Tesão e tensão

1. Maya Deren foi uma cineasta, escritora e coreógrafa experimental muito ativa e influente nos anos quarenta e cinquenta do século passado. Nasceu na Ucrânia, em Kiev, em 1917, como Eleonora Derenkowska, mas seus pais fugiram do antissemitismo para os EUA em 1922. Deren estudou poesia moderna e participou de um grupo trotkista antes de fazer seu primeiro filme, em 1943, junto com seu marido da época, Alexander Hammid, e um orçamento de duzentos e cinquenta dólares. Meshes of the Afternoon é também sua obra… CONTINUA

História do olho

A mais recente embarcação de James Gray lembra: não somos ingênuos a pelo menos três dos rastros mais distintivos, e, portanto, também, mais reiterativos, escorregadios, da chamada ficção científica como tratada pelo cinema – e não simplesmente porque a certos gêneros a assinatura de seus traços é uma docilidade aos olhos: 1) fala-se de uma noção de cidade, de um espaço reflexivo diante das relações que ali se travam e/ou não mais se travam, 2) é perceptível um arranjo de técnicas constituintes dos limites de… CONTINUA

Aqueles que não querem se afetar

Durante uma hora, vinte e oito minutos e dezessete segundos, entre os dias vinte e quatro e vinte cinco de maio de 1975, a lua sangrenta se interpôs por completo entre o sol e a terra, lambuzando a Argentina de vermelho. Exatamente dez meses a partir do eclipse lunar total a Argentina sofreria um golpe, que retiraria Isabelita Perón do governo e uma junta militar, liderada por Jorge Rafael Videla, ascenderia ao poder e iniciaria uma ditadura no país. É no contexto desses dois eventos… CONTINUA

Enterrando nossos vivos

Lá pela metade da terceira história do excepcional La Flor (2019), de Mariano Llinás, Dreyfuss (Horacio Marassi), um cientista alemão sequestrado que termina amarrado no banco de trás de um carro em terras desconhecidas, liga os pontos que o levaram até aquele momento para tentar imaginar seu destino. Enquanto as sequestradoras guiam por planícies desertas, falando apenas em francês, ele especula que elas estão apenas esperando que o cair da noite: – “Chegou a hora. Elas vão me matar.” Mas elas não o matam. E… CONTINUA

O futuro de um passado

Em ao menos duas ocasiões ao longo de The Irishman, o mais novo filme de Martin Scorsese, a câmera passa do exterior ao interior de uma locação, atravessando o parabrisa de um carro em uma delas, e a porta de vidro de uma lanchonete em outra. Esse movimento traz à memória um plano bastante célebre de Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, em que um movimento de grua passa por entre as letras de neon do luminoso sobre o El Rancho e atravessa uma claraboia,… CONTINUA

O retorno ao pornodrama

Escondida em uma quitinete no Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro de Copacabana, a pornochanchada permanece viva entre nós. Tem saudades do tempo em que, serelepe, circulava pela cidade querida. Invadia a praia, os botequins e, principalmente, os cinemas. Passeava de carro, mantinha outro endereço em São Paulo, fumava cigarros Vila Rica – porque levava vantagem em tudo –, era fértil e desejada. Hoje muitos pensam que está morta, mas a verdade é que sempre a alimentamos clandestinamente e, de vez em quando, alguém… CONTINUA

O último escultor cubista

Em Os Convidados, Ken Jacobs se apropria de um fragmento de 30 segundos de Entrée d’une Noce à l’Église, uma vista Lumière filmada em 17 de junho de 1897. A vista retrata a entrada dos últimos convidados para o casamento da irmã de Charles Moisson, projecionista dos irmãos Lumière, na igreja de Saint-Lambert de Vaugirard, em Paris. Em um desenvolvimento recente de suas pesquisas com o 3D digital, Jacobs ralenta a projeção do filme original ao máximo e sobrepõe, a cada vez, dois fotogramas ligeiramente… CONTINUA

“Deus ajuda quem cedo madruga” – Considerações tardias sobre o 21º Festival Brasileiro de Cinema Universitário

É certo que hoje podemos pensar o mundo do trabalho como um tema especialmente recorrente nas imagens do cinema brasileiro, mas mais interessante do que evidenciar um diagnóstico de problemáticas à vista, é buscar compreender os sentidos que se produzem e se transformam a partir das novas e variadas formas de relacionamento com essa questão que há muito nos persegue; é perceber como eles articulam os reflexos de uma realidade em mutação, ou ainda: como eles mesmos se tornam a própria expressão dessa mutação. Não… CONTINUA

Brasileiros são os outros

Raros os cineastas que conseguem gerar expectativas a cada vez que lançam um novo filme. Pedro Almodóvar e Quentin Tarantino são os primeiros que me vêm à mente. Talvez Woody Allen, aos 83 anos, mantenha esse espírito. Clint Eastwood, aos 89, é outro da lista. Mas no caso de Allen e Clint temos a celebração do passado glorioso. É como um show dos Rolling Stones, ou de Paul McCartney: o sentimento de “uau, eles ainda estão aqui!” supera o impacto que possam causar. No clube… CONTINUA

Ninguém solta a mão de ninguém

O nordeste sertanejo de Bacurau faz remissão ao retrato da região feito por alguns cineastas pernambucanos no pós-retomada. Ele é espaço de confluência entre a tradição e a modernidade (um cortejo de enterro ao som da guitarra elétrica amplificada). Tem como ponto turístico o museu, mas tem wi-fi aberto e localização no Google Earth. Se um O Céu de Suely fazia do calor vencido pela geladeira um dos signos de transformação desta geografia durante a Era Lula – uma paleta de cor vívida e brilhante… CONTINUA