… ma non troppo

O Banquete começa com um close up de uma planta carnívora comendo uma mosca em uma sala de jantar. A imagem difere ligeiramente do tipo de registro que pautará o restante do longa-metragem, porque se quer metafórica e premonitória, pronta a ecoar nos momentos seguintes do filme: o jantar é uma armadilha. Logo descobriremos o setup – uma mesa com oito lugares vazios frente a um enorme espelho, que servirá para, no reflexo, emoldurar e retirar de quadro sequencialmente as figuras que o adentram –… CONTINUA

A história oficial

Já foi comentado que o drone que sobrevoa a grama verde em frente ao Congresso Nacional no princípio de O Processo ilustra com uma indubitável clareza a cisão política que existia na população brasileira no ano de 2016, pondo de um lado um grupo de manifestantes vestidos de vermelho que apoiavam o governo da presidenta Dilma Rousseff e denunciavam o golpe, e do outro lado, manifestantes vestidos de verde-e-amarelo, a favor de seu impeachment. As primeiras sequências elaboram um pouco mais profundamente esta polaridade, mergulhando… CONTINUA

Luz interior

Em uma primeira visão, Deixe a Luz do Sol Entrar pode parecer um corpo estranho dentro do conjunto da obra de Claire Denis, uma das diretoras fundamentais para o cinema produzido na virada dos anos 1990 para o novo milênio. Ele não tem o mesmo acorde enigmático, a sobressaliente pujança estética e a estranheza narrativa de um O Intruso; nem a energia latente ou o trabalho sobre a superfície da imagem de Bom Trabalho ou Sexta-feira à Noite; nem mesmo o olhar sério, objetificante e… CONTINUA

Nada é provisório

O golpe civil-militar de 1964 promoveu uma mudança paradigmática no tipo de cinema produzido pelos cinemanovistas. Dentre as muitas manifestações que surgiram a partir de Aruanda (Linduarte Noronha, 1960) ou Cinco Vezes Favela (Marcos Farias, Miguel Borges, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirszman, 1962) até o catedrático ano, a perspectiva do grupo se aproximava de cenários da pobreza (como o Nordeste e a favela) e, em paralelo, defendia a autoria e a originalidade estética do movimento, tão bem descrita por Glauber Rocha… CONTINUA

O mundo não é seu

Em uma entrevista concedida a David Poland em julho de 2017, o ator Robert Pattinson comentou que abordou os diretores de Bom Comportamento propondo-lhes trabalharem juntos após ver um still na internet do longa-metragem anterior dos dois. Não havia ainda nenhum projeto. Ou melhor, o projeto de alguma forma começava a nascer ali. Acostumados a trabalhar com não-atores, com moradores de rua ou ex-viciados no elenco, como é o caso de Só Deus Sabe (2014), a reação deles foi imediatamente pensar em como lidar com… CONTINUA

O cômico e o sério

A interpretação mais rápida que um filme como Bingo – o Rei das Manhãs, de Daniel Rezende, pode requisitar é a de ser visto como mais uma comédia dramática ingênua e despretensiosa, o que muito da recepção do filme fez até agora. Neste sentido, comentaríamos a excelência de atuação ou da montagem, o trabalho de luz, o percurso dramático, a capacidade de criar situações engraçadas, etc., para falar em sua “eficácia”, sem com isto nos obrigar a pensar mais sobre nada do que está em… CONTINUA

A imagem antes do olhar

Ponderando uma tela branca em sua residência, com o pincel em mãos e prestes a tocá-la, o pintor e professor de artes Wladyslaw Strzeminski (Boguslaw Linda) é interrompido pela sombra avermelhada de um painel cobrindo a sua janela. Inicialmente, ouvimos o discurso ufanista em um megafone falando do governo socialista instaurado na Polônia. Em seguida, um plano mais fechado mostra a tela em branco que o pintor contempla ser tomada por uma luz avermelhada, oriunda de uma bandeira rubra de pano sendo erguida em seu… CONTINUA

Dar a ver: entrevista com Adriano Aprà

Adriano Aprà é uma figura polivalente, que atua desde o final da década de 1950 em diversas das esferas cinematográficas. Foi um dos mais renomados críticos italianos da geração posterior à neorrealista, sendo um dos nomes mais participativos das transformações que ocorreram no cinema de seu país na segunda metade do século XX; teve uma atuação acadêmica exemplar e foi editor de uma quantidade ímpar de coletâneas e publicações refletindo sobre a arte cinematográfica; foi curador do Festival de Pesaro por dez anos, onde consagrou… CONTINUA

As mãos do prisioneiro

É preciso aguardar até às últimas imagens de Os Bons Tempos Chegarão em Breve, de Alessandro Comodin, para se deparar com a evidência concreta de sua declarada homenagem à iconografia bressoniana: a mão do prisioneiro que segura na grade de sua cela. A influência anunciava-se de forma subreptícia aqui e acolá, mas com esta imagem final o mesmo gesto dotado de expressividade metafísica em O Batedor de Carteiras (1959) passa a ser uma menção mais frontal e evidente, um diálogo com uma determinada tradição cinematográfica… CONTINUA

Meu coração está perdido em sete bocados

“Os anjos, pelo som da voz, conhecem o amor de um homem; pela articulação do som, sua sabedoria; e pelo sentido de suas palavras, a sua ciência”. A frase de Emanuel Swedenborg recitada sobre a tela preta é o preâmbulo que abre Correspondências, um mote que serve de alicerce às experimentações de Rita Azevedo Gomes. Inspirado nas cartas trocadas entre dois poetas, Sophia de Mello e Jorge de Senna, entre 1957 e 1978, durante o exílio dele do regime salazarista, o longa-metragem tem como dispositivo… CONTINUA