Jardim dos detritos

Considerado por trinta anos como um filme perdido, O Jardim das Espumas voltou à circulação no Brasil com a descoberta de uma cópia na França, em 2014. Marco do que se convencionou chamar de Cinema Marginal, trata-se ainda de um filme muito mais conhecido do que propriamente visto. O descobrimento de uma cópia tida como desaparecida não apenas tem permitido que outra geração tenha acesso a este trabalho de Luiz Rosemberg Filho, mas atribui ao filme a condição de uma ação diferida. O atraso com que… CONTINUA

A Chance de Um Milhão de Dólares

Erasmo Carlos sempre foi uma espécie de “patinho feio” na história da música brasileira. Noves fora sua imagem de sujeito bonachão, coautor das canções que Roberto Carlos imortalizou, a narrativa consagrada de Erasmo é a de uma espécie de Pete Best ao contrário: o que permaneceu no lugar certo na hora certa, mas que nunca conseguiu devolver em sua própria carreira a complexidade que o amigo de fé, irmão camarada, esbanjou até se tornar uma caricatura. Em meados dos anos 1970, para um desavisado, Erasmo… CONTINUA

Cinética Podcast #4 – “A Mula” e “Imagem e Palavra”

O quarto episódio do Cinética Podcast reúne Marcelo Miranda, Raul Arthuso e Pedro Henrique Ferreira numa sessão dupla de dois grandes realizadores. Não há relações diretas eles, a não ser que nasceram ambos em 1930 e tiveram seus novos trabalhos lançados no circuito brasileiro no começo de 2019. Um é Clint Eastwood e A Mula, seu 38º longa-metragem. O outro é Jean-Luc Godard e Imagem e Palavra, o 44º longa do cineasta. Os dois títulos mobilizaram a redação da revista nas últimas semanas, então não… CONTINUA

As culpas dos velhos e os erros dos novos

As inflexões mais cômicas de A Mula fazem-se evidentes nos momentos em que seu tema principal salta à vista: o descompasso entre as imagens preconcebidas que fazemos de alguém ou de algo, com os devidos papéis e lugares que estas devem ocupar no mundo, e sua materialidade ou existência objetiva que frequentemente as desloca. Um exemplo ilustrativo – o agente Colin Bates (Bradley Cooper) sabe que o traficante que procura na estrada dirige uma pick-up preta; ele passa por diversos carros como este, observando e… CONTINUA

A primeira pancada

Tamanha a estupefação diante da superficial profundidade do riso causado por Eugène Green neste curto – curto como um golpe – Como Fernando Pessoa Salvou Portugal, somente uma lenda pode introduzi-los, o filme, a gargalhada, a travessura custosa que é a poesia. Lembramos bem (grande parte de nós?) do monólito escuro de Stanley Kubrick à aurora da humanidade, do fantasmático ressoar de ‘Rosebud’ pelos corredores do império morto do magnata Charles Kane, da diabólica orquestração em agudos de pássaros assaltando uma cabine telefônica com uma… CONTINUA

As pulsões do cinema de Philippe Grandrieux

1 Desde que defini-lo como cineasta passou a ser mais adequado que artista plástico, realizando obras destinadas à exibição em salas de cinema e não museus, Philippe Grandrieux se tornou rapidamente uma das principais referências do cinema contemporâneo mundial ao conquistar prêmios importantes em festivais como Locarno e Veneza. O francês despontou ainda na videoarte, trafegando entre inúmeros trabalhos para TV, museus, performances, curtas experimentais e documentários, antes de finalmente realizar os quatro longas – Sombras (1998), A Vida Nova (2002), Um Lago (2008) e… CONTINUA

Notas sobre Barbara Loden

I. Ela voltou? Às cinzas, às cinzas da nascença? Por quê? Bastante fora de esquadro – para uma fênix. II. Não tão incomum assim, pensa. As outras, as que fincam raízes nos letreiros, as que seguem a viagem imóvel, cintilante, estas são exceções. III. Exila-se de si a vedeta heliconíade fascínio e friúme enquanto desincrusta as miçangas uma por uma. IV. Uma por uma – e são aos milhões –, correm-se as lâmpadas do camarim, batem portas intestinas, ela é a província cinzenta a sair… CONTINUA

Cinética Podcast #3 – Netflix e o cinema

Com mais de 100 milhões de assinantes espalhados por aproximadamente 190 países, a Netflix se tornou um fenômeno cultural. Não passa dia sem alguém comentar novidades da plataforma de streaming ou fazer a indefectível pergunta: “tem na Netflix?”. A empresa se tornou uma multinacional, com braços em toda a cadeia audiovisual. Seu poderio já incomoda estúdios tradicionais de Hollywood e também festivais de prestígio. Em 2019, o Oscar passou a ser ponto-chave do assunto ao indicar e premiar Roma, filme mexicano com selo Netflix. Neste terceiro… CONTINUA

Beijo no passado

Difícil ver Carvana (2018), documentário de Lulu Corrêa, sem a constatação da morte, apesar da manifesta celebração ao biografado. Morto em 2014, Hugo Carvana foi o bigodudo cara de pau, o suburbano flâneur, que depois tornou-se membro de uma autoconfessada elite intelectual. Era engajado: participou do Teatro de Arena de Augusto Boal, casou-se com a militante Martha Alencar, exilaram-se durante a ditadura de Garrastazu Médici. Mas era também adepto do Beco das Garrafas, figurante nas chanchadas da Atlântida, a mãe criadora do Dino, de Vai… CONTINUA

Figuras de um desmantelo blue

Um dos conceitos mais envolventes sobre espaço que conheço foi cunhado por Milton Santos. Com uma simplicidade cortante, Santos afirma: “O espaço geográfico é uma acumulação desigual de tempos onde convivem simultaneamente diferentes temporalidades”. Ao ler essa sentença, a primeira impressão que surge é a de um desvio do espaço pelo tempo. Mas há, na formulação, uma interessante provocação: o convívio – e essa palavra não é trivial – de distintas camadas temporais, como se o espaço fosse crivado por inscrições, vestígios, palimpsestos, acúmulos e… CONTINUA