De Córdoba a Bariloche

Os anos 1990 estão com tudo: nas roupas, nas músicas, na política econômica. No Brasil, uma inflação galopante anuncia um possível retorno dos pacotes econômicos ao gosto do Fundo Monetário Internacional que foram mania nos anos 1980 e início dos 1990. Na nossa hermana Argentina, de 2015 a 2019, Mauricio Macri matou a saudade de quem sentia falta de Carlos Menem, e também a economia, com sua política de austeridade neoliberal. Não é coincidência que os dois filmes argentinos em exibição no 10º Olhar de… CONTINUA

Ouvir o material sônico das máscaras

“Este filme é uma versão reeditada do documentário Under the black mask, de Paul Haesaerts (1958). Nessa versão não se fala das estátuas congolesas, mas elas olham e nos respondem em Lingala. Fazem-no através do texto de Aimé Césaire, Discurso sobre o Colonialismo (1950). Este texto [de Césaire] ainda permanece como um espelho confrontacional da Europa.” Iniciamos Sob a máscara branca: O filme que Haesaerts poderia ter feito (2020) ao som de Sun Ra and The Arkestra e com a nota informativa acima, que nos… CONTINUA

Crônicas de um proletariado

A Máquina Infernal se inicia com a palavra “divisa”. Trata-se de uma simples cartela com indicação geográfica: “divisa entre São Bernardo do Campo e Diadema”. O filme, no entanto, ganha sua consistência ao explorar divisas mais instáveis e profundas: entre o orgânico e o maquínico, o material e o imaterial, o presente e o extemporâneo, o corpo do ator e o corpo da testemunha, o vivo e o morto. No interior de uma fábrica aparentemente em ruínas, trabalhadores seguem uma rotina um tanto perdida entre… CONTINUA

Eleger a distância perfeita

O dispositivo: a câmera de segurança instalada pelo pai para descobrir quem está quebrando as janelas do carro. A narrativa: com intertítulos concisos, como os do cinema mudo, e a decupagem por zoom, vão se construindo os personagens e as suas mil e uma histórias. O som: a câmera de segurança parece não ter áudio. O mundo está distanciado, mas o desenho de som leva seus ruídos até o pé da nossa orelha. Os passos, os pássaros, os carros. O som preenche os pixels da… CONTINUA

O velho e o novo

Há três gestos no cinema recente de Julio Bressane que este Capitu e o Capítulo retoma e desdobra: o mergulho na teatralidade dos espaços fechados, em que a luz recorta delicadamente o jogo entre o texto, o corpo e a voz; uma atração pela materialidade da imagem digital, que se espraia por um uso muito consciente daquilo que nela é considerado precário ou amador; e a retomada das imagens e dos sons dos filmes anteriores de Bressane, numa sorte de obra em progresso infinita que… CONTINUA

Eu quero ser a uva pra ver tudo lá de cima

“Estão às minhas costas, um velho com cabelos nas narinas E uma menina ainda adolescente e muito linda Não olho pra trás mas sei de tudo Cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo” Estrangeiro (1989), Caetano Veloso As Sete Idades da Mulher (1544), de Hans Baldung Grien “Aqui nessa imagem quem eu mais gostaria de ser?… uma uva! Porque se uma uva pudesse ver, ela veria tudo lá de cima.”. A fala é de uma menina de cerca de 12 anos de… CONTINUA

A intenção como limite da imaginação

No dia-a-dia monótono e repetitivo da quarentena à brasileira, Allan Ribeiro e Brendo Washington compartilham o tédio e uma casa. Enquanto o som da TV invade o quadro e sinaliza o contexto político brasileiro de 2020, Allan filma os detalhes de algumas partes do corpo de Brendo. Proximidade estabelecida, uma conversa entre os dois se desenrola, até que o corte nos leve para a figura de Brendo, que está posicionado frontalmente à câmera, declarando que eles estão fazendo um filme e compartilhando qual é sua… CONTINUA

Imagens à flor da pele

O festival internacional de Curtas de Vila do Conde possui uma tradição de apostar nos formatos híbridos do cinema expandido e do cinema experimental. Na edição deste ano, a pequena cidade portuguesa, emoldurada por ruínas de aquedutos romanos e com pouco mais de 28 mil habitantes, pôde ver filmes de grandes nomes do cinema contemporâneo, como Bill Morrison, Cristoph Girardet & Matthias Muller, Peter Tscherkassky, Tsai Ming-Liang, Jonas Mekas, Martin Arnold, Joseph Cornell, Bill Viola, Tony Hill, Vlatko Gillic, Ute Aurand, François Ozon, David Lynch… CONTINUA

“E mostrarei Prodígios no Céu”

Uma enorme nuvem de fumaça rubro-negra avança sobre o topo de uma mata; ao fundo, a melodia de um clarinete rivaliza com o som crepitante de uma queimada. Como veremos, em Céu de Agosto (2020), curta-metragem escrito e dirigido por Jasmin Tenucci, há uma perturbação que se manifesta sobretudo em termos atmosféricos — é pelo ar que navega a aporia de um país que caminha em direção às cinzas. Lúcia (Badu Morais) é uma jovem enfermeira que vive em um bairro periférico da cidade de… CONTINUA

A voz que arde sem se ver – Ecos de Cocteau em Almodóvar e João Rui Guerra da Mata

Jean Cocteau (1889—1963) é uma paixão que acompanha o cineasta Pedro Almodóvar há décadas. Foi somente neste ano pandêmico que o diretor espanhol tornou explícita sua relação “póstuma” de mais de 20 anos com o cineasta da vanguarda francesa. Seu mais recente filme, A Voz Humana (The Human Voice, Pedro Almodóvar, 2020), filmado durante a quarentena de COVID-19, é uma adaptação do drama homônimo escrito pelo diretor francês. O média-metragem de 30 minutos, estrelado por Tilda Swinton, estreará em breve nas salas de cinema. Pude… CONTINUA