Névoa digital

Na história do cinema, poucos filmes se prestaram tanto à citação como Um Corpo que Cai. A proposta de A Névoa Verde de recriação do filme de Hitchcock de 1958 deveria ser, portanto, recebida com certa desconfiança, não fosse a estratégia singular adotada por Guy Maddin e seus colaboradores no projeto, os irmãos Johnson. Essa estratégia de trato com o filme baseou-se em uma série de escolhas determinadas. O primeiro passo foi o de reduzir Um Corpo que Cai a uma série sucessiva de motivos,… CONTINUA

Imagens para o amanhã

I. Do cotidiano: Grass A carreira de Hong Sang-soo reflete, piamente, um interesse pelos longos diálogos de plano único, uma intuição de que nos fugidios intercâmbios verbais entre duas ou mais pessoas, que se dispõem genuinamente à troca, pode-se mesmo encontrar o inestimável. O traço se repete em Grass, mas deixa de ser um dispositivo narrativo para se consumar como o retrato do mundo humano em si mesmo, como um sumário essencial das relações. Através de bate-papos, marcados por imponentes músicas clássicas, em cafés e restaurantes,… CONTINUA

Da pureza

Há coletâneas e versões pocket da ideia de autoria – cineastas consagrados fazendo pastiche de si mesmo – , e por outro lado, há cineastas levando aos limites épicos aqueles desejos já aflorados no todo de sua carreira, quase como que por revisionismo, reivindicando retomar o conjunto de estratégias que fundaram o seu cinema em primeiro lugar. Este olhar retroativo do que se quer épico-síntese pode ser um canto do cisne – Murnau filmando Fausto (1926) ou Aurora (1927), a própria concepção de Vai e… CONTINUA

A história do mundo ou daqueles que não tem memória

Mais para o final de A Valsa de Waldheim, de Ruth Beckermann, um dia antes do segundo turno da eleição austríaca de 1986, assistimos a imagem de um homem que reclama a negligência histórica das gerações passadas para com um acontecimento de inegável violência como o nazismo, ao mesmo tempo em que conclama à sua geração que não cometa os mesmos erros. Não cometer erros é lembrar, parece nos dizer. Essa lembrança precisa ser mantida viva, organizada, embalsamada, para que um povo crie a sua… CONTINUA

Latitudes e partidas: o historiador da história

É caso a se pensar e debruçar, este das tarefas impostas ao cinema “de cima”, digamos, pela crítica. Por seus outros agentes de fabricação também, decerto, mas sobretudo por ela. Melhor dito: pela crítica no decurso do tempo, posto que a sedimentação sobre o eco reverberado costuma ser mais sólida e persistente que aquela feita sobre a rocha que objeta, e não por sobrepujança das forças ditas conservadoras. Aquela (crítica) que disser de certos filmes que estes podem reescrever a história, por exemplo, ou mesmo… CONTINUA

Veemência pacífica

Camocim se interessa pelo momento eleitoral da cidade de mesmo nome, localizada no interior de Pernambuco, acompanhando de perto a cabo eleitoral Mayara em sua campanha por César Lucena. Em torno desse propósito, o filme se concentra nos 45 dias que antecedem a eleição até o resultado final, em que logo percebemos que os conflitos políticos daquela pequena cidade sintetizam questões mais gerais do Brasil, pois Camocim parece estar simultaneamente no meio do nada e no centro de tudo. Ao inserir-se nesses limites indefinidos, o… CONTINUA

Experiência-espetáculo ou A potência do Podrão

Em meio à aula, o professor diz: “(…) uma questão, talvez um risco, do espectador contemporâneo seja confundir experiência com espetáculo”. Imediatamente, vem à mente as grandes HQ’s cinematográficas da Marvel e os recentes filmes digitais-fantásticos da Disney – que nos últimos anos tem dedicado suas energias e recursos em comprar todo e qualquer empreendimento que faça sucesso (o que não é uma novidade) e em refazer os clássicos de contos de fadas totalmente em computação gráfica. No entanto, surge também uma dúvida em relação… CONTINUA

Diante da dor das outras

A delicadeza pode ser, mas nem sempre é um atributo do cinema realizado por mulheres, feito com mulheres. Baronesa (2017), de Juliana Antunes, não é um filme delicado (ainda que seja realizado com cuidadosa atenção à realidade retratada). Dores íntimas, violências e confrontos mobilizam este filme “entrincheirado” (como diz a realizadora), na zona de uma guerra cotidiana que atravessa as casas, as vidas e os corpos das mulheres periféricas que nele assumem protagonismo. Como sonhar, ou como continuar a sonhar, ali, onde o mundo parece… CONTINUA

A sombra dos abutres

Poucos filmes foram mais influentes nos últimos 15 anos quanto No Quarto de Vanda (2000), de Pedro Costa. Ao lado de La Libertad (2001), de Lisandro Alonso, são filmes que serviram como ponto de partida para boa parte do cinema híbrido com preferência pela auto-ficção que passou a dominar cada vez mais certo universo de festivais (inclusive aqui no Brasil). O que por vezes se perde nos imitadores de Costa, porém, é que se seu cinema busca nas figuras que encontrou no bairro de Fontainhas tipos fortes sobre os… CONTINUA

Anotações tardias: “A culpa deve ser do Sol”

Zoe Leonard tem um poema: I want a dyke for president. O cenário da democracia representativa se perdeu no ralo da sarjeta de um esgoto fluorescente. Não sai tartaruga ninja daí. Era hora de explodir os bueiros. Mas na falta de renascença, falemos sobre pragmatismo pós-moderno. Eu quero alguém que se traveste, com dentes ruins, que comeu comida ruim no hospital, usou drogas e já cometeu desobediência civil pra presidente. Uma utopia: Linn da Quebrada pra cadeira. Jup do Bairro vice. Do primeiro minuto de… CONTINUA