Perdi a cabeça, pulei na piscina

Então me lembrei: não sabia nadar “Boca a boca”, composição de Nazildo e Juvenal Ungarelli 1. Uma ideia mais ampla, profunda, profissional etc., do que seria um tal “cinema brasileiro” ainda não estava na minha gama de preocupações quando assisti a Alguma Coisa Assim, curta que Esmir Filho dirigiu em 2006. Já naquela época, no entanto, era possível notar certa distância mantida entre o cinema jovem, ativo, colorido e queer (há quem dispute o termo, mas a discussão não cabe aqui e agora), proposto pelo… CONTINUA

O funeral do século

O cenário em tela é a desintegração da União Soviética e suas sequelas. Loznitsa atualmente vive na Alemanha, filmando com parcerias internacionais: Donbass, de 2018, foi construído a partir de material coletado no Youtube, postado por milícias pró-Rússia e separatistas da Ucrânia, que apoiam a República Popular de Donetsk, estabelecida em 2014. Por sua vez a Rússia anexou, também em 2014, a Crimeia, território ucraniano. Pagou um preço elevado em sanções econômicas dos EUA e Europa, que atingiram pessoalmente aliados do Presidente Putin. Em dezembro… CONTINUA

Cinemáquina de guerra de Spike Lee

Black is black Preto no preto. A certa altura de Destacamento Blood, Paul (Delroy Lindo) e David (Jonathan Majors), pai e filho, estão alarmados. É noite escura e, na mata vietnamita, “todos os gatos são pardos”, como diria o código da urbanidade. A imagem da pele preta sobre o fundo preto é, na lente de Spike Lee, uma espécie de signo de intransigência, uma não concessão. Um pouco como uma rebatida ao blackface – a pele branca tornada preta na superfície, violência no contraste, como… CONTINUA

Sádicas: um ritual

Às vésperas do carnaval de Olinda, algumas gatas se reúnem para assistir a Ritual dos Sádicos/O Despertar da Besta (1970), a obra censurada de José Mojica Marins, por oportunidade de sua morte. Depois de agonizarem por uma hora e meia, já podem considerar abertas as portas do carnaval. Alguns meses após o ocorrido, duas delas ressuscitam para mancomunar esta crítica do filme que você está prestes a encarnar.  Em Ritual dos Sádicos, atos de perversão praticados dentro do submundo paulista corroem a estabilidade do tecido… CONTINUA

O autor é uma ficção? (trecho do livro “O autor no cinema”)

Este texto é parte da reedição recente do livro O autor no cinema, de Jean-Claude Bernardet, que conta com a colaboração de Francis Vogner dos Reis comentando de que forma sobrevivem algumas leituras de Bernardet. A parte aqui publicada corresponde aos itens 5 e 6 no capítulo “O autor é uma ficção?”, entre as páginas 204 e 212 da edição de 2018 pelas Edições Sesc. Nesse capítulo do livro, Francis comenta possibilidades de pensar formas de ser autor no contexto do cinema brasileiro, examinando os… CONTINUA

Antiestética da voracidade

I. (desdobramento) A construção de uma misantropia contraditória, mistura anômala de ingredientes que não se encontram em qualquer prateleira: no caldeirão fervendo, jogue uma caricatura do Übermensch nietzschiano, uma visão bizarra da Virtù maquiavélica; uma pitada de Conde Drácula, uma de Dr. Frankenstein, outra de delírio solipsista, acrescente a sociopatia típica da classe média brasileira — paranoia armada, misoginia, homofobia, racismo… À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964), o terceiro longa lançado em cinema dirigido por José Mojica Marins – o “cineasta do excesso e do… CONTINUA

delém

Durante esta semana, a Cinética publicou um conjunto de quatro aproximações ao filme Retrato de uma Jovem em Chamas (Céline Sciamma, 2019). A obra mobilizou a redação e impulsionou as colaboradoras a se descobrirem em outras formas de exercício crítico. A poeta Júlia de Souza escreveu um ensaio em torno do filme, os redatores Luíz Soares Júnior e Júlia Noá colaboraram com textos e hoje encerramos a série com “delém” um ensaio em vídeo feito por Ingá e Mariana de Lima.  O coração na boca do mar, por Julia de Souza A percepção impossível,… CONTINUA

O coração na boca do mar

Uma jovem professora de pintura posa para suas alunas. “Primeiro, o contorno. A silhueta. Não muito rápido. Tomem tempo para me olhar”, diz ela. Em dado momento, inquieta, ela percebe a presença de um quadro no fundo da sala. “Quem trouxe isso até aqui?”. Uma aluna assume a responsabilidade, e pergunta: “Foi você quem pintou?”. A professora responde: “Sim. Há muito tempo.” “Qual o título?” “Retrato de uma jovem em chamas.” A câmera se aproxima da pintura com ímpeto. O vulto perfilado de uma mulher… CONTINUA

Tradução de “Por uma nova cinefilia” (Girish Shambu)

Este texto  foi publicado originalmente na revista Film Quarterly em março de 2019. De partida, agradecemos a autorização do autor Girish Shambu e da Film Quarterly pela possibilidade de trazer aqui uma versão dele em português. A escolha deste recente manifesto sobre os ambientes cinéfilos atuais para publicação na Cinética se dá por alguns motivos. Interessou à nova composição da editoria pensar sobre as mutações que o campo da reflexão sobre cinema passa nos últimos anos e este texto sintetiza as linhas gerais de certos… CONTINUA

O Brasil está morto. Viva o Brasil.

Dirigidos respectivamente pelo cineasta mais experiente desta edição e por um grupo de jovens experimentadores presentes à 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, Sertânia, de Geraldo Sarno e Canto dos Ossos, de Jorge Polo e Petrus de Bairros, mantêm entre si algumas ressonâncias que não me parecem completamente desprovidas de sentido e orientação. Liberados de toda a lógica do “eterno ensaio” (aquela que vive de suspirar: “um dia o cinema brasileiro chega lá!”) ou da “Retomada” (“agora vai!”), estamos diante de dois filmes que circunscrevem… CONTINUA