Ao redor de Vitalina Varela

Já faz algum tempo que tenho buscado pensar outras formas e métodos de escrita crítica que quebrem um certo modelo muito individualista – dado que este é um mal do nosso tempo. De certa forma, experimentar escrever junto é registrar também outras coisas, principalmente o que não nos é “próprio”. Poder reagir ir na onda do outro, se relacionar com o que não havíamos pensado é oferecer ao leitor um outro tipo de material, que me parece fértil como experiência de encontros com obras. Não… CONTINUA

A noite iniciática

“Ô Frâiche nuit, nuit transparente, Mistère sans obscurité; la vie est noire et dévorante; ô frâiche nuit/ nuit transparente, donne-moi ta placidité/ (…) mon coeur bouillonne comme une urne; ô sainte Nuit, nuit taciturne, fais le silence dans mon coeur” Lieder de César Franck, letra de Louis de Fourcauld “The process of delving into the black abyss is to me the keenest form of fascination” Howard Phillips Lovecraft, The Nameless City O primeiro plano de A Noite Amarela é um close de uma menina que… CONTINUA

O fundo do coração e outras superfícies

“Nada de grandioso no mundo se realizou sem paixão” Hegel, Prefácio à Fenomenologia do Espírito “A Realidade não é arte, mas uma arte realista é aquela que cria uma integral estética da realidade” André Bazin, O que é o cinema? A sentença que propriamente ameaça saltar para fora e estilhaçar, com uma pressão de hidrogênio afetivo, o bojudo universo centrípeto dos personagens de No Coração do Mundo – sim, eles sonham, mas moram em Contagem -, propulsionando o filme mais diretamente para o hors champ… CONTINUA

A parte e o todo

Comecemos pelo título do filme: “no coração do mundo”. Que lugar é este a que alguns personagens se referem repetidamente, e que o filme tenta transformar em mote, em um leitmotiv romântico que atrai os protagonistas, impulsionando-os? É um lugar abstrato, o ideal íntimo de cada um, mas que teria a força poderosa de colocar esses personagens em movimento, em direção a um objetivo. No Coração do Mundo é isto: um filme sobre personagens que, diante do marasmo de um cotidiano estreito, sem horizontes, que… CONTINUA

História do olho

A mais recente embarcação de James Gray lembra: não somos ingênuos a pelo menos três dos rastros mais distintivos, e, portanto, também, mais reiterativos, escorregadios, da chamada ficção científica como tratada pelo cinema – e não simplesmente porque a certos gêneros a assinatura de seus traços é uma docilidade aos olhos: 1) fala-se de uma noção de cidade, de um espaço reflexivo diante das relações que ali se travam e/ou não mais se travam, 2) é perceptível um arranjo de técnicas constituintes dos limites de… CONTINUA

Enterrando nossos vivos

Lá pela metade da terceira história do excepcional La Flor (2019), de Mariano Llinás, Dreyfuss (Horacio Marassi), um cientista alemão sequestrado que termina amarrado no banco de trás de um carro em terras desconhecidas, liga os pontos que o levaram até aquele momento para tentar imaginar seu destino. Enquanto as sequestradoras guiam por planícies desertas, falando apenas em francês, ele especula que elas estão apenas esperando que o cair da noite: – “Chegou a hora. Elas vão me matar.” Mas elas não o matam. E… CONTINUA

O futuro de um passado

Em ao menos duas ocasiões ao longo de The Irishman, o mais novo filme de Martin Scorsese, a câmera passa do exterior ao interior de uma locação, atravessando o parabrisa de um carro em uma delas, e a porta de vidro de uma lanchonete em outra. Esse movimento traz à memória um plano bastante célebre de Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, em que um movimento de grua passa por entre as letras de neon do luminoso sobre o El Rancho e atravessa uma claraboia,… CONTINUA

“Deus ajuda quem cedo madruga” – Considerações tardias sobre o 21º Festival Brasileiro de Cinema Universitário

É certo que hoje podemos pensar o mundo do trabalho como um tema especialmente recorrente nas imagens do cinema brasileiro, mas mais interessante do que evidenciar um diagnóstico de problemáticas à vista, é buscar compreender os sentidos que se produzem e se transformam a partir das novas e variadas formas de relacionamento com essa questão que há muito nos persegue; é perceber como eles articulam os reflexos de uma realidade em mutação, ou ainda: como eles mesmos se tornam a própria expressão dessa mutação. Não… CONTINUA

Brasileiros são os outros

Raros os cineastas que conseguem gerar expectativas a cada vez que lançam um novo filme. Pedro Almodóvar e Quentin Tarantino são os primeiros que me vêm à mente. Talvez Woody Allen, aos 83 anos, mantenha esse espírito. Clint Eastwood, aos 89, é outro da lista. Mas no caso de Allen e Clint temos a celebração do passado glorioso. É como um show dos Rolling Stones, ou de Paul McCartney: o sentimento de “uau, eles ainda estão aqui!” supera o impacto que possam causar. No clube… CONTINUA

Ninguém solta a mão de ninguém

O nordeste sertanejo de Bacurau faz remissão ao retrato da região feito por alguns cineastas pernambucanos no pós-retomada. Ele é espaço de confluência entre a tradição e a modernidade (um cortejo de enterro ao som da guitarra elétrica amplificada). Tem como ponto turístico o museu, mas tem wi-fi aberto e localização no Google Earth. Se um O Céu de Suely fazia do calor vencido pela geladeira um dos signos de transformação desta geografia durante a Era Lula – uma paleta de cor vívida e brilhante… CONTINUA