O cinema canvas e o último respiro

Três prévias, Lumière: 1. Laveuses sur la rivière (1897) Ninguém duvida do esmero cênico dos primeiros filmes dos Lumière, mas este filme-plano, especificamente, parece destoante do imaginário que os irmãos fundadores evocam. As costumeiras linhas diagonais que denotam uma espacialidade mais aprofundada por entre camadas – primeiro, segundo, terceiro plano – dão lugar a uma impressão de achatamento, como uma superfície bidimensional. Sabemos que os elementos da parte inferior da imagem estão mais próximos do que os da parte superior, mas a distância é pouco… CONTINUA

Baudelaire e o Diabo na terra da praia

Lívido (Pedro Henrique Ferreira) tem o corpo desconjuntado, o coração empedrado, a alma atormentada: um vulcão guardado sem manejo de suas lavas reprimidas. É um personagem anacrônico e deslocado ao pé de uma juventude afetiva que jamais olharia para uma Igreja com seus grandes olhos vidrados, cheios de indiferença e curiosidade. Um Homem e seu Pecado é menos sobre o incesto em si do que sobre o pecado como reação ao mundo. Um affair, a cidade cartão-postal, o trabalho, os amigos no bar, o hobby… CONTINUA

Dissidências do poder

No Brasil as coisas mudam, mudam, até que… continuam no lugar. Parece que descobrimos isso ontem, enquanto repensávamos nosso ódio exclusivo à classe política com aquela pequena câmera amadora, num plongée com ponto de fuga “errado”, a filmar Marcelo Odebrecht em mais uma delação premiada – raiva canalizada que estremeceu em definitivo com o grande golpe do áudio de Joesley Batista “para cima do Brasil”. Mas, em 1962, Tocaia no asfalto já demonstrava que “a chaga da corrupção” não passa de um pacto e, como… CONTINUA

“E a tempestade que faz dobrar os dorsos dos operários nas ruas?”

Ficcionalização – “Qual é a primeira pergunta para abrir um negócio?”, pergunta uma professora do Sebrae. – “O que a gente gosta de fazer?”, responde uma aluna. – “Não, isso é um erro, um equívoco natural. Todo mundo gostaria de fazer o que gosta. (…) O que você precisa se perguntar é: o que o mercado precisa?”, direciona a professora. Esse diálogo poderia naturalmente existir na vida real, em qualquer palestra sobre marketing, empreendedorismo ou novos negócios. Apesar de crível, esse mesmo diálogo, em uma… CONTINUA

“Em teu seio, ó liberdade”

Depois de duas cartelas, contextualizando a época da ditadura a um período fértil de filmes populares e eróticos, “chamados pejorativamente de pornochanchada”, o terceiro informe avisa que irá contar a história da década de 1970 através desse cinema. Ou seja, seu princípio será dos filmes como método, e seu interesse está na memória de um país e não no de sua cinematografia. Fica subentendido: isto não é um best of, mas uma investigação histórica dos costumes, “estrelada”, como dizem os créditos iniciais, pelos próprios filmes.… CONTINUA

“O silêncio cresce como um câncer”

Um senhor já idoso vive num pequeno vestiário travestido de barracão. Ali passa um barulhento trem, mas nem o alto ruído diário, nem a modéstia da casa o fazem voltar a morar com sua antiga família que em vão tenta abrigá-lo. O terreno é sítio de um campinho de futebol amador, paixão desse senhor já idoso. Enquanto, na substituição de um goleiro, vai imperceptivelmente ganhando um novo filho, sua rotina tem seus dias contados: a empresa dona do terreno cansou de “apoiar” o esporte e… CONTINUA

“Eu sou a lei, foda-se a lei”

De um lado, Corpo Delito lida com um dos temas mais urgentes do país – o sistema penitenciário brasileiro e sua burocracia burra e sufocante; de outro, toca de forma aguda num dos grandes dramas da condição humana – a restrição, neste caso, parcial, do livre-arbítrio. Ivan Silva foi preso. Depois de anos de cadeia e, supostamente, bom comportamento, ganhou o direito à liberdade condicional: trabalha na fábrica-escola e volta para casa de tornozeleira. Em sua rotina, não deve desviar desse trajeto. No primeiro diálogo… CONTINUA

“E uma pequena vos guiará”

Alguns alunos se metem a fazer um filme para um trabalho de escola. A filha pede a câmera ao pai, ele diz que não – “é um equipamento caro” –, ela faz birra. Sem jantar com o resto da família e sem a mãe conseguir convencê-la, o pai vai até o quarto e cede, empresta a câmera. Nunca veremos esse filme – apesar de, ao fim, sabermos que é genial – mas temos algumas pistas: ela vai ao encontro da diretora da escola, da faxineira,… CONTINUA

“Não adianta subir Bahia sem descer Floresta”

Subybaya abre, em sua primeira cartela, com o questionamento: “O que é ser uma mulher?”. Virginia Woolf, autora da citação, diz não saber. Este escriba está longe de saber e também tem dúvidas, assim como Woolf, se qualquer pessoa responderia tal questão com unanimidade satisfatória. Além do mais, não sei se realmente precisamos “saber”, visto que este saber aí está relacionado a uma compreensão catalogadora do termo. Há a concepção mais firme de Simone de Beauvoir de que “mulher” é uma construção – em geral… CONTINUA

“Na mão de favelado, é mó guela”

Baronesa, de Juliana Antunes, é um filme sem profundidade de campo. O que há para acontecer acontece, aqui, logo à nossa frente, com a cor barrenta do tijolo tampando o fundo, o mundo. O que interessa são estas duas personagens cativantes, Leidiane e Andreia, e como elas se relacionam com seus filhos, com Negão, com a comunidade. Perpassaremos quase o filme inteiro escutando suas conversas sobre banalidades, às vezes barra-pesada, mas invariavelmente coisas do dia a dia. É a palavra que abre as portas para… CONTINUA