“E mostrarei Prodígios no Céu”

Uma enorme nuvem de fumaça rubro-negra avança sobre o topo de uma mata; ao fundo, a melodia de um clarinete rivaliza com o som crepitante de uma queimada. Como veremos, em Céu de Agosto (2020), curta-metragem escrito e dirigido por Jasmin Tenucci, há uma perturbação que se manifesta sobretudo em termos atmosféricos — é pelo ar que navega a aporia de um país que caminha em direção às cinzas. Lúcia (Badu Morais) é uma jovem enfermeira que vive em um bairro periférico da cidade de… CONTINUA

A voz que arde sem se ver – Ecos de Cocteau em Almodóvar e João Rui Guerra da Mata

Jean Cocteau (1889—1963) é uma paixão que acompanha o cineasta Pedro Almodóvar há décadas. Foi somente neste ano pandêmico que o diretor espanhol tornou explícita sua relação “póstuma” de mais de 20 anos com o cineasta da vanguarda francesa. Seu mais recente filme, A Voz Humana (The Human Voice, Pedro Almodóvar, 2020), filmado durante a quarentena de COVID-19, é uma adaptação do drama homônimo escrito pelo diretor francês. O média-metragem de 30 minutos, estrelado por Tilda Swinton, estreará em breve nas salas de cinema. Pude… CONTINUA

Verão do Soul (ou… Trilhas para o Woodstock Negro)

Para começo de conversa, nos orientamos na escrita desse texto pelo mesmo método de QuestLove: fazer anotações (ou traçar trilhas) motivados pelas sonoridades que realmente nos arrepiaram. Não por acaso, nos deixamos guiar pelos sons, sempre nessa busca incessante de traduzir para o texto a experiência de arrebatamento que tivemos com as músicas e a banda sonora. Portanto, para uma experiência mais completa e cheia de suingue, sugerimos que leiam cada trilha acompanhada da trilha musical correspondente. 1a TRILHA Em 2 de julho de 1960,… CONTINUA

O cine-sample de Lincoln Péricles

A filmografia de Lincoln Péricles nos convida, como espectadores, a refletir se o que chamamos de cinema pode ser, ou não, concebido pela lógica do beatmaking – a criação de batidas musicais – como dinâmica de produção. Essa talvez seja a grande sacada para pensar imagens de um cinema que frequentemente é colocado como inapreensível – quando tentam refletir sobre o modo de produção sem se apegar, essencialmente, aos discursos sobre a luta de classes ou ao que se espera do cinema de quebrada. Nos… CONTINUA

Insistir na opacidade: reverberações a partir do Seminário Flaherty 2021

O diálogo a seguir busca reverberar a experiência do 66o Flaherty Seminar, evento ocorrido entre 9 e 17 de julho. Com a curadoria da brasileira Janaína Oliveira, o tradicional seminário estadunidense, criado por Frances Flaherty nos anos 1950 e realizado pela primeira vez em modalidade online este ano, foi guiado pela palavra opacidade, e contou com exibições e discussões a partir de obras das seguintes artistas: Deanna Bowen, Garrett Bradley, Denise Ferreira Da Silva e Arjuna Neuman, Isaac Julien, Isael e Sueli Maxakali, André Novais… CONTINUA

Adros do Tempo

1. “(…) Foram recorrer aos poderes de Iroko. Juntaram-se em círculo ao redor da árvore sagrada, tendo o cuidado de manter as costas voltadas para o tronco. Não ousavam olhar a grande planta, pois, os que olhavam Iroko de frente enlouqueciam e morriam. ” – Itan sobre Iroko. Orixá muito antigo, que é a própria representação da dimensão Tempo. acervo pessoal 10,2. Sabe quando você se depara com algo prisco (que pertence a tempos idos; antigo, velho, prístino.)? Como quando olhamos para uma pedra, uma… CONTINUA

Uma anomalia natural

Depois de um ano e meio, voltei a uma sala de cinema. O motivo da ausência prolongada foi um vírus que assola o mundo e que acarreta – como salvação – o acirramento de algo que o capitalismo contemporâneo já vinha trabalhando intensamente: o isolamento entre as pessoas. Um dos efeitos do vírus da Covid-19 é nos lembrar que estamos “todos conectados”. Não só essa frase está em um filme pregresso de M. Night Shyamalan, como esta situação muito se parece com as situações dramáticas… CONTINUA

Entre a imagem e quem olha

Em Broken Mirrors (1984) (que não tem versão para o português, mas se chamaria, em tradução literal, Espelhos Quebrados), segundo longa da holandesa Marleen Gorris, a diretora mantém o tom de sua estreia, Questão de Silêncio (1982), abordando questões feministas com notas de suspense e um quê de mistério policialesco, agora explorando de forma mais visível questões sobre a representação da violência. Ainda pouco acessível para o público brasileiro, encontram-se disponíveis na internet uma cópia digitalizada a partir de um VHS da RCA/Columbia Pictures/Hoyts Video… CONTINUA

Afinar os sentidos

  Algumas questões, sejam coletivas ou individuais, se abrem e se fecham em diferentes medidas ao longo do tempo, num percurso que aspira à dissolução, mas não sem antes terem sido vistas e terem feito os movimentos necessários. Questão de Silêncio (1982), filme de estreia da holandesa Marleen Gorris, é trazido agora novamente ao público pela Another Screen, programação temática de filmes exibidos online pelo periódico feminista de cinema Another Gaze. Marleen Gorris consegue condensar – de maneira belíssima -, questões da posição da mulher… CONTINUA

O que não se vê é quem dirige (o olhar)

Uma conversa entre Comment Ça Va (Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville, 1978) e Maso e Miso Vão de Barco (Coletivo Les Insoumuses, 1975) Ok, paramos por aqui. O que se vê? Isso é visto. Isso é visto. Isso é visto. E ouvido também. Podemos voltar a conversar sobre barulho. Mas o que não se vê é quem dirige. O quê? O olhar Releia seu texto. Nós vamos rever as minhas mãos agora. Minhas mãos vão um pouco a todas as direções Mas em um espaço… CONTINUA