O autor é uma ficção? (trecho do livro “O autor no cinema”)

Este texto é parte da reedição recente do livro O autor no cinema, de Jean-Claude Bernardet, que conta com a colaboração de Francis Vogner dos Reis comentando de que forma sobrevivem algumas leituras de Bernardet. A parte aqui publicada corresponde aos itens 5 e 6 no capítulo “O autor é uma ficção?”, entre as páginas 204 e 212 da edição de 2018 pelas Edições Sesc. Nesse capítulo do livro, Francis comenta possibilidades de pensar formas de ser autor no contexto do cinema brasileiro, examinando os… CONTINUA

Antiestética da voracidade

I. (desdobramento) A construção de uma misantropia contraditória, mistura anômala de ingredientes que não se encontram em qualquer prateleira: no caldeirão fervendo, jogue uma caricatura do Übermensch nietzschiano, uma visão bizarra da Virtù maquiavélica; uma pitada de Conde Drácula, uma de Dr. Frankenstein, outra de delírio solipsista, acrescente a sociopatia típica da classe média brasileira — paranoia armada, misoginia, homofobia, racismo… À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964), o terceiro longa lançado em cinema dirigido por José Mojica Marins – o “cineasta do excesso e do… CONTINUA

delém

Durante esta semana, a Cinética publicou um conjunto de quatro aproximações ao filme Retrato de uma Jovem em Chamas (Céline Sciamma, 2019). A obra mobilizou a redação e impulsionou as colaboradoras a se descobrirem em outras formas de exercício crítico. A poeta Júlia de Souza escreveu um ensaio em torno do filme, os redatores Luíz Soares Júnior e Júlia Noá colaboraram com textos e hoje encerramos a série com “delém” um ensaio em vídeo feito por Ingá e Mariana de Lima.  O coração na boca do mar, por Julia de Souza A percepção impossível,… CONTINUA

O coração na boca do mar

Uma jovem professora de pintura posa para suas alunas. “Primeiro, o contorno. A silhueta. Não muito rápido. Tomem tempo para me olhar”, diz ela. Em dado momento, inquieta, ela percebe a presença de um quadro no fundo da sala. “Quem trouxe isso até aqui?”. Uma aluna assume a responsabilidade, e pergunta: “Foi você quem pintou?”. A professora responde: “Sim. Há muito tempo.” “Qual o título?” “Retrato de uma jovem em chamas.” A câmera se aproxima da pintura com ímpeto. O vulto perfilado de uma mulher… CONTINUA

Tradução de “Por uma nova cinefilia” (Girish Shambu)

Este texto  foi publicado originalmente na revista Film Quarterly em março de 2019. De partida, agradecemos a autorização do autor Girish Shambu e da Film Quarterly pela possibilidade de trazer aqui uma versão dele em português. A escolha deste recente manifesto sobre os ambientes cinéfilos atuais para publicação na Cinética se dá por alguns motivos. Interessou à nova composição da editoria pensar sobre as mutações que o campo da reflexão sobre cinema passa nos últimos anos e este texto sintetiza as linhas gerais de certos… CONTINUA

O Brasil está morto. Viva o Brasil.

Dirigidos respectivamente pelo cineasta mais experiente desta edição e por um grupo de jovens experimentadores presentes à 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, Sertânia, de Geraldo Sarno e Canto dos Ossos, de Jorge Polo e Petrus de Bairros, mantêm entre si algumas ressonâncias que não me parecem completamente desprovidas de sentido e orientação. Liberados de toda a lógica do “eterno ensaio” (aquela que vive de suspirar: “um dia o cinema brasileiro chega lá!”) ou da “Retomada” (“agora vai!”), estamos diante de dois filmes que circunscrevem… CONTINUA

Tesão e tensão

1. Maya Deren foi uma cineasta, escritora e coreógrafa experimental muito ativa e influente nos anos quarenta e cinquenta do século passado. Nasceu na Ucrânia, em Kiev, em 1917, como Eleonora Derenkowska, mas seus pais fugiram do antissemitismo para os EUA em 1922. Deren estudou poesia moderna e participou de um grupo trotkista antes de fazer seu primeiro filme, em 1943, junto com seu marido da época, Alexander Hammid, e um orçamento de duzentos e cinquenta dólares. Meshes of the Afternoon é também sua obra… CONTINUA

Aqueles que não querem se afetar

Durante uma hora, vinte e oito minutos e dezessete segundos, entre os dias vinte e quatro e vinte cinco de maio de 1975, a lua sangrenta se interpôs por completo entre o sol e a terra, lambuzando a Argentina de vermelho. Exatamente dez meses a partir do eclipse lunar total a Argentina sofreria um golpe, que retiraria Isabelita Perón do governo e uma junta militar, liderada por Jorge Rafael Videla, ascenderia ao poder e iniciaria uma ditadura no país. É no contexto desses dois eventos… CONTINUA

“Arte adensa a dúvida” – Entrevista com Gabriel Mascaro

A obra de Gabriel Mascaro é um dos raros casos entre cineastas brasileiros à qual a redação da Cinética devotou, em sua história, um estudo contínuo e sistemático, que pode ser rastreado nas diferentes fases da revista. Seus filmes foram vistos entre nós ora com admiração, ora com reserva, ora com profundo distanciamento crítico, mas raramente com indiferença. Talvez porque os filmes de Mascaro, além de provocadores e inquietantes a cada vez (a ponto de motivarem a escrita de três textos críticos sobre a mesma… CONTINUA

Imagens que assombram – o efeito impeachment no cinema documental

As manifestações de rua em 2013 foram um acontecimento fundamental da história brasileira. De caráter popular, tais demonstrações deixavam claro o nível de frustração social com uma perspectiva de enriquecimento, de participação democrática, de justiça social e cidadã que não ocorreu. Elas revelavam o desejo de “um país diferente de tudo que está aí”. E poderiam ter sido utilizadas pela esquerda para dizer: estamos enredados em uma camisa de força de alianças para conseguir fazer a segunda rodada de políticas de crescimento e redistribuição de… CONTINUA