Esculpir a dança do tempo

Atribuir ao corpo a condição primeira de nossas relações com o mundo é uma das portas de entrada para o visionamento do cinema de Welket Bungué, onde o corpo situa-se, simultaneamente, no texto e fora do texto, no esforço de esculpir o tempo pelo movimento corporal. Através de um ritmo próprio – enquanto movimento expressivo de um ciclo temporal, porém, em outro tempo que não o cronológico – de suas criações e dos entremeios que constrói pela multidisciplinaridade, o cineasta lança uma proposição na ausência… CONTINUA

A matemática do poema

A exibição conjunta no festival Ecrã de Telemundo (2018), filme dirigido pelo septuagenário artista norte-americano James Benning e co-escrito com a jovem atriz e cineasta argentina Sofía Brito, e de 中孚 61. A Verdade Interior (2019), filme-ensaio elaborado por Brito durante o processo de colaboração entre os dois, é uma oportunidade e tanto de imaginar o que pode significar um encontro em cinema. Em Telemundo, Sofía e James estão em cena, durante noventa minutos, em frente a uma televisão ligada no canal hispânico Telemundo, que… CONTINUA

O funeral do século

O cenário em tela é a desintegração da União Soviética e suas sequelas. Loznitsa atualmente vive na Alemanha, filmando com parcerias internacionais: Donbass, de 2018, foi construído a partir de material coletado no Youtube, postado por milícias pró-Rússia e separatistas da Ucrânia, que apoiam a República Popular de Donetsk, estabelecida em 2014. Por sua vez a Rússia anexou, também em 2014, a Crimeia, território ucraniano. Pagou um preço elevado em sanções econômicas dos EUA e Europa, que atingiram pessoalmente aliados do Presidente Putin. Em dezembro… CONTINUA

A lógica da linha

Sob o desejo por um encantamento ensejado na artificiosa surpresa de nada saber de antemão – possível sobrevivente de um culto do mistério excitado e desviado de uma “vertente mística” do cinema –, ainda existem aqueles que escolhem não buscar ou estar abertos a qualquer informação prévia de um dado filme? Decerto que existem, e mais seguro ainda será a probabilidade de que este História de um Casamento, o mais recente Baumbach, surja-lhes como um desafio. Porque se para aqueles que chegarem à obra sabendo… CONTINUA

delém

Durante esta semana, a Cinética publicou um conjunto de quatro aproximações ao filme Retrato de uma Jovem em Chamas (Céline Sciamma, 2019). A obra mobilizou a redação e impulsionou as colaboradoras a se descobrirem em outras formas de exercício crítico. A poeta Júlia de Souza escreveu um ensaio em torno do filme, os redatores Luíz Soares Júnior e Júlia Noá colaboraram com textos e hoje encerramos a série com “delém” um ensaio em vídeo feito por Ingá e Mariana de Lima.  O coração na boca do mar, por Julia de Souza A percepção impossível,… CONTINUA

Entre espelhos

Prólogo – Em um semicírculo, sob a luz divina e difusa de um ateliê setecentista, algumas mulheres desenham uma modelo viva. Em gestos suaves, a câmera de Sciamma flauteia por entre as feições cândidas dessas jovens, atentas aos seus esboços e às orientações de uma voz que ocupa, oca, esse espaço. O passeio desemboca na mulher que guia as estudantes, a modelo-viva que orienta o olhar e a atenção de quem a desenha. “Olhe a posição dos meus braços, das minhas mãos”. Duplamente emoldurada pela… CONTINUA

Uma percepção impossível

“Dizer que Madeleine é uma falsa loira, francamente não resolveria nada” Daniel Arasse, historiador do maneirismo italiano “Estou sempre procurando por você e acho que sinto falta de tudo, porque sinto sua falta” Marie de Rabutin Chantal, marquesa de Sévigné Closes, planos de conjunto, vistas gerais e planos de detalhe: o cinema – por osmose fetichista numa arte tão votada à obsessão en abîme pela imagem ou por direito genealógico de herança – herdou da pintura o retrato e o modulou segundo modus operandi muito… CONTINUA

Uma aprendizagem: prosa sobre Sete anos em maio e Vaga carne

A ideia de trabalhar coletivamente tem orientado a Cinética na busca de novos diálogos e caminhos junto aos filmes. São oportunidades de conversarmos entre nós e com os filmes, chances de praticar conhecimentos, reconhecimentos e desconhecimentos. Aproveitamos o lançamento recente dos médias Sete anos em maio e Vaga carne – ambos com críticas publicadas aqui – para fazer este diálogo que se segue. A ideia é que possamos, via escrita coletiva, experimentar contágios, respostas, discordâncias, buscando assim falar de maneira multidimensional dos filmes e, em… CONTINUA

A fartura da fratura

[Os entretítulos em itálico são trechos do texto de base do filme] Você quer que eu seja uma mera representação de você, carne: você é patética! Vaga Carne é um texto escrito por Grace Passô, encenado como peça de teatro desde 2016. O filme aqui em questão a transcria durante pouco menos de cinquenta minutos e é dirigido pela autora do texto e por Ricardo Alves Jr – que também fez parte da equipe de criação da montagem teatral da obra. Isso não é meu.… CONTINUA

O trauma, a fala

“O pior é essa raiva, que nunca passa.” Desde A vizinhança do tigre (2014), Affonso Uchôa vem compondo um repertório de vivências marginais ancoradas no universo masculino. A começar pelos adolescentes deste último filme, cultivando uma liberdade ociosa na qual a zombaria e a alopração funcionavam como expressão de camaradagem. De maneira muito diferente, Arábia (codirigido com João Dumans, 2017) também lidava com um mito que poderíamos chamar de “masculino”: aquele do homem sem amarras, avesso ao pertencimento do universo doméstico e cuja solidão anônima… CONTINUA