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EDITORIAL

A morte em trabalho
por Fábio Andrade e Filipe Furtado

“Olhe-se no espelho por toda a vida e verá
a Morte trabalhando como abelhas numa colmeia de vidro”.

Jean Cocteau

No artigo Early Film History and Multi-Media: An Archeology of Possible Futures (presente na compilação Old Media, New Media: A History and Theory Reader, organizada por Wendy Chun e Thomas Keenan), Thomas Elsaesser aponta que a chegada do digital oferece aos teóricos de cinema uma espécie de “grau zero que instiga a reflexão sobre as compreensões particulares da história e da teoria cinematográficas”.  Com o cuidado de não cair na areia movediça ética de o quanto a teoria influencia e condiciona a prática, esse momento de transição material serve também como ponto de partida ou de chegada para diversos filmes realizados nos últimos anos – alguns deles foco de nossa atenção na pauta Dispositivo, substantivo concreto, de Maio de 2013. Como bem colocado por D.N. Rodowick em The Virtual Life of Film, a despeito de todo um infindo debate teórico sobre o que seria o cinema, não sem ironia é “enquanto a película desaparece no reino eletrônico e virtual da manipulação numérica que tomamos a súbita consciência de que o cinema foi algo”. É na iminência de seu desaparecimento, portanto, que a ontologia se coloca de maneira mais cristalina: só desaparece aquilo que, um dia, foi.

Não é de surpreender que, em época em que o digital já passa longe de terreno ermo a ser desbravado por uns poucos pioneiros, alguns filmes e cineastas insistam na possibilidade de desvendar ou reafirmar o específico da película cinematográfica. Some-se à curiosidade ontológica o sabor adicionado pelo fim iminente que confere à película os três valores que formam a santíssima trindade da arte contemporânea – a especificidade de mídia; a reflexividade; e a obsolescência – e, de súbito, a película deixa de ser discussão exclusiva do cinema, ganhando também os museus e toda a rede de pensamento e de valores que os cerca.

Os motivos da permanência da película como suporte de criação são muitos, e ganham contornos diferentes no cinema e no museu, e de um artista a outro. Ao mesmo tempo em que cineastas antes apegados à especificidade do filme assumem o vídeo como veículo frequente de produção (caso de um James Benning, por exemplo, que migra definitivamente do 16mm para o digital com Rhur, de 2009), a permanência da película também é entremeada por valores mais diversos, sejam eles especulativos (no mundo das artes visuais), cognitivos, saudosistas ou pragmáticos (em especial, no que tange a conservação). Se, por um lado, a escolha material (às vezes, uma imposição de projeto, como no caso de Boyhood, de Richard Linklater) é sempre determinante, nem todo filme se dedica a pensar seu próprio suporte – adicionando, aqui, uma nova acepção ao binômio “opacidade x transparência” de Ismail Xavier.

Há, porém, filmes e cineastas para quem a matéria não é apenas um suporte, uma transparência que conduz à idéia (ou à cena), mas sim o próprio barro do qual ela é feita. Neste período de redefinição tão profunda que é capaz de abarcar presente, passado e futuro, é justamente nos gestos de resistência – justos ou não; desinteressados ou não – que a especificidade material e ontológica se coloca de maneira determinante, e que a necessidade de reflexão se reafirma. Reunimos aqui, sob a égide de Cocteau, alguns filmes recentes que encontram na especificidade material da película (ou mesmo da transição dela para o vídeo, como em Godard) possibilidades renovadas de expressão, e aprofundam uma arqueologia ontológica em momento em que o cinema como inventado se faz, mais uma vez, passado.

Essa percepção do cinema como gesto de resistência à passagem do tempo e, ao mesmo tempo, sua celebração, é oportuna também metaforicamente para a chegada de uma nova, e muito adiada, edição da revista – que, como é perceptível, havia sido colocado em suspensão na segunda metade do ano passado. Os motivos foram vários, e nenhum deles digno de maior atenção a não ser como parte de um todo maior que terminou colocando a Cinética em indesejado recesso, mas aproveitamos a chance como possibilidade de distância reflexiva na EM CARTAZ e na EM CAMPO, combinando títulos recentes – como Sniper Americano e Dois Dias, Uma Noite – com outros já há alguns meses removidos do circuito – como Uma Relação Delicada – assim como retomamos algumas das mostras e festivais do ano passado com uma perspectiva mais isolada de alguns filmes, e menos reativa ao contexto original em que eles foram vistos.

Na mesma EM CAMPO, duas entrevistas: a conversa com Gustavo Jahn e Melissa Dulius, cineastas brasileiros radicados em Berlim, amplia algumas das questões levantadas pelo EM PAUTA, enquanto um encontro com o crítico Tag Gallagher no último CineBH traz à superfície especificidades materiais e ontológicas da própria crítica cinematográfica. E, como de praxe, mantemos na EM VISTA as pequenas revelações que o cinema presentifica de um passado mais ou menos distante, e que aponta, sempre, para os dias futuros da própria revista.

Boa leitura.