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Carta ao Heitor (ou Desculpe a bagunça ou Ao mesmo tempo)

Heitor,

Há mais de seis meses você publicou no Urso de Lata o texto O que pode ser o cinema, e o cinema negro, brasileiro em 2018.

Fiquei muito mexido, “solicitado” mesmo, pelo texto. Fiquei com a mão querendo te responder.

(Outras águas passaram por aqui.)

Meio ano já foi, mas acredito que as perguntas ainda estão aí na rua.

Elenquei aqui abaixo umas notas numeradas.

Algumas respondem diretamente pontos que teu texto levanta, outras são coisas que a leitura do teu texto me disparou por aqui.

Desculpe a bagunça.

 

0

Talvez haja já um primeiro ponto aqui: brisa.

No sentido do que pode o cinema: ser brisa. Diante de tantas armadilhas algorítmicas binaristas, tantas “revoluções” que laureiam corporações, me parece que o brisar, no sentido mesmo do delírio, da viagem, pode ser um belo caminho de simultânea proposição e fuga. Como crítico cultural, sinto que aqui no Brasa temos muito o que aprender com o que acontece nas outras artes, em termos de gramática, imaginário, táticas e tudo mais. Rodando por aí, sinto que há um imenso caminho poético a trilhar em direção ao que poderíamos chamar de um delírio negro. Não tenho menor intenção de apontar caminhos únicos, mas entrevejo enormes possibilidades nessa direção.

 

1

Indo mais diretamente ao teu texto:

O foco em alguns festivais de cinema como marcadores de debates traz desafios. Primeiro: há inúmeros eventos do tipo hoje no Brasil. Segundo: muitíssimo diferentes entre si. Como estamos na margem oposta do universalismo, me parece fértil pensar as ações e eventos de forma situada. Pensar que tipos de intervenção são produtivas num festival pequeno, numa cidade fora dos grandes centros de atenção e orçamento, e como intervir em eventos como a Mostra de SP, Gramado, É Tudo Verdade ou Festival do Rio. Uma mesma ação num contexto distinto tem efeitos muitas vezes invertidos.

Chama atenção que o mainstream, os filmes de milhões, a televisão passem ao largo de um certo olhar de interrogação política ligado à questões de gênero e raça.

Os eventos do ano passado que você elenca no texto tem uma linha comum em termos de contexto.

 

2

Ainda os festivais: precisamos ter atenção ao colocá-los no centro de certas narrativas. Uma pulverização consistente de coberturas de eventos por olhares não-hegemônicos (e as hegemonias não são uniformes) me parece uma ação tão eficaz quanto a intervenção em centros tradicionais de visibilidade.

Chamo de “olhares hegemônicos” não só corpos, mas olhares mesmo, perspectivas atentas às disputas locais, que entendam o que é minoritário e potente em cada contexto, e trabalhe radicalmente contra as forças normatizantes. Trocar os corpos é só parte do trabalho. Trocar os olhos é uma trabalheira danada, que não finda nunca.

É “contexto”, história e situação. Estas palavras estão em disputa permanente e é extremamente animador que haja um sopro recente de energia que as solicite no campo do cinema. Não podemos esquecer que há inúmeras histórias de embates de projetos de cinema no nosso país, e creio firmemente que entendê-los nos ajuda a não paralisar em impasses do agora.

 

2x

Falando de artistas negros: o que vamos fazer, como críticos culturais, da obra de Ari Cândido Fernandes, Afrânio Vital, Agenor Alves, Cajado Filho, Waldir Onofre, Haroldo Costa, entre tantas outras vozes? Vivemos o perigo de uma cegueira contextual que pode mantê-los às margens da história quando temos plenas condições de voltar a eles, já que acredito que o contexto é de adensamento do debate. As contradições vividas por aqueles que nos abriram o caminho são material muito fértil pro nosso rolê hoje.

 

3

Um ponto muito essencial: as ações são simultâneas. Outro dia li num bom artigo: “precisamos de protestos e pinturas”. Poderia ser: filmes e barricadas, ou beats e rolezinhos. Isto é: o futuro não vai chegar. Seria falso dizer que é prioritário escrever este texto em relação a estar num motim ou baile. É ao mesmo tempo – ou: o tempo é muita coisa.

 

4

É crucial tanto reivindicar espaços quanto criar outros espaços. Ao mesmo tempo. Pleitear o que existe e inventar o que não existe e urge.

 

5

Se esse debate se tornar a-histórico e universalizante, isto é, sem levar em conta contextos, um impasse grave se produz. História e conjuntura são dimensões de ação e disputa. O debate sobre raça é uma conversa sobre fraturas históricas e sobre uma urgência dos contextos. E essa é uma ciência inexata.

