Marvel e o Destino Manifesto

Não é apenas que Vingadores: Ultimato ocupou uma obtusa porcentagem das salas exibidoras do país. Não é questão meramente socioeconômica, embora também o seja: o histórico semicolonial do setor de exibição dificulta o acesso da produção nacional, e o enfraquecimento do sistema legislativo das cotas, historicamente, contribui à retração do próprio empresariado cinematográfico (que produz, mas não exibe). É naíve pensar que isto seja uma reação natural do mercado, ou a predileção do público por esta ou aquela forma, estilo ou obra cinematográfica, pois é… CONTINUA

“Arte adensa a dúvida” – Entrevista com Gabriel Mascaro

A obra de Gabriel Mascaro é um dos raros casos entre cineastas brasileiros à qual a redação da Cinética devotou, em sua história, um estudo contínuo e sistemático, que pode ser rastreado nas diferentes fases da revista. Seus filmes foram vistos entre nós ora com admiração, ora com reserva, ora com profundo distanciamento crítico, mas raramente com indiferença. Talvez porque os filmes de Mascaro, além de provocadores e inquietantes a cada vez (a ponto de motivarem a escrita de três textos críticos sobre a mesma… CONTINUA

A chance para sonhar, a chance para nascer

A aceleração do Brasil na direção de uma intensa experimentação geomicropolítica necroliberal-colonial pressiona as proposições artísticas de resistência para um modelo que, levado ao paroxismo, tende ao monotemático e ao descrente. O que se chama freqüentemente de “urgência” significa concretamente uma expectativa de efeitos de rápida velocidade cognitiva que estejam pré-prontos dentro do que é esperado e conhecido no mapa moral. Não por acaso, nos últimos anos abundam filmes que mostram cartelas com estatísticas, ou que se apóiam em seu valor de evidência e “necessidade”.… CONTINUA

Imagens que assombram – o efeito impeachment no cinema documental

As manifestações de rua em 2013 foram um acontecimento fundamental da história brasileira. De caráter popular, tais demonstrações deixavam claro o nível de frustração social com uma perspectiva de enriquecimento, de participação democrática, de justiça social e cidadã que não ocorreu. Elas revelavam o desejo de “um país diferente de tudo que está aí”. E poderiam ter sido utilizadas pela esquerda para dizer: estamos enredados em uma camisa de força de alianças para conseguir fazer a segunda rodada de políticas de crescimento e redistribuição de… CONTINUA

A íntima utopia

Difícil quem não tenha se deparado com a impossibilidade ao tentar explicar nossa história recente. A pulsão por Democracia em Vertigem nasce do seu desassombro em erguer uma contra-narrativa decidida a intervir no debate público, sem medo de retomar as totalizações, os diagnósticos amplos, as grandes teses sobre a Nação que se tornaram incomuns no cinema brasileiro. Para tanto, a diretora Petra Costa lança um olhar prospectivo sobre os últimos anos, recuperando momentos perdidos e atando pontas soltas, para então narrar os consecutivos tropeços da… CONTINUA

Os destroços da civilização europeia

A Portuguesa é o sétimo longa-metragem de Rita Azevedo Gomes, cineasta da linha de frente do cinema português que apesar de três décadas de uma produção rica, só nos últimos anos veem recebendo timidamente um pouco da atenção merecida. Recentemente o filme circulou pelo Brasil, primeiro no Olhar de Cinema e depois numa pequena retrospectiva dos seus filmes em São Paulo. O cinema de Gomes traz à frente alguns elementos da tradição do cinema português, sobretudo na sua relação com a literatura e aristocracia, com… CONTINUA

A política para além do quadro: cinema brasileiro em tempos de incerteza

Não é fácil realizar um festival de cinema num cenário tão turbulento quanto o do Brasil hoje, ainda mais quando o financiamento para cultura (incluindo de forma bem direita os festivais) está sob questão. Era difícil não pensar nisso cada vez que passávamos pela entrada dos cinemas e víamos com destaque nos cartazes “o Ministério da Cidadania, Governo do Paraná e Copel apresentam…”. A simples mudança do ministério responsável, um lembrete bem direto sobre o momento presente. O perfil do Olhar de Cinema nessa oitava… CONTINUA

O pau de Deus: a extrema direita na vanguarda do cinismo pornográfico

O filme Obsessão (2004), dirigido por J. Gaspar, faz parte do selo pornográfico Brasileirinhas. Na capa do filme está a atriz Chloe Jones, “a número 1 dos EUA”, nos braços de Alexandre Frota, ator pornô e hoje deputado federal pelo PSL. Ainda no cartaz de divulgação Chloe surge vestida com um top verde-amarelo e com a bandeira brasileira amarrada ao quadril. Não, Chloe não chegaria a entoar o canto “sou brasileiro, com muito orgulho” e suponho que nem faria coro às nossas torcidas futebolísticas. Obsessão,… CONTINUA

Afetos “in natura”

Os primeiros planos do filme espanhol O Que Arde (título em galego) mostram as árvores de uma floresta por ângulos e iluminações quase sobrenaturais, acompanhados de uma trilha sonora que aumenta a estranheza até o momento em que as árvores começam a ganhar movimento de forma ainda mais inexplicável – leva um tempo de contemplação até o filme revelar os tratores que estão derrubando uma série de árvores, numa ação de limpeza de terreno. Já no filme brasileiro Sem Seu Sangue, os primeiros planos mostram… CONTINUA

Não vai ficar tudo bem

De várias maneiras, um sentimento bastante difuso, mas onipresente, de que “as coisas não vão bem” atravessa a seleção desse ano em Cannes, como não poderia deixar de ser frente ao mundo em que vivemos hoje. No entanto, nos últimos dias, três filmes se colocaram de maneira bem mais frontal com relação a esse sentimento genérico e encontraram formas diferentes de traçar um panorama bastante duro desse contexto mundial – certamente não por acaso todos os três de alguma maneira incorporando elementos de um certo… CONTINUA