Brumadinho: olhar para o que se apaga

Em meio à tragédia, alguém liga uma câmera. O primeiro quadro aponta para uma nuvem de poeira que cria um horizonte curto e enevoado. Homens uniformizados correm de sua influência. Um ruído de máquina, carro e respiração ofegante. O marrom do minério da terra impregna tudo, como uma matéria fundadora, mas ali se precipita uma catástrofe perscrutável, localizada nos domínios da empresa Vale, em Brumadinho, no ano de 2019. Os gestos organizados pelo operador da câmera serão testemunho, corpo de resistência diante de um crime… CONTINUA

Um clássico fugaz do cinema mobile

Na pequena cidade de Papagaios, centro-oeste de Minas Gerais, um grupo de trabalhadores de uma serraria de ardósia tem se dedicado a realizar pequenos filmes cômicos e a disseminar esses materiais em grupos de Whatsapp da região. Foi através do contato com um pesquisador da cidade que acessei esse material e ganhei o dia com aquela boa surpresa. Filmado e editado com celular, composto por vários quadros em que a ação é organizada em formato piramidal, o filme é melhor visualizado com o aparelho na vertical… CONTINUA

Pé de pano, arte da fuga

“Cê é doido?” / “Vô filmar mesmo que isso é covardia”. / “Hoje suas cara vai passar no Balanço Geral. Cês vão ver, sô! Cês vão ver”. Enquadro A câmera de celular não é apenas instrumento de defesa nas mãos do homem que profere as palavras reproduzidas acima, materializadas num vídeo que ganhou no YouTube o título de “Detido dá golpe em policial e consegue fugir com apoio de populares”. A câmera é arma empunhada rumo a um ataque que se sabe ser desigual. O… CONTINUA

Roda Viva ou É Deus, Mamãe

“É Deus Mamãe, eu Filmei tudo, um Redimunho kkkkkkkkkkk”, assim como vários vídeos da era em que as coisas simplesmente caíam na internet, em vez de serem subidas para ela, é identificado, na versão com mais views, por um compilado de momentos-chave (a reação do público marca o gênero: kkkkkkkkkkk). Enquanto sua certidão de nascimento – título, resolução, autor, data, duração original – se decompôs em uma camada já compactada de sedimentos pixelados da web, seu espírito permanece vivíssimo, vibrando no boca-a-boca e provocando reações… CONTINUA

Meu deboche será sua herança

Fada do deboche debochando da mini pastora é uma versão reduzida de aproximadamente um minuto e meio de um vídeo de seis minutos, publicado em 2018, em que uma menina canta canções religiosas e conduz um culto evangélico num lugar público de uma cidade brasileira. A cena urbana gravada na vertical com um dispositivo de celular busca, na maior parte do tempo, enquadrar a personagem principal, de vestido preto e a todo momento tentando secar o nariz com coriza. Outras vezes busca-se enquadrar os presentes,… CONTINUA

Cinemas da rede, no meio do redemoinho: da mão à rua, da rua à mão (2)

Esta publicação é a segunda parte do texto-conversa escrito por Álvaro Andrade, Juliano Gomes e Victor Guimarães. Se você está chegando agora, leia a primeira parte aqui: Cinemas da rede, no meio do redemoinho: da mão à rua, da rua à mão (1) Ao olhar em retrospecto para a última década de imagens fílmicas no Brasil, percebemos que se tornou insustentável para a crítica brasileira uma postura de negligência em relação a uma multidão de filmes realizados em todos os cantos do país, por realizadoras e… CONTINUA

Cinemas da rede, no meio do redemoinho: da mão à rua, da rua à mão (1)

Ao olhar em retrospecto para a última década de imagens fílmicas no Brasil, percebemos que se tornou insustentável para a crítica brasileira uma postura de negligência em relação a uma multidão de filmes realizados em todos os cantos do país, por realizadoras e realizadores diversos, que circulam diretamente por meio de plataformas online, sem a chancela dos festivais ou dos circuitos tradicionais de exibição. São filmes curtos, sem edital, sem crédito, sem certificado da Ancine, sem logo da Netflix, muitas vezes anônimos e sem título,… CONTINUA

“Os bárbaros invadiram os castelos” – Entrevista com Valter Filé – Parte dois

Continuando a entrevista com Valter Filé, aqui Bernardo Oliveira puxa assuntos relacionados ao trabalho fundamental de Filé com a memória do samba carioca, especialmente no projeto Puxando Conversa. Além disso, o papo trafega por sua relação com a universidade e por sua relação com o Eduardo Coutinho, ressaltando como o trabalho com Coutinho foi crucial para as práticas e reflexões de Valter Filé. (Juliano Gomes) * Bernardo Oliveira: Gostaria que você falasse sobre o Puxando Conversa, a partir da complexidade do registro. Registrar não é somente… CONTINUA

“Revitalizar a coletividade interrompida” – Entrevista com Valter Filé – Parte um

Em julho de 2020, Bernardo Oliveira conversou remotamente com Valter Filé, principalmente sobre sua experiência transgressora em TVs comunitárias como a TV Maxambomba e a TV Pinel. A experiência de Filé aqui descrita, entre ótimos causos e reflexões agudas, afirma um interesse da Cinética em explorar cada vez mais a fundo as zonas limítrofes das relações entre imagem e comunidade, entre pedagogia e cinema, entre ética e realização, e assim por diante. Esta é a primeira parte da conversa, que narra os primórdios de seu… CONTINUA

Valter Filé e a ficção da imagem popular

A experiência do vídeo e da TV popular no Brasil está diretamente associada ao processo de redemocratização que culmina com a Constituição de 88. Um grande fluxo de aporte financeiro internacional, através de agências e instituições como Oxfam Novib e CAFOD (Catholic International Development Charity), acorreu ao país durante este período, visando implementar uma plataforma de iniciativas voltadas para a reconstrução dos Direitos Humanos e do debate público no país. Surgem experiências de TV comunitária como a TV Viva, em Olinda, a Associação Brasileira de… CONTINUA