 

6

Aproveitando que as palavras “pantera” e “negra” estão na “mídia que aparece” esse ano, me lembro que o partido que juntava estas palavras nos EUA tinha algo importante de ser lembrado: estratégia de infiltrar o poder instituído. Ao mesmo tempo em que era uma poderosa ação subjetiva, havia um ímpeto de mudança estrutural e identificação dos atores políticos e econômicos e suas brechas.

Havia ali uma ousadia de propor, de instituir um projeto de sociedade.

Se hoje temos, por exemplo, uma política inicial (que necessita ser ampliada) de ações afirmativas, é porque gerações anteriores tiveram a persistência de atuar neste tipo de estrutura, cuja lida é bastante árdua. É também lenta a luta.

 

7

Uma preocupação freqüente: a primeira pessoa do plural.

Muitos cuidados ao ouvir e dizer: “nós”, “a gente”.

Um perigo diário é o fato de tomar a experiência pessoal como exemplar e automaticamente coletiva em qualquer situação.

Os espaços guardam cada vez mais experiências distintas. Isso é notícia boa.

“Nós” é uma arma retórica muito eficiente.

Não advogo aqui num “certo cada um fala por si”. Mas ressalto a importância de desconfiar permanentemente dos nós que nos convidam ao consenso.

 

8

“Aliança” é uma palavra crucial. Criar coletividades ativas. Espaços de troca onde a diferença possa se produzir internamente. Onde se possa falar com tranqüilidade sobre o trabalho do outro, questionar opções e poéticas com paixão e vigor. Não há outro caminho para adensar as visões: elos e colaboração, alma no olho e escuta. Necessário criar espaços onde um exercício da oposição possa se produzir de maneira solta e fértil. Vejo o povo do teatro se adiantando na criação desses espaços: sinto ser certeiro.

 

8x

Falando de estratégia de intervenção, saber ser coletivo, saber convergir, é essencial. O desafio é justamente que a movimentação mantenha sua potência ruidosa, múltipla, mas que afinal tenha como alvo a dissolução das grandes ficções dos poderes de submissão e conformidade subjetiva, financeira e imaginativa. Aí tá o nó. Como ser junto e heterogêneo?

Urgente identificar nos contextos onde é que se pode produzir aliança e onde só há oposição como possibilidade. Entre o Emmy e um festival universitário brasileiro me parece haver cem galáxias de distâncias. Em qual dos dois pode haver perspectiva de produzirmos diferença, de propor algo?

Octavia Butler mandou: “mais fácil opor do que propor”. Duas ações fundamentais, mas acho difícil discordar dela.

 

9

Desdobrar amplamente a encruzilhada entre representatividade e representação é crucial. É necessário analisar o debate histórico do cinema e das artes sobre o tema da representação e entender como ele se liga e se desliga a uma distribuição dos lugares de poder, de fluxos financeiros, entre corpos não-brancos, não-heteros, não-cis.

Essa discussão vital não pode vir a ser uma vitória da mesmice, da reificação e do espelhamento – aí já era.

 

10

Os perfis de consumo estão prontinhos pros pretxs, pra todas “minorias” (são maiorias): temos de todos os tamanhos, a um clique de distância. Revoluções muitas vezes sem juros. Aproveitemos a Black Friday.

 

11

A premissa ética do meu trabalho é que a arte está aí pra bagunçar esse coreto. Representatividade é horizonte e meta política de todas. Uma ideia apressada de representação pode fazer supor que o discurso, a mediação, as relações entre os elementos expressivos, são dispensáveis do jogo político: achar que o mundo daqui de fora deve ser igual ao mundo de lá, das telas. Discordo desse referencial.

Pois o capitalismo atual é acima de tudo um regime formalista. Ele atua na maneira de dizer, de organizar o sentido, na entonação e retórica. Vide a facilidade com que publicidade se alimenta rapidamente de qualquer contra-narrativa, de quase qualquer palavra contra-hegemônica. A hashtag é a mesma, então, o que muda quando o discurso vira publicidade?

 

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Estamos preparadas apara lutar contra o capitalismo blackface que se desenha before our eyes? Esta tática de desfilar pretas milionárias no nosso feed para restabelecer a fé nesse sistema genocida me parece ser altamente convincente. Não raro vejo esse desvio onde num passe de mágica passa-se a lutar pela concentração de renda, apoiando grandes marcas de conglomerados, travestidas de ativismo. A normose é uma bactéria voraz e atenta.

 

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Jovens cineastas de pele negra: muita gente vai querer tirar selfie contigo e falar que teu filme é genial. Corra!

 

14

Se esse serviço é de graça, o produto é você.

 

15

Como jogar o jogo entre autoria e negritude?

O autorismo sugere afinal um monoteísmo. É como se as obras exalassem marcas involuntárias do seu divino criador em todos seus detalhes. Um deus que vai deixando fragmentos de sua essência sagrada onde toca.

Como então pensar um modelo pagão, panteísta, pros signos de autoria?

