delém

Durante esta semana, a Cinética publicou um conjunto de quatro aproximações ao filme Retrato de uma Jovem em Chamas (Céline Sciamma, 2019). A obra mobilizou a redação e impulsionou as colaboradoras a se descobrirem em outras formas de exercício crítico. A poeta Júlia de Souza escreveu um ensaio em torno do filme, os redatores Luíz Soares Júnior e Júlia Noá colaboraram com textos e hoje encerramos a série com “delém” um ensaio em vídeo feito por Ingá e Mariana de Lima.  O coração na boca do mar, por Julia de Souza A percepção impossível,… CONTINUA

Entre espelhos

Prólogo – Em um semicírculo, sob a luz divina e difusa de um ateliê setecentista, algumas mulheres desenham uma modelo viva. Em gestos suaves, a câmera de Sciamma flauteia por entre as feições cândidas dessas jovens, atentas aos seus esboços e às orientações de uma voz que ocupa, oca, esse espaço. O passeio desemboca na mulher que guia as estudantes, a modelo-viva que orienta o olhar e a atenção de quem a desenha. “Olhe a posição dos meus braços, das minhas mãos”. Duplamente emoldurada pela… CONTINUA

Uma percepção impossível

“Dizer que Madeleine é uma falsa loira, francamente não resolveria nada” Daniel Arasse, historiador do maneirismo italiano “Estou sempre procurando por você e acho que sinto falta de tudo, porque sinto sua falta” Marie de Rabutin Chantal, marquesa de Sévigné Closes, planos de conjunto, vistas gerais e planos de detalhe: o cinema – por osmose fetichista numa arte tão votada à obsessão en abîme pela imagem ou por direito genealógico de herança – herdou da pintura o retrato e o modulou segundo modus operandi muito… CONTINUA

Uma aprendizagem: prosa sobre Sete anos em maio e Vaga carne

A ideia de trabalhar coletivamente tem orientado a Cinética na busca de novos diálogos e caminhos junto aos filmes. São oportunidades de conversarmos entre nós e com os filmes, chances de praticar conhecimentos, reconhecimentos e desconhecimentos. Aproveitamos o lançamento recente dos médias Sete anos em maio e Vaga carne – ambos com críticas publicadas aqui – para fazer este diálogo que se segue. A ideia é que possamos, via escrita coletiva, experimentar contágios, respostas, discordâncias, buscando assim falar de maneira multidimensional dos filmes e, em… CONTINUA

A fartura da fratura

[Os entretítulos em itálico são trechos do texto de base do filme] Você quer que eu seja uma mera representação de você, carne: você é patética! Vaga Carne é um texto escrito por Grace Passô, encenado como peça de teatro desde 2016. O filme aqui em questão a transcria durante pouco menos de cinquenta minutos e é dirigido pela autora do texto e por Ricardo Alves Jr – que também fez parte da equipe de criação da montagem teatral da obra. Isso não é meu.… CONTINUA

O trauma, a fala

“O pior é essa raiva, que nunca passa.” Desde A vizinhança do tigre (2014), Affonso Uchôa vem compondo um repertório de vivências marginais ancoradas no universo masculino. A começar pelos adolescentes deste último filme, cultivando uma liberdade ociosa na qual a zombaria e a alopração funcionavam como expressão de camaradagem. De maneira muito diferente, Arábia (codirigido com João Dumans, 2017) também lidava com um mito que poderíamos chamar de “masculino”: aquele do homem sem amarras, avesso ao pertencimento do universo doméstico e cuja solidão anônima… CONTINUA

Um romance do século XX

Martin Eden, o personagem, é um marinheiro que se quer escritor na Itália. Martin Eden, o filme, é um encontro entre Pietro Marcello, cineasta com um pé no experimental e na não-ficção e Jack London, o famoso escritor de aventuras das primeiras décadas do século XX – aqui, num romance semiautobiográfico no qual a história de London e a de Eden têm muitos pontos de contato. É um romance de formação grandioso, mas cabe a pergunta sobre o que está se formando. Uma educação sentimental… CONTINUA

Humanismo às avessas

As relações históricas entre o islamismo e a Europa são permeadas por um terreno de tensões bastante complexo, e entender como isso se compõe, se produz e se organiza é sem dúvida um grande desafio para a representação. O Jovem Ahmed, no entanto, isenta-se por completo do desafio, ainda que todas as suas escolhas pareçam continuamente convocá-lo como um compromisso primordial. A esperada segurança da abstenção torna-se a própria matéria-prima da armadilha sobre a qual o filme se instala. A raiz do problema está na… CONTINUA

Melancolia que nos confina

Em seu primeiro documentário, Marcelo Gomes revisita uma cidade que frequentou ainda criança, quando viajava junto ao seu pai, funcionário público que fazia inspeções fiscais nas cidades do interior de Pernambuco. É assim que chegamos em Toritama, cidade que recentemente se tornou famosa pela produção de jeans, o mesmo local que Marcelo, ao retornar, logo admite: “eu tento reconhecer o lugar, mas nada parece igual”. Com efeito, o lugar que ele guarda na memória de infância “era um mundo rural de feiras livres, plantadores de… CONTINUA

A eminência do corpo

Embora erguido sobre muito sangue indígena, o Brasil filmado por A Febre é um país em ruínas: desemprego, desmatamento, falência das fábricas, transporte público precário e hospitais abarrotados. Em lugar da formação de uma nação pujante e industrialmente desenvolvida, o Brasil teria se tornado um mero exportador de produtos primários (ou tão somente “montados” no país) e importador de alta tecnologia das grandes potências. A produção cede lugar à circulação na mesma medida em que o tipo ideal do trabalhador brasileiro não é mais o… CONTINUA