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EDITORIAL

Passado e presente
por Fábio Andrade e Filipe Furtado

Nem sempre é possível compartilhar com a redação da CINÉTICA a sensação razoavelmente unânime de se estar diante de um grandessíssimo filme. Tal feito ocorreu, em momentos diferentes mas que não cessaram, quando tivemos contato com Cavalo Dinheiro, de Pedro Costa – a começar pela primeira crítica que publicamos, à época de sua exibição no Festival do Rio 2014. Ao mesmo tempo súmula autoral que arranha os pés contra o concreto e abertura completa para o zênite do futuro desconhecido, o mais recente longa-metragem de Pedro Costa se impôs como um dos grandes acontecimentos artísticos dos últimos anos.

Da raridade da sensação ao ineditismo do gesto: embora a Cinética tenha há algum tempo estabelecido visões múltiplas sobre determinadas obras, temos, aqui, a primeira pauta dedicada exclusivamente a um filme. Mesmo lembrando que, no passado, já tínhamos dedicado pauta à obra do cineasta e realizado uma entrevista, a amplitude deste novo filme pede uma nova relação. Se, com raras exceções, evitamos o terreno instituído pelas listas de melhores do ano e pelos quadros de cotações, Cavalo Dinheiro é obra de impacto raro que, certamente, continuará se desdobrando nos anos por vir. Nos nove textos que partem do filme, sua grandeza é reafirmada pela certeza de que, tivéssemos o dobro, ainda assim não iríamos além da ponta do iceberg. Mais do que isso, Cavalo Dinheiro atua em diversas frentes: excelência de realização artística; eloquente proposta de revisão política; declaração clara de certa posição e relação com a história do cinema; manifestação de um ethos de produção… em suma, um filme que inicia conversas que nos colocamos a serviço de continuar, e que torçamos para que eventualmente chegue ao circuito comercial brasileiro.

O entusiasmo, porém, não é animal solitário, e se esparrama aqui por nossas outras seções. No EM CARTAZ, superamos a lamentável ausência de Cavalo Dinheiro aprofundando o mesmo desejo de pluralidade com três textos sobre A Visita, de M. Night Shyamalan – autor fundamental na história da revista, aqui contemplado também com dois olhares externos, de colaborações especiais – e um debate a partir de As 1001 Noites, de Miguel Gomes – diretor com quem conversamos para esta edição da EM CAMPO. Além disso, uma ampla e variada cartela de lançamentos suscita textos: de autores mais tradicionais, como Todd Haynes (Carol), Abel Ferrara (Pasolini), Eugene Green (La Sapienza), Lav Diaz (Norte), a lançamentos brasileiros (Chatô; Olmo e a Gaivota; O Fim de uma Era; Beira-Mar; Operações Especiais; o documentário de Walter Salles sobre Jia Zhang-ke), passando pelo fenômeno cultural de Star Wars: Episódio VII – o Despertar da Força, que esperamos recuperar como obra cinematográfica de toda a fumaça de auto-celebração memorialística e publicidade.

Apesar de a irregularidade de nossas publicações (que almejamos remediar a partir de agora, com mudanças estruturais na organização da revista) ter terminado transformando a EM CAMPO em uma espécie de apanhado de questões e relações do segundo semestre de 2015, o começo de mais uma cobertura diária da Mostra de Tiradentes convida a uma dialética entre tempos e ciclos que parecem se configurar e dissolver cada vez mais rápido na produção contemporânea, não só a brasileira. Em espelhamento ao presente imediato, outras propostas de futuro e de relações com o passado são colocadas em contexto, com coberturas por exemplo para a Semana dos Realizadores e o Cine BH – mostra onde tivemos também a oportunidade de fazer uma rápida entrevista com a cineasta argentina, sumida há alguns anos mas ainda nome fundamental no cinema latino-americano, Lucrecia Martel.

E como a relação entre o passado e o presente é fluida, porque viva, a EM VISTA equilibra o Brasil de hoje, amanhã e sempre visto em Nova Dubai, de Gustavo Vinagre, com textos sobre obras de três autores recentemente falecidos: Visita ou Memórias e Confissões, filme póstumo de Manoel de Oliveira; Porto das Caixas, de Paulo César Saraceni; e um exame mais amplo da obra de Wes Craven. Aqui, como nas listas de melhores do ano, também nos permitirmos existir à margem dos obituários oficiais esperados da grande imprensa, por acreditarmos que os filmes seguem vivos, e a relação com eles permanecerá direta e permanente.

Boa leitura.