Antiguerra híbrida – sobre as táticas de Adirley Queirós e 5 da Norte

O cinema de Adirley Queirós e de sua rede de colaboradores se forma por uma relação com o território. Não é só nos títulos de Rap – O Canto da Ceilândia (2005), A Cidade é uma Só? (2011) ou Era uma vez Brasília (2017) que as cidades figuram. Sua obra tem como premissa estudar as ficções e fabulações que formam uma cidade. Para isso, a perspectiva da Ceilândia é estratégica: espacial e simbolicamente em oposição à cidade-síntese das ficções brasileiras do poder institucional: Brasília. Esta situação… CONTINUA

“Aqui não se anda só” – Entrevista com Ary Rosa, Glenda Nicácio e Moreira

O aparecimento no cenário público da Rosza Filmes, produtora sediada no Recôncavo Baiano e responsável pelos longas-metragens Café com Canela (Ary Rosa e Glenda Nicácio, 2017), Ilha (Ary Rosa e Glenda Nicácio, 2018), Até o Fim (Ary Rosa e Glenda Nicácio, 2020) e Voltei ((Ary Rosa e Glenda Nicácio, 2021), é um dos eventos históricos mais importantes da última década do cinema brasileiro. Seu método de trabalho – que associa uma intensa coletividade no processo, uma relação forte com iniciativas de educação, uma ancoragem em… CONTINUA

Ilha, Travessia ou por um cinema negro desobediente

Ilha (Ary Rosa e Glenda Nicácio, 2018) narra o encontro entre um cineasta de sucesso, Henrique, sequestrado por um jovem, Emerson, que obriga o cineasta a fazer um filme sobre sua vida. O longa acompanha esse singular sequestro. Ao final, descobrimos que Emerson foi aluno de Henrique quando criança, em uma oficina educativa de vídeo. Através da disputa entre um cineasta consagrado e um jovem, que hoje trabalha como traficante, disputando o filme que vemos, é construída uma dramaturgia abismática de registros instáveis, que se estrutura… CONTINUA

Cinema de Gira

Para esta conversa aqui, buscamos, em termos de método, nos aproximar de certas características que encontramos nos filmes dirigidos por Ary Rosa e Glenda Nicácio. Optamos, no texto, por nos deixar contagiar pela oralidade latente e por um inclinação de método, onde o ritmo, e uma certa velocidade e dinâmica das ideias prevalecessem sobre uma explicação esclarecedora do assunto. O que vocês vão ler é mesmo um diálogo, um chat, uma chuva de insights, e achamos por bem que conserve essa forma, de certa maneira… CONTINUA

Cinemas da rede, no meio do redemoinho: da mão à rua, da rua à mão (2)

Esta publicação é a segunda parte do texto-conversa escrito por Álvaro Andrade, Juliano Gomes e Victor Guimarães. Se você está chegando agora, leia a primeira parte aqui: Cinemas da rede, no meio do redemoinho: da mão à rua, da rua à mão (1) Ao olhar em retrospecto para a última década de imagens fílmicas no Brasil, percebemos que se tornou insustentável para a crítica brasileira uma postura de negligência em relação a uma multidão de filmes realizados em todos os cantos do país, por realizadoras e… CONTINUA

Cinemas da rede, no meio do redemoinho: da mão à rua, da rua à mão (1)

Ao olhar em retrospecto para a última década de imagens fílmicas no Brasil, percebemos que se tornou insustentável para a crítica brasileira uma postura de negligência em relação a uma multidão de filmes realizados em todos os cantos do país, por realizadoras e realizadores diversos, que circulam diretamente por meio de plataformas online, sem a chancela dos festivais ou dos circuitos tradicionais de exibição. São filmes curtos, sem edital, sem crédito, sem certificado da Ancine, sem logo da Netflix, muitas vezes anônimos e sem título,… CONTINUA

Pós-escrito (ou por um cinema preto que não caiba)

Estas observações aqui abaixo continuam um diálogo que se deu nesta sequência de cartas pensando desafios do cinema negro hoje. As questões principais são: que comunidade negra de cinema se quer? Que forma ela tem? Que ideias a compõem? Nesta próxima década veremos inevitavelmente uma segmentação – é assim que mercados funcionam. Não só de mercado, mas de ideias. Coco Fusco falou outro dia: “não precisamos de arte nova, mas de instituições novas”. É claro que filme novo é sempre bom, porém a forma de uma… CONTINUA

Carta a Bruno Galindo (ou o bagulho é a prática)

Fala, Bruno. (Só pra relembrar a quem esteja entrando na conversa agora, que este texto continua uma troca que se inicia com o texto de Heitor Augusto , que teve uma resposta que escrevi aqui em 2018, e Bruno entrou na roda no mesmo ano.) Apesar dos dois anos de atraso, fiquei entusiasmado com o fato de tu responder ao que escrevi lá atrás. Então: sinto que nessa década que termina se constituiu uma rede razoavelmente densa junto às ideias que pairam sob as palavras “cinema negro”. Para além do… CONTINUA

Olho para o passado, corpo para o futuro

No nosso último editorial, publicado em abril, encerramos o texto falando da instabilidade da primeira pessoa do plural, um movimento do “nós”. Neste mesmo período, tivemos uma mudança na composição da editoria, pois Raul Arthuso deixou a revista, depois de trabalhar como editor desde 2016, primeiro com Fábio Andrade e depois sozinho. Seguimos agora com Ingá, Victor Guimarães e Juliano Gomes como núcleo de proposições, na tentativa de manter o rigor de olhar e de escrita consolidados na última década, mas buscando ampliar o leque… CONTINUA

Por uma fantasmagoria negra experimental

No atual ambiente de ações remotas dos festivais no Brasil, algo tem se repetido: amigos e amigas me falando pra ver A Morte Branca do Feiticeiro Negro, curta de Rodrigo Ribeiro. No segundo ou terceiro evento onde ele estava programado, consegui. A impressão é de que estamos diante de um grande filme que não barateia um dos nossos temas mais fundamentais e difíceis de abordar: “o rastro escravista brasileiro”, segundo Ribeiro. Um incomum filme de arquivo, como uma flecha de perturbação lenta, com uma ensaística… CONTINUA