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EDITORIAL

A descobrir
por Fábio Andrade e Filipe Furtado

Voltamos de outro longo intervalo (estamos cientes, insatisfeitos e trabalhando em soluções para reverter esse cenário) com uma nova edição da Cinética, dedicada ao cinema de Ozualdo Candeias. Os motivos para a escolha de Candeias são muitos, e poderíamos começar com uma simples enumeração de seus filmes. Mas nossa percepção é a de que, a despeito da canonização progressiva de A Margem (1967) e de gestos pontuais – duas retrospectivas, no CCBB e na Caixa Cultural, em 2002 e 2008, com valiosos catálogos; dossiês em revistas como Contracampo (2001) e Zingu (2007), e blogs, como a cobertura que Marcelo Ikeda fez da segunda mostra em questão; o livro Ozualdo Candeias: Pedras e Sonhos no Cineboca, de Moura Reis para a série Aplauso; e filmes-homenagens ao cineasta nos últimos anos –, Ozualdo Candeias permanece um cineasta de enorme relevância a ainda ser descoberto na história do cinema brasileiro.

A palavra “descoberta” nos interessa, aqui, sobretudo por seu sentido literal: com o impulso dos esforços já mencionados, segue essencial tirar as capas que, por tanto tempo, acobertaram o gênio específico de Candeias em vagas específicas e de tamanho determinado na escrita dominante da história do cinema brasileiro. Rótulos como “marginal” e “primitivo”, senão de todo impróprios, dão conta apenas de parte dos impulsos artísticos que se manifestam de maneira cristalina em filmes geniais como A Margem (1967), A Herança (1971) e Aopção ou As Rosas da Estradas (1981). Em mesma medida, são termos que aprisionam os filmes em uma nota de rodapé, domesticando uma voracidade artística muito mais ampla e plural do que se quer fazer crer.

Igualmente problemático, porém, seria uma leitura atualizada de Candeias, buscando em seus filmes sinais enviesados de uma sofisticação de “alta cultura”, envernizando a evidência violenta de sua brutalidade. No conjunto de textos aqui apresentado, o desafio é dar conta de um cineasta que subverte noções correntes ao cinema e à crítica, a começar por sua relação com um elemento cinematográfico tão básico como o tempo. Pois se Candeias não é um cineasta estritamente linear (daí a leitura evolucionista de um cineasta “primitivo”, ou naif, ser tão equivocada), seus filmes tampouco propõem uma apreensão circular do tempo – esta, mais comum no cinema contemporâneo. Diferente, os filmes de Candeias parecem empilhar tempos e registros distintos, como em uma colagem (pensemos na impressionante montagem de Zézero, por exemplo), promovendo encontros bidimensionais entre o pré e o pós em um presente inalienável e intransponível. É uma estratégia ao mesmo tempo simples e extremamente sofisticada, que dá conta de uma cinematografia e de uma arte que saltam da origem à modernidade, sem nunca estabelecer propriamente um período clássico, mas também de um país que existe ainda como convivência da aceleração progressista com um enraizamento profundamente arcaico.

Candeias, por sua vez, tinha extrema habilidade em propor essa dialética sem olhar de maneira condescendente, fatalista ou deslumbrada para nenhuma dessas múltiplas camadas. Seus filmes não são nem uma defesa da pureza da vida campestre – como, em alguma medida, são tanto os filmes de Humberto Mauro quanto os de Mazzaropi – nem uma aposta entusiasmada do projeto brasileiro moderno – como eram as colagens de Adalberto Kemeny e Rudolf Lex Lustig em São Paulo, Sinfonia da Metrópole (1929) –, tampouco sua triste crucificação. O que lhe interessa é sobretudo o ruído resultado (muitas vezes trágico) do choque entre esses diferentes vetores – ou melhor, a tradução de quem experiencia esse choque na vivência cotidiana. Confrontada na complexidade de sua selvageria, a obra de Ozualdo Candeias se mostra chave importante para se pensar não só o cinema brasileiro contemporâneo, mas as representações sufocadas de um país ainda e sempre às voltas consigo mesmo. Ainda hoje, o cinema de Candeias se faz absolutamente urgente.

Esse mesmo entusiasmo pode ser encontrado em cineasta que ocupa também páginas importantes nesta nova edição: Adirley Queirós. Trazemos, na EM CAMPO, uma longa e prazerosa conversa com Adirley, além de três críticas para seu segundo longa-metragem EM CARTAZ, Branco Sai, Preto Fica, escritas em momentos diferentes da carreira do filme – primeira sessão pública, no festival de Tiradentes; sessão no Festival de Brasília, de onde o filme sairia premiado como melhor filme; e lançamento em circuito comercial, após uma bem sucedida carreira por festivais internacionais. Que as lacunas entre os três textos se façam testemunhos de um filme vivo.

Ainda na EM CAMPO, trazemos também uma conversa com Paul Vecchiali – cineasta fundamental que finalmente tem um primeiro longa lançado no Brasil –, reunimos para leitura distanciada a cobertura especial do Festival de Cannes – publicada à época em nossa página no Facebook – com alguns novos acréscimos, trazemos uma reflexão de Raul Arthuso sobre a “tiradentização do cinema brasileiro” alardeada por parte da imprensa dedicada a coberturas de festivais, e arrematamos com um artigo de Marcelo Miranda sobre a obra de Jerry Lewis, a partir da retrospectiva O Rei da Comédia.

Com algumas exceções – como Ceylan e Wim Wenders – esta edição do EM CARTAZ se divide fundamentalmente entre textos sobre lançamentos brasileiros e norte-americanos recentes, trazendo um casual panorama de ambas as cinematografias na leitura conjunta dos textos. De Hollywood, novos da Pixar, David Fincher, Paul Thomas Anderson, Tommy Lee Jones e Michael Mann (este com lançamento em cinemas restrito a Salvador, indo direto para o vídeo no restante do país) ganham textos dedicados, assim como Selma e Jurassic World – este último, centro de debate entre dois textos. Do Brasil, além de Branco Sai, Preto Fica, o derradeiro filme de Eduardo Coutinho (finalizado por Jordana Berg e João Moreira Salles), Casa Grande e Quase Samba ganham novos textos, enquanto escritos à ocasião de festivais para Batguano, Permanência, Obra, Sangue Azul e Campo de Jogo voltam para a roda de leituras.

Fechando a edição, a EM VISTA traz textos sobre Star Spangled to Death, obra-prima de Ken Jacobs; The Smell of Us o mais recente filme de Larry Clark, ainda sem lançamento no Brasil; uma radiografia do cinema de Larry Cohen; e um texto focado nos pouco vistos e pouco debatidos filmes iniciais de Ingmar Bergman.

Boa leitura e até já.