Para habitar esta paisagem

Conheci as fotografias de Henry Bosse ao ler A field guide to getting lost (2005), um dos livros de ensaios de Rebecca Solnit. Bosse foi contratado para fotografar o alto Rio Mississipi no final do século XIX. Suas fotos eram reproduzidas com cianotipia – ou seja, em um tom predominantemente azulado, resultado de um processo mais barato de reprodução da imagem. É a cor azul, e a sua utilização para um registro paisagístico, que interessa a Solnit em seu ensaio. De fato, o azul da… CONTINUA

Cecilia Mangini: nada é acidente

Uma senhora com a idade impossível de contar, o corpo em direção à terra. Ela brinca com seu neto, reza no altar, conversa com os animais enquanto os alimenta e participa das atividades familiares em uma cidade rural italiana. Esse é o registro documental de Maria e os Dias (Maria e i giorni, Cecilia Mangini, 1960), expandido pela atmosfera que se impõe: uma luz dramática contorna os espaços da casa pelos quais Maria se movimenta, um plano em plongée no pátio interno, um mistério em… CONTINUA

Cinema de Gira

Para esta conversa aqui, buscamos, em termos de método, nos aproximar de certas características que encontramos nos filmes dirigidos por Ary Rosa e Glenda Nicácio. Optamos, no texto, por nos deixar contagiar pela oralidade latente e por um inclinação de método, onde o ritmo, e uma certa velocidade e dinâmica das ideias prevalecessem sobre uma explicação esclarecedora do assunto. O que vocês vão ler é mesmo um diálogo, um chat, uma chuva de insights, e achamos por bem que conserve essa forma, de certa maneira… CONTINUA

Um silêncio da imagem – Parte 1

“O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.” Guimarães Rosa, em “Grande sertão: Veredas” Retomamos o curta Alma no olho para pensar o gesto cíclico materializado na ocupação da própria tela pelo corpo negro que ocupa o enquadramento ao fim e ao começo do filme. Neste filme de 1973, é o preto da tez de Zózimo Bulbul e a posição contraluz do seu corpo, que, vibrando na eloquência do jazz, rompe o limite da imagem vertendo-se em quadro negro. A… CONTINUA

(Im)possibilidades de amizades interraciais num mundo colonialista

  Parece tarefa desmedida e desleal propor uma análise crítica sobre um filme como Kevin (Joana Oliveira, 2020), que estreou na Mostra Aurora da 24ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes e aborda, entre outras coisas, a relação de amizade, afeto, amor e máxima cumplicidade entre duas mulheres adultas, a professora de alemão Kevin Adweko, mulher negra africana de Uganda, e a cineasta e professora universitária Joana Oliveira, justamente diretora do filme, uma mulher branca brasileira que vai à África visitar a amiga conhecida… CONTINUA

Mergulhar nas brechas da opacidade

A cartela que inicia o filme termina com a seguinte frase: “A tarefa do político é precisamente permitir a essa voz de ressoar no espaço público”. As palavras são de La Convocation, de Federico Nicolao, Federico Ferrari e Tomás Maia. Findo o texto, ouvimos uma voz do que parece uma funcionária de aeroporto dando um comunicado; uma canção em inglês sobre tristeza; uma mulher praguejando a palavra “cachorro”. Sons urbanos e humanos se agitam no interior do filme enquanto tento tatear alguma cartografia que me… CONTINUA

Minha vontade mesmo é tacar fogo em tudo

Ocupar terras, largar o emprego e permanecer vivo são algumas das escapatórias possíveis apresentadas no primeiro certame de filmes da Mostra Foco Minas. Os curtas exteriorizam fissuras de um modelo social em crise e provocam, a partir de suas formas e narrativas, tensões nessa estrutura que esmaga existências pessoais e coletivas. As imagens elaboradas pelas obras batem de frente com este mundo que se desmorona e leva consigo aqueles que o sustentam. Videomemoria (Aiano Bemfica e Pedro Maia de Brito, 2020) abre a sessão narrando… CONTINUA

Ritornelo

Com um exercício de construção de imagens cuja tarefa é encontrar beleza na dissonância rítmica, Ostinato (Paula Gaitán, 2021), filme de abertura da 24ª Mostra de Tiradentes, sobre o músico Arrigo Barnabé, transcreve a fluidez do processo criativo para as fronteiras movediças que existem entre a criação no cinema e na música. Uma melodia, memorável ainda que difícil de ser reproduzida pelo ouvinte, conduz os primeiros minutos do filme, quando o piano de Arrigo é colocado no ponto de maior evidência da mise-en-scène. A montagem… CONTINUA

Dançar pelas imagens

A narrativa de Noite (Paula Gaitán, 2015) inicia-se com interações disformes de texturas sonoras em agitação enquanto a imagem permanece em silêncio. Fragmentos de uma cena do filme de Stanley Kubrick, 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), se aglomeram na intensa levada da bateria e dos beats eletrônicos, compondo planos e sons que parecem só se (des)encaixar dentro do universo do filme. Corpos vibrantes expandem e retraem-se sob luzes neon em boates da cidade grande, em uma noite que é infinita ao mesmo tempo que é… CONTINUA

Quando o causo vira filme: reflexões sobre a arte de Faela Maya

Barzinho Clandestino se inicia com um plano onde uma personagem manda uma mensagem de áudio para outra falando que está a caminho. O plano seguinte é dela chegando a uma calçada onde outras três meninas estão em pé. Aqui há a ausência de uma convenção narrativa audiovisual: o plano de estabelecimento. O local onde elas estão, no entanto, é rapidamente apresentado em poucas linhas de diálogo: – O mototáxi não achou o canto – Também, a gente tá quase escondida… – Eu consegui esse bar… CONTINUA