A fartura da fratura

[Os entretítulos em itálico são trechos do texto de base do filme] Você quer que eu seja uma mera representação de você, carne: você é patética! Vaga Carne é um texto escrito por Grace Passô, encenado como peça de teatro desde 2016. O filme aqui em questão a transcria durante pouco menos de cinquenta minutos e é dirigido pela autora do texto e por Ricardo Alves Jr – que também fez parte da equipe de criação da montagem teatral da obra. Isso não é meu.… CONTINUA

O fundo do coração e outras superfícies

“Nada de grandioso no mundo se realizou sem paixão” Hegel, Prefácio à Fenomenologia do Espírito “A Realidade não é arte, mas uma arte realista é aquela que cria uma integral estética da realidade” André Bazin, O que é o cinema? A sentença que propriamente ameaça saltar para fora e estilhaçar, com uma pressão de hidrogênio afetivo, o bojudo universo centrípeto dos personagens de No Coração do Mundo – sim, eles sonham, mas moram em Contagem -, propulsionando o filme mais diretamente para o hors champ… CONTINUA

A parte e o todo

Comecemos pelo título do filme: “no coração do mundo”. Que lugar é este a que alguns personagens se referem repetidamente, e que o filme tenta transformar em mote, em um leitmotiv romântico que atrai os protagonistas, impulsionando-os? É um lugar abstrato, o ideal íntimo de cada um, mas que teria a força poderosa de colocar esses personagens em movimento, em direção a um objetivo. No Coração do Mundo é isto: um filme sobre personagens que, diante do marasmo de um cotidiano estreito, sem horizontes, que… CONTINUA

Coração no olho

Um bandido de meia tigela, uma cobradora de ônibus cansada de aguentar desaforo e uma aspirante a gênia do crime armam um golpe pra acertar a boa de uma vez por todas e meter o pé. Ao redor do trio principal, uma porção de gente toca a vida no bairro Laguna, entre juntar dinheiro pra trocar de carro e vingar a morte do filho assassinado. A crônica prosaica encontra o filme de ação, como já era o caso nos dois curtas cujos personagens fazem parte… CONTINUA

O despertar dos vivos

A primeira imagem de choque em O Nó do Diabo é a cabeça de um homem negro explodindo com um tiro de escopeta. O atirador é um homem branco. Logo em seguida, o mesmo matador acerta uma jovem negra pelas costas. Estamos apenas com alguns minutos e o filme já nos lança no turbilhão de assistir àqueles corpos abatidos sob o jugo implacável de um jagunço moderno. A que (e a quem?) valem aquelas imagens num filme brasileiro hoje? Da cultura de um país que… CONTINUA