Verão do Soul (ou… Trilhas para o Woodstock Negro)

Para começo de conversa, nos orientamos na escrita desse texto pelo mesmo método de QuestLove: fazer anotações (ou traçar trilhas) motivados pelas sonoridades que realmente nos arrepiaram. Não por acaso, nos deixamos guiar pelos sons, sempre nessa busca incessante de traduzir para o texto a experiência de arrebatamento que tivemos com as músicas e a banda sonora. Portanto, para uma experiência mais completa e cheia de suingue, sugerimos que leiam cada trilha acompanhada da trilha musical correspondente. 1a TRILHA Em 2 de julho de 1960,… CONTINUA

Adros do Tempo

1. “(…) Foram recorrer aos poderes de Iroko. Juntaram-se em círculo ao redor da árvore sagrada, tendo o cuidado de manter as costas voltadas para o tronco. Não ousavam olhar a grande planta, pois, os que olhavam Iroko de frente enlouqueciam e morriam. ” – Itan sobre Iroko. Orixá muito antigo, que é a própria representação da dimensão Tempo. acervo pessoal 10,2. Sabe quando você se depara com algo prisco (que pertence a tempos idos; antigo, velho, prístino.)? Como quando olhamos para uma pedra, uma… CONTINUA

Uma anomalia natural

Depois de um ano e meio, voltei a uma sala de cinema. O motivo da ausência prolongada foi um vírus que assola o mundo e que acarreta – como salvação – o acirramento de algo que o capitalismo contemporâneo já vinha trabalhando intensamente: o isolamento entre as pessoas. Um dos efeitos do vírus da Covid-19 é nos lembrar que estamos “todos conectados”. Não só essa frase está em um filme pregresso de M. Night Shyamalan, como esta situação muito se parece com as situações dramáticas… CONTINUA

O caixão e a geladeira

Estamos dentro de uma casa. No meio da sala há um caixão. Não só: há castiçais, velas e flores. A diretora adverte às pessoas que já começou a filmar. O homem que se revela através do quadro diz: “mas eu nem penteei meu cabelo!”. A câmera finge se aproximar do rosto de quem estava se preparando para ser enterrado, mas se recusa a revelar tais feições: opta por se atentar às coisas e pessoas que compõem e figuram aquele rito de passagem. O que chama… CONTINUA

Cantar no escuro, aprender a voz da noite

Fazer o caminho de volta demanda um corpo que guarde a estrada a ponto de saber narrá-la. Regressar – seja a mulher à sua casa, ou o cinema ao exercício de si – é tarefa que estremece o mundo tal como está. É justo aí, no instante do retorno, que o terceiro longa de Ary Rosa e Glenda Nicácio acontece. Passados 15 anos de distância, quatro irmãs regressam à sua cidade natal para sentarem-se juntas em uma só mesa, no correr de uma só noite.… CONTINUA

A rústica tensão do jogo

A Mesma Parte de Um Homem (2021), terceiro longa-metragem de Ana Johann, é um filme que aposta na pujança dramatúrgica que cada cena é capaz de oferecer. Como se estivéssemos assistindo a micropeças, as cenas são costuradas pelos arroubos e pelas tensões que atravessam as relações entre os personagens que transitam entre o espaço recluso da casa e da amplidão da serra. A mise-en-scène lateja entre a constrição, as breves amenidades e os rompantes de raiva e, conjugada a um enredo que escala nos diálogos,… CONTINUA

Joana

Kevin começa pelas beiradas. Enquanto reúne fatias de espaços cotidianos – o apartamento, o trabalho, lampejos de Belo Horizonte –, começa a nos oferecer rastros do drama de Joana. Aos pouquinhos, ficamos sabendo que o pai está no hospital e que algo lhe aconteceu na altura da barriga. Uma tristeza doída impregna tudo. Joana está tão alheia que a câmera esquece dela por um momento para se debruçar sobre os outros professores na reunião da universidade. Quando sua amiga Kevin envia mensagens em inglês na… CONTINUA

Nordestes podem remontar a olhos de crianças

Realizado em Poções, município da Bahia, Rosa Tirana é roteirizado e dirigido por Rogério Sagui. Ao longo do filme, acompanhamos o percurso de Rosa, que parte de casa em busca de Nossa Senhora Imaculada. Galhos secos revelam a atmosfera da maior seca que o sertão nordestino já viveu. As narrativas da seca povoam bastante as imagens já conhecidas sobre o Nordeste e o cinema brasileiro já as explorou bastante. Existe, desde sempre, um fetiche brasileiro acerca do sofrimento do povo nordestino. Um sofrimento carregado por… CONTINUA

Mostra Foco #1 : Mirar horizontes, tropeçar em desabamentos de terra

Se ano passado o mote da Mostra de Tiradentes era “a imaginação como potência”, este ano parece que batemos na imaginação em revés. Não deu pé, a imaginação não deu conta, 2020 foi inimaginável. Tinha na formulação curatorial algo como: “a distopia como imaginário é um beco sem saída, precisamos de elaborações que escapem do achatamento de horizonte que vem se instalando ano a ano”. A intensidade de 2019 parecia a saturação máxima do assédio mental e material coletivo, mas não subestimemos a inventividade, estética… CONTINUA