A Garota do 14 de Julho (La Fille du 14 Juillet), de Antonin Peretjatko (França, 2013)

outubro 24, 2013 em Coberturas dos festivais, Em Campo, Raul Arthuso

14dejulho

No país da nostalgia
por Raul Arthuso

A citação é um recurso recorrente – e por outro lado banalizado – de uma nostalgia do cinema desde os anos 1980. Mas é nos anos 1990 que a citação vira uma muleta onde homenagem e preguiça se confundem muitas vezes. Se em Brian De Palma ou Leos Carax a citação a Hitchcock (no primeiro) e Godard (no segundo) mostravam um fascínio prepotente, ao mesmo tempo se enxerga uma melancolia que distorce a citação, tornando-a expressão de um sentimento perante outra obra. Hoje, é com certa desconfiança que se vê uma cena como a do início de A Garota do 14 de Julho, em que uma jovem vende um jornal na Champs Elysée, distorcendo o movimento da rua em relação à famosa cena de Jean Seberg, aqui transformado em um estético enfileiramento de tanques do exército em meio ao desfile cívico. A desconfiança é de certa forma natural: os limites entre a nostalgia cinéfila e a esperteza cínica do uso da citação estão mais confusos que nunca.

Mas, pouco a pouco, A Garota do 14 de Julho vai se mostrando um filme banhado em nostalgia. A Nouvelle Vague é como uma consciência à qual o filme se reporta com admirável alegria. As cores, o despojamento da câmera, a ação nas ruas, o tom de improviso impregnado nos planos, o jeito de fazer o filme com certo desprendimento de um savoir-faire industrial; enfim, a identidade do filme nos remete directamente ao momento seminal do cinema francês moderno, com planos e recursos sonoros muito à vontade em tentar emular o período. Por outro lado, sua nostalgia nunca é lamentosa em relação a esse cinema: a impossibilidade de pertencer a ele não pesa sobre o filme. Nesse sentido, sua mise en scène, as composições cenográficas, a estética dos corpos no filme segue uma tradição cômica do cinema francês, de tom bastante ácido, que passa por Tati e encontra o filho rebelde nos anos 1970, em Luc Moullet. O sentimento de trop tard, intenso no cinema mundial desde os anos 1980, dá lugar ao extrato mais picaresco do cinema francês.

A Garota do 14 de Julho é uma metralhadora giratória de piadas, de personagens caricatos que revisitam alguns clichês evidentes do cinema francês, situações nonsense inspiradas na cultura parisiense, no “viver” atualmente na França – e sua grande fraqueza reside num possível torpor que o incessante ritmo das piadas pode criar. Por outro lado, há um efeito interessante de defasagem. Se o cinema francês foi, ao lado do americano, o mais capaz de criar um imaginário em relação ao país, a França de A Garota do 14 de Julho é um país diferente daquele “sonhado” nos filmes.

A maioria das situações abordadas passa por momentos memoráveis de diversos filmes franceses. Essas citações evidentes, porém, muitas vezes não se concretizam, na medida em que são interrompidas por uma nova ordem vigente. A começar pela já citada cena da venda do jornal: se Jean Seberg em Acossado (1960) vendia o New York Herald Tribune livremente na principal avenida de Paris, num momento onírico do filme, é com certa distância e assombro que a câmera mostra a protagonista no 14 de Julho vendendo seu jornal artesanal La Comune tomada por tanques e soldados artificialmente colocados ali pelo poder político.

O momento mais evidente dessa lógica é a viagem à praia. As férias, monumento francês consagrado pelo filme de Jacques Tati, são canceladas pelo governo devido à crise econômica. A revelia disso, as personagens chegam à praia, sem nada do charme cômico da praia confusa de Hulot: ela é vazia, enlameada, o elemento humano não é mais que figuras esparsas, cuja relação com o espaço cria um duplo fantasmático se comparado com a vida que a mesma locação tem em Tati. A França citada por A Garota do 14 de Julho, mergulhada em problemas de toda ordem – as pessoas se matam nas ruas, os pontos turísticos viraram outdoors para grandes empresas -, não se deixa mais revisitar: é outro país, outra cultura, novas regras. O contexto do país invade o filme para problematizar sua nostalgia. Essa é a grande intuição de A Garota do 14 de Julho: atestar que a melancolia quanto ao cinema francês se relaciona com um país que não existe mais.

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