A primeira pancada

Tamanha a estupefação diante da superficial profundidade do riso causado por Eugène Green neste curto – curto como um golpe – Como Fernando Pessoa Salvou Portugal, somente uma lenda pode introduzi-los, o filme, a gargalhada, a travessura custosa que é a poesia. Lembramos bem (grande parte de nós?) do monólito escuro de Stanley Kubrick à aurora da humanidade, do fantasmático ressoar de ‘Rosebud’ pelos corredores do império morto do magnata Charles Kane, da diabólica orquestração em agudos de pássaros assaltando uma cabine telefônica com uma… CONTINUA

O instante é um rio das almas perdidas

Nos lugares sérios em que as opiniões são como rochas que não racham nem tampouco se olham, lugares dos quais o cinema não só não está excluído, como talvez, aliás, já tenha se circunscrito em caricatas exemplaridades, tem se tornado terminantemente pueril e quase ofensivo sugerir que indivíduos são por vezes movidos por sentimentos que mal lhes cabem – sentimentos inchados, latentes, indivisíveis de muito do resto do que se faz. Digamos por um momento que este Hotel às Margens do Rio é um filme… CONTINUA

Latitudes e partidas: o historiador da história

É caso a se pensar e debruçar, este das tarefas impostas ao cinema “de cima”, digamos, pela crítica. Por seus outros agentes de fabricação também, decerto, mas sobretudo por ela. Melhor dito: pela crítica no decurso do tempo, posto que a sedimentação sobre o eco reverberado costuma ser mais sólida e persistente que aquela feita sobre a rocha que objeta, e não por sobrepujança das forças ditas conservadoras. Aquela (crítica) que disser de certos filmes que estes podem reescrever a história, por exemplo, ou mesmo… CONTINUA