Melancolia que nos confina

Em seu primeiro documentário, Marcelo Gomes revisita uma cidade que frequentou ainda criança, quando viajava junto ao seu pai, funcionário público que fazia inspeções fiscais nas cidades do interior de Pernambuco. É assim que chegamos em Toritama, cidade que recentemente se tornou famosa pela produção de jeans, o mesmo local que Marcelo, ao retornar, logo admite: “eu tento reconhecer o lugar, mas nada parece igual”. Com efeito, o lugar que ele guarda na memória de infância “era um mundo rural de feiras livres, plantadores de… CONTINUA

A eminência do corpo

Embora erguido sobre muito sangue indígena, o Brasil filmado por A Febre é um país em ruínas: desemprego, desmatamento, falência das fábricas, transporte público precário e hospitais abarrotados. Em lugar da formação de uma nação pujante e industrialmente desenvolvida, o Brasil teria se tornado um mero exportador de produtos primários (ou tão somente “montados” no país) e importador de alta tecnologia das grandes potências. A produção cede lugar à circulação na mesma medida em que o tipo ideal do trabalhador brasileiro não é mais o… CONTINUA

A mítica do olhar interno

Uma câmera à mão, o marca-passo de um ritmo respiratório – e o tempo suficiente para que a impressão de uma trepidante subjetiva levante “seus” olhos do nível do chão para deixar adentrar, no quadro, um desconhecido em trânsito de alto fôlego. A curvatura de intromissão de um estrangeiro, da subjeção ao intuitivo, saltando do pulmão ao acompanhamento que se fará sobretudo olhar, é, ainda naquele preâmbulo, uma instalação do anonimato em mais de um sentido. E se a câmera aprende a ceder espaço para… CONTINUA

O corpo em estado de imagem

Na abertura da apresentação do grupo de swingueira de Recife Cia. Extremo, ouvimos um locutor falar, acompanhado por um teclado solene e sintetizadores, segundos antes do início do espetáculo: “Brasil. Um país maravilhoso. Realmente devemos honrar o que está escrito na bandeira: ordem e progresso”. No centro da cena, encontra-se Eduarda Lemos, modelo e bailarina, mulher trans negra, protagonista de Swinguerra (Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, 2019). A sua presença é a de uma diva pop, que tem pleno domínio sobre sua própria imagem.… CONTINUA

O Brasil está morto. Viva o Brasil.

Dirigidos respectivamente pelo cineasta mais experiente desta edição e por um grupo de jovens experimentadores presentes à 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, Sertânia, de Geraldo Sarno e Canto dos Ossos, de Jorge Polo e Petrus de Bairros, mantêm entre si algumas ressonâncias que não me parecem completamente desprovidas de sentido e orientação. Liberados de toda a lógica do “eterno ensaio” (aquela que vive de suspirar: “um dia o cinema brasileiro chega lá!”) ou da “Retomada” (“agora vai!”), estamos diante de dois filmes que circunscrevem… CONTINUA

Mangue fértil

O cavalo é, para Jung, um símbolo para o inconsciente; para as tradições afro-indígenas, ele representa aquele ser passível de incorporação, médium. Cavalo é, assim como o animal-símbolo que evoca, um filme no qual a montagem se realiza a partir do fluxo do inconsciente. Sendo o primeiro longa-metragem finalizado desde a implantação de editais de longas com arranjos regionais, ligado à Ancine,  no estado de Alagoas, Cavalo é um pronunciamento obstinado sobre a busca de compreender as ancestralidades que compõem o microcosmo alagoano em diálogo… CONTINUA

Esconde-esconde

Yãmiyhex – As Mulheres-Espírito se dá por um inusitado fio de enlace entre o dito e o não-dito. À primeira vista, as pistas estão todas aí: o filme retrata o acompanhamento da festa das Yãmiyhex na sua periódica visita ritual aos Tikmũ’ũn que residem na Aldeia Verde (Apne Yixux). Se o ponto de partida ainda soar distante, não há problema, a história de fundação das Yãmiyhex será narrada e reencenada pelo prólogo que abre a obra. Essas mulheres-espírito são evocativas do momento de conflito decisivo… CONTINUA

Abismo fugaz

Em um plano abertíssimo uma mulher finca-se, de pé, sobre um banco. Um homem, forte, descamisado, dotado de uma masculinidade proeminente, abraça-a em um gesto similar ao do enamorado Pigmalião, que envolve Galatéia, sua escultura-musa em um enlevo tão romântico que transforma pedra em vida. É nessa atmosfera inebriante, mas austera, que se passa o longa-metragem Natureza Morta, de Clarissa Ramalho. O filme completa, com uma diretora mulher, uma trilogia iniciada por Djalioh (2011) e Paixão e Virtude (2014), ambos de Ricardo Miranda – o… CONTINUA

Disjunção larvar

A sinopse deste filme cearense-carioca diz: “Duas amigas monstras decidem seguir rumos diferentes. Décadas depois da despedida, Naiana (Rosalina Tamiza) é professora do ensino médio em uma pequena cidade litorânea, onde um hotel em reforma emana estranha presença. A três mil quilômetros dali, a noite devoradora envolve Diego (Maricota)”. Aí já está colocado o jogo de distâncias e paralelismo que compõe o filme. Começamos com o passado das amigas, depois a história se bifurca e se une no encontro final, nesta espécie de “romance de… CONTINUA

Organizando a desordem

É curioso notar como Cabeça de Nêgo articula elementos que orbitaram algumas conversas recorrentes desde o início da Mostra. A começar pela pedagogia que cada obra propõe quando lida com os temas políticos, tocando os nervos de um momento em que o Estado brasileiro se retira de seu papel educacional e promete perseguição aos que insistirem, seja na arte ou na sala de aula. Também o exercício de retrabalhar inventivamente os gêneros cinematográficos existentes, nesse caso o do filme teen, enquanto um espaço criativo, mas… CONTINUA