hino à noite

o quadro da segunda entrevista de a rosa azul de novalis parece ordinário. marcelo dorio, nosso dândi tropical, sentado no sofá verde musgo à frente de uma parede com pinceladas abstratas rosas, com o mesmo roupão do plano anterior conversa conosco. já tendo olhado para a câmera na primeira cena convidando a equipe/o espectador a entrar no interior da casa, em seu domínio privado, em seu interior (futuramente literal), agora o pressuposto é de que ele vá só desdobrar seus insights e confissões. no dispositivo… CONTINUA

Reina a felicidade plácida no reflexo de um freezer gourmet do Leblon

Um Filme de Verão começa com um plano-sequência andando com câmera na mão pelos becos de uma favela em contra-plongée. Muita poluição visual em primeiro plano, mas o céu azul cortante está sempre lá relegando um respiro harmônico aos nossos olhos. A câmera parece caminhar a esmo, virando em becos aleatórios, mas só parece – ela, na verdade, segue uma rede de cabos e fios que conectam aquele espaço. Fisicamente e virtualmente. Um Filme de Verão é um filme em rede, é um filme que… CONTINUA

O dorso da imagem

Seus Ossos e Seus Olhos é um filme que trabalha a eminência do Verbo e a caligrafia do Corpo pela chave do antinaturalismo. Na história da pintura, o antinaturalismo, herança do período bizantino, se consolidou, por um espaço irreal, sem profundidade, posturas não muito naturais, composições simples porém agudo expressionismo das imagens. Assim como na arte pictórica, todo filme dessa natureza põe em xeque o que vem a ser natural ao cinema e à vida. Aqui, há não só um aprofundamento e uma radicalização dessa… CONTINUA

Canção do exílio

A história é conhecida por alguns: em um fétido porão de mais um navio negreiro cruzando o oceano, havia entre os futuros escravos que desembarcariam no Brasil, um rei africano. Monarca em sua terra, trabalhou em todas as parcas horas livres para comprar sua carta de alforria e se livrar do cativeiro. Não parou de trabalhar até libertar seu filho e o restante da tribo. Chico-Rei agora era também católico, devoto de Nossa Senhora do Rosário. Volta a imperar em nova terra, distante do velho… CONTINUA

Isto não é um filme político

1. Política como colheita Nem à frente, nem soterrado pelos cataventos do tempo. A Mostra de Tiradentes não poderia ter um timing mais preciso ao abrir sua programação na praça da cidade. Empate é uma espécie de transmutação fílmica das já históricas últimas palavras libertas de Luiz Inácio: “eles” não podem prender Lula, por que suas ideias estão por aí, semeadas / “eles” podem até matar Chico Mendes, mas não destruir o legado que plantou. O filme de Sérgio de Carvalho (e adicionaria Beth Formaggini)… CONTINUA

Anotações tardias: “A culpa deve ser do Sol”

Zoe Leonard tem um poema: I want a dyke for president. O cenário da democracia representativa se perdeu no ralo da sarjeta de um esgoto fluorescente. Não sai tartaruga ninja daí. Era hora de explodir os bueiros. Mas na falta de renascença, falemos sobre pragmatismo pós-moderno. Eu quero alguém que se traveste, com dentes ruins, que comeu comida ruim no hospital, usou drogas e já cometeu desobediência civil pra presidente. Uma utopia: Linn da Quebrada pra cadeira. Jup do Bairro vice. Do primeiro minuto de… CONTINUA

Anotações de Brasília #3: “Pisa o silêncio caminhante noturno”

Sobre o mundo paira uma caligem, que, espessa, se adensa ao atravessar o Brasil. E nós só sabemos ficar atônitos, assustados e impávidos diante de toda a obscuridade. New Life S.A e Bloqueio são duas reações distintas à emergência de novas velhas forças conservadoras que dominam ou querem retomar as rédeas de um país em convulsão. 1. New Life S.A. parte de um princípio básico: a elite esta mais viva, dominante e repulsiva do que nunca; longa vida ao sarcasmo contra a elite. Se ela… CONTINUA

Anotações de Brasília #2 : “Da morte, renascemos”

“Mudos também os mortos pronunciam as palavras que nós, os vivos, dizemos”. Octavio Paz, sempre soube que entre nossas estórias e conversas estão em movimento concomitante às de nossos antepassados. Nos vamos mas deixamos a palavra, “filha da morte”, “coisa humana”, e com ela, uma vida em meio ao tempo. Los Silencios é, nesse sentido, um filme octaviano, instituindo uma vida mortuária entre uma comunidade numa tríplice fronteira de lugar nenhum. Este lugar real – a Isla de la Fantasia, que fica na cidade de… CONTINUA

Anotações de Brasília #1: “Feliz é o povo que não precisa de heróis”

No primeiro dia de festival de Brasília uma pergunta ressoa mais categórica: como persistir sobre a violência? Tempos de arbitrariedade irresoluta demandam uma reflexão sobre nossas mais contingentes reações. No caso de Torre das Donzelas, voltamos no tempo, ou melhor, damos um passo para trás com consciência de que aquilo é apenas um flashback consequente. O filme convida mulheres perseguidas e presas na ditadura, mais especificamente as militantes revolucionárias pós-golpe dentro do golpe em 1968 (AI-5), que foram parar no presídio Tiradentes em São Paulo… CONTINUA

O cinema canvas e o último respiro

Três prévias, Lumière: 1. Laveuses sur la rivière (1897) Ninguém duvida do esmero cênico dos primeiros filmes dos Lumière, mas este filme-plano, especificamente, parece destoante do imaginário que os irmãos fundadores evocam. As costumeiras linhas diagonais que denotam uma espacialidade mais aprofundada por entre camadas – primeiro, segundo, terceiro plano – dão lugar a uma impressão de achatamento, como uma superfície bidimensional. Sabemos que os elementos da parte inferior da imagem estão mais próximos do que os da parte superior, mas a distância é pouco… CONTINUA