Dentro da discussão sobre cinema e negritude, como pensar o involuntário, isto que insiste em tomar a imagem? Mais do que isso: como potencializar e trabalhar com o que não é intenção nos nossos trabalhos mas que se torna poética?

Intuo haver uma possibilidade de pensar os modelos religiosos de matriz africana para pensar a experiência das imagens e signos.

Usando o modelo técnico da mediunidade: como ser passagem de potências do que não somos nós mesmos?

Fazer um trabalho é oferecer o que não é puramente nosso, mas o que solicitamos, suscitamos e agitamos com nossas mãos e suor. Uma imagem é tudo menos uma propriedade privada. É uma oportunidade para o que nos atravessa se manifestar, e ser, assim, oferta pros sentidos do que vem.

 

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A crítica se ocupa dessa “parte maldita” do que fazemos. Essa porção do que não queríamos mas que se instalou na matéria, no corpo das coisas.

Isto é material pulsante do pensamento. A roda gira assim. Esse texto – pelo menos uma parte dele – se escreve. Ele deseja, se mexe, pede, repudia, enquanto manejo o que posso. Como formular uma crítica que respeite e deseje, sem cinismo, a alma das mãos?

Na verdade, esse espaço “de ninguém” é constituinte. Me aflige quando vejo agir o desejo securitário de suprimir esta zona.

 

17

Vivemos a oportunidade histórica de ter mais condições que as gerações anteriores de poder experimentar interlocução verdadeira, poder sofrer objeções vivazes sem sucumbir narcisicamente, sem achar que não vamos suportar. Muitos dos nossos padecem de murmurar pros muros.

 

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Como não se tornar um anúncio não remunerado da Netflix ou da Disney?

 

18x

Partiu reconversar o Dogma Feijoada e o Manifesto do Recife?

 

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E falando de colonização: por que o imperialismo como tema não tem gerado tanto like?

O pensamento das negritudes no Brasil e nas américas sempre foi lugar dessa questão e ela precisa ser reativada com força.

Canibalizar o legado negro do EUA e saber recusá-lo. Os jogos de poder e submissão entram em qualquer festa.

O legado caribenho, africano, sulamericano tá aí dando sopa desde muito.

 

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Importante pensar o que é preciso demonstrar para infiltrar o poder. Que performances são necessárias, aceitas e bem-vindas.

(Voltando ao tema da representação.)

Se o necessário é performar transparência, ser “autêntico”, “verdadeiro”, é bom redobrar atenção. Uma jaula antiga pro discurso negro é essa onde temos que prometer a verdade, o documental, o relato, a espontaneidade, a “força da natureza”. Dependendo da cena, falar como ninguém pode ter muita potência.

 

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A invisibilidade simbólica, ao mesmo tempo que é opressão, pode ser tornada ponta de lança, se for algo que possamos manejar.

 

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A “dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro” do subdesenvolvimento do Paulo Emílio Salles Gomes pode ser ativada como um belo mote. Ser sub-representado pode ser oportunidade de partir para modos de expressão onde não coincidamos com imagens pré-prontas, pra inventar línguas nossas.

(Sei que o assunto é altamente espinhoso.)

Mas sinto que os acordos de transparência (exemplo: “Tal pessoa produz no trabalho o que ela é de verdade”) beneficiam os donos da norma, controlam os modos de enunciar.

(A brisa, por exemplo, eventualmente viola esse jogo. Ao produzir o imprevisível).

Esse balanço entre o avanço institucional, lento e coletivo, e a captura pelas expectativas e molduras do poder é chave.

Há potência de expressão do que não aparece, do que não se normatizou – ainda.

Como atuar por estratégias ativas de opacidade? Como o terrorismo, por exemplo. Ações de ninguém viram mala direta?

(Sou mala indireta?)

Onde dá pra não virar dado para publicidade?

 

22

Quem trabalha com pureza é refinaria.

 

23

Jovens cineastas de pele negra, outra coisa: cole em quem não te bajula. Crítica-bajulação produz imenso networking e sorrisos, sabemos. A mediocridade se alimenta na direção onde os ventos sopram, e a mira deste parasitismo está agora em vocês. Sugestão de lema: “me solta, porra”.

 

24

Furar os esquemas passa necessariamente por burlar as gramáticas da norma e da dominação. Toda situação de minoridade produz linguagem própria. Esse material é inflamável e muito me interessa.

 

25

Hoje mais cedo, tava folheando a dissertação do Hélio Menezes. Esse esforço de redesenhar as definições de arte negra e afins é lindo e inspirador. Aqui no cinema, sinto ser uma boa hora.

 

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Por ora, é isso. Estranhamente, é uma beleza viver esse momento. O cheiro das coisas se movimentando é o alimento principal. O tempo é mesmo muita coisa.

 

Um beijo,

Juliano


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