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EDITORIAL

Prestando irreverência
por Fábio Andrade e Filipe Furtado

Desde que fizemos a reforma editorial aqui na Cinética, pouco mais de um ano atrás, nos dedicamos com certa frequência a pautas sobre autores que nos interessam e que suscitavam análises mais detidas de suas obras. É o caso, nesta edição, do alemão Werner Schroeter. A escolha, porém, tem uma diferença bem clara em relação às pautas anteriores: diferente de João Pedro Rodrigues, Kyioshi Kurosawa e James Benning, Werner Schroeter não está mais na ativa, tendo falecido em 2010.

A princípio, debruçar-se criticamente sobre uma obra já terminada é um processo que tende a outras frequências de mobilidade, muitas vezes implicando em uma relação mais direta com uma fortuna crítica já devidamente assentada, que inevitavelmente condiciona o contato com os filmes e a qual novos textos invariavelmente sentem a necessidade de responder. Em alguma medida, era o caso, por exemplo, de nossa micropauta sobre o cinema de Maurice Pialat, na última EM CAMPO. Não é, porém, o que acontece com Werner Schroeter. Visto até hoje como figura marginal ao novo cinema alemão das décadas de 1960-1970 (embora tenha sido o único que Rainer Werner Fassbinder dizia ter um talento à altura do seu), Schroeter é autor de uma obra extremamente múltipla (que se esparrama pelo teatro e a ópera), arredia a imobilizações intelectuais, com filmes que parecem sempre dispostos a se reconfigurar internamente no momento em que certo padrão de realização se faz perceptível. Justamente por isso, o cinema de Werner Schroeter segue um tanto sem lugar, ainda sendo descoberto pouco a pouco pelas cinematecas e museus (suas retrospectivas só começaram a pulular de fato depois de sua morte, incluindo uma mostra parcial exibida no Rio, no Instituto Moreira Salles, e em São Paulo, no Museu da Imagem e do Som, no ano passado), e sendo contemplado com poucas, mas apaixonadas (como a célebre defesa de A Morte de Maria Malibran feita por Michel Foucault à época do lançamento do filme, que rendeu inclusive uma bela conversa com o diretor) investidas críticas (ainda mais raras em português).

É justamente essa multiplicidade, porém, que faz de Schroeter um cineasta decisivo para se pensar o cinema hoje. Artistas dispostos a enfrentar os limites pré-estabelecidos pelo meio em que atuam, ou mesmo por um desenho que condiciona a obra à carreira, tendem a se manter atuais para muito além de seu tempo – ou, nas palavras exatas de Mário Quintana, “só nunca sai de moda quem está nu”. Mas, mais do que isso, a obra de Werner Schroeter parece antever uma série de questões hoje em voga na discussão sobre cinema, arte e cultura (a ideia de “cinema expandido”; uma suposta atitude criativa pós-moderna, que encontra originalidade na combinação de influências aparentemente incombináveis; a submissão irreverente de toda uma história do cinema e das artes). Da precariedade assumida dos primeiros curtas ao anacronismo propositivo dos derradeiros longas, a obra de Werner Schroeter é um extenso manancial de surpresas que desejamos prospectar e compartilhar com o leitor na EM PAUTA desta edição.

Na EM CAMPO, entrevistamos um cineasta que parece tão interessado quanto Schroeter em expandir os limites do cinema: o filipino Lav Diaz. Para além da isca de press-releases da duração alongada de seus filmes, pouco se fala de questões verdadeiramente estruturais à sua obra como, por exemplo, a inclinação romanesca que, inclusive, determina essa duração. Pudemos conversar sobre estes e outros assuntos em uma longa e detida (como não poderia deixar de ser) entrevista com o diretor, feita à ocasião de sua passagem pelo Brasil, na última Mostra de SP. A EM CAMPO, porém, está longe de parar por aí. Acompanham a entrevista de Lav Diaz: dois textos sobre filmes vistos no último É Tudo Verdade (mais exatamente, os novos trabalhos de Jorge Furtado e Eduardo Coutinho); um mergulho pela produção de curta metragem da Paraíba, vista na última edição do CinePort; uma visita ao Cinema do Dragão, em Fortaleza, para uma mostra de cinema brasileiro contemporâneo; e ainda uma troca de cartas abertas entre o cineasta Murilo Salles e o crítico Victor Guimarães, a respeito de sua crítica sobre o filme Passarinho Lá de Nova Iorque, publicada aqui na Cinética.

Na EM VISTA, chamamos à conversa quatro filmes recentes que, ainda inéditos no nosso circuito, fisgaram o interesse de nossos redatores: A Pele de Vênus, novo longa de Roman Polanski, com previsão de lançamento nos cinemas brasileiros para meados de Julho; História da Minha Morte, mais recente filme do diretor catalão Albert Serra; Museum Hours, incursão mais incisiva na ficção do documentarista Jem Cohen; e Torres e Cometas, média metragem de Gonçalo Tocha, realizado sob encomenda, sobre a cidade portuguesa de Guimarães.

Falando em nosso circuito, dois longas de estreia brasileiros motivam atenção particular no EM CARTAZ: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, e Os Dias com Ele, de Maria Clara Escobar. Ambos os filmes aparecem com dois textos, contrastando novos olhares com as primeiras acolhidas na revista em suas exibições em festivais. Há ainda novos textos para alguns outros filmes do cardápio recente que moveram nos redatores a se pronunciarem, como RoboCop – incursão hollywoodiana de José Padilha, refilmando o clássico de Paul Verhoeven –; o díptico Ninfomaníaca, de Lars Von Trier; Tudo por um Furo – génerico título em português dado a Anchorman 2, sequência da comédia de Adam McKay com Will Ferrell, separadas por dez anos de diferença –; e Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-velho, filme de Danis Tanovic que que chega às salas comerciais brasileiras após sucesso em festivais internacionais, como Berlim. Num segundo momento, pretendemos nos deter com novos olhares sobre filmes importantes que chegaram recentemente por aqui e que já motivaram textos em suas passagens por festivais, como Cães Errantes, de Tsai Ming-liang, e O Grande Mestre, de Wong Kar-wai. Boa leitura.