam das mais centrais (e o Festival de Cannes, como o maior deles, especialmente) – não cabendo aqui nesse momento fazer nem uma defesa nem uma acusação, mas apenas constatar a sua existência. O… CONTINUA

Das formas de invenção do amor

A capacidade de emprestar presença a fantasmas e projeções é uma característica comum entre o discurso cinematográfico e o sentimento amoroso, e nos últimos dias as telas de Cannes estiveram especialmente povoadas por histórias ao redor dessas “encarnações”. Na competição, por exemplo, dois filmes asiáticos vieram propor olhares distintos sobre uma juventude “desencantada” e sua necessidade de tentar completar alguns de seus vazios através da projeção do desejo do amor em personagens que surgem repentinamente em suas vidas. No coreano Burning, novo filme de Lee… CONTINUA

Manipulação, modos de usar

Le Livre d’Image começa e termina com imagens de mãos. Godard nos indica no texto que acompanha aquelas imagens acreditar que é com esta parte do corpo que o homem pensa – igualando, portanto, a ação com o pensamento, pois apenas a partir da ação o pensamento se consuma. E não qualquer ação, mas a “manipulação”, efetivamente. Manipulação que é, antes de tudo, a de Godard mesmo (junto a seus colaboradores, porque há pistas em quantidade que indicam o quanto figuras como Fabrice Aragno, Nicole… CONTINUA

Escrevendo uma história

Praticamente desde que o cinema existe, um dos mais comuns usos que a ficção através desse meio tem construído é o de reencenar fatos da História, mais ou menos célebres, com os mais variados objetivos – da mitificação hagiográfica à contestação das versões oficiais e reescrita de uma narrativa. Alguns cineastas são mais afeitos a esse movimento do que outros, e Cannes esse ano mostrou os novos filmes de dois daqueles que, entre os cineastas contemporâneos, mais têm suas obras marcadas por esse movimento. No… CONTINUA

Da ficção pragmática à fantástica realidade

Por detrás da muito discutida falsa dicotomia entre a ficção e o documentário, ou mesmo da igualmente super explorada questão dos chamados “filmes híbridos”, uma das perguntas que parece vir menos à tona – embora talvez seja a que mais falta faça na origem de muitos projetos – é a que questiona acerca dos porquês de fazer ficção ou fabular em torno da realidade, nos dias de hoje. Embora possa parecer algo óbvio à primeira vista, a verdade é que em muitos filmes o desejo… CONTINUA

Que gênero é o seu?

Todo ano essa cobertura acaba dedicando pelo menos um texto ao tema do “cinema de gênero de autor”, algo que todo festival atualmente busca contemplar, em algum espaço da sua grade (e onde cada filme é encaixado na programação geralmente deixa ver algo sobre como o festival vê o cinema de gênero, mas também cada filme individual). Trata-se de filmes que incorporam de maneira mais ou menos direta e frontal elementos do cinema de gênero (em muitos dos seus diferentes tipos), mas que buscam ter… CONTINUA

Cinema de a(u)tor

Existe o dito de que se o teatro é a arte do ator, o cinema é a arte do diretor. Mais que compreensível, dado que inegavelmente as performances do elenco sempre podem ser praticamente “reencenadas” através da montagem, que recontextualiza escolhas que a câmera já havia delimitado. No entanto, a definição também é incompleta na medida em que ao menos num certo universo de filmes, boa parte da sua força emana, ainda e sempre, dos corpos de seus atores, cujos personagens necessitam “encarnar” mais do… CONTINUA

A que risco?

Nesses primeiros dias de festival um tema (que deve voltar mais vezes ao longo do evento) tem ocupado nossa atenção: os riscos muito reais de se fazer cinema/arte num mundo onde tanto ainda parece frágil. Há, por exemplo, em competição no festival ao menos dois filmes cujos realizadores encontram-se em situação de prisão domiciliar (caso de Jafar Panahi e do russo Kirill Serebrennikov). As implicações de como criar e lidar com a censura (e a autocensura) são questões que parecem cada vez mais presentes –… CONTINUA

Passeio por uma Europa banal

Já no primeiro dia de projeções oficiais, Cannes deixou bem claro na abertura de distintas seleções, alguns dos códigos do que é considerado pelo Festival como “o lugar do cinema terceiro-mundista” (o termo “terceiro mundo” anda fora de uso nas análises mais sérias da geopolítica, mas no cinema continua fazendo todo sentido). E nisso é importante entender que Cannes é apenas um termômetro bastante preciso do que, na verdade, é um quadro bem mais amplo do eurocentrismo valorativo do “bom cinema” no mundo dos festivais.… CONTINUA