Glória e decadência das moneychanchadas – uma retrospectiva

O Brasil dos anos 2020 virou um pesadelo institucionalizado, e é pouco provável que esta nova ideia de país se modifique em pouco tempo. Para chegarmos ao vaticínio hiperbólico, devemos analisar o que nos trouxe até aqui. Antes de qualquer coisa, o país de 2021 veio sendo urdido por uma sucessão de equívocos e delírios que pareceram, em momentos cruciais, decisões equilibradas, triunfos irrefutáveis. Com o distanciamento histórico, conseguimos dizer que, sim, estávamos mesmerizados. E o desatino, o êxtase da impropriedade, termina nos parecendo tão… CONTINUA

Matou o cinema e foi à festa: Translesbixa, Anarca Filmes, Chorumex e algumas outras

Feitos com câmeras de variadas resoluções e perfurações de diversos arquivos altamente comprimidos, filmes realizados por coletivos queer de diversas cidades do país ao longo da última década formam comunidades transversais aos circuitos tradicionais de cinema e arte. Nesses filmes, que circularam especialmente em projeções improvisadas em espaços não institucionalizados das cenas noturnas das capitais, as imagens pobres – tal como definimos no primeiro texto desta série a partir de Hito Steyerl – parecem convocar seus espectadores a se moverem com elas. À margem do… CONTINUA

O jogo instável entre realizador e espectador na Filmes de Plástico

Talvez quem visse Fantasmas (2010), de André Novais Oliveira, no ano de seu lançamento, não pudesse vislumbrar o movimento tectônico que se operava no campo do cinema brasileiro. No decorrer do filme, o espectador percebe que está a ver não uma suposta janela para a realidade, mas a superfície de uma imagem captada por uma câmera amadora que duas pessoas observam e manipulam. Esses dois homens que conversam no antecampo são, antes de mais nada, espectadores. O único espaço a que temos acesso é o… CONTINUA

A astúcia da impropriedade nos filmes de Lincoln Péricles

Nesta última década, Filme dos Outros (2014), de Lincoln Péricles, realizado no Capão Redondo, periferia de São Paulo, operou a partir de uma compreensão cristalina de como a luta de classes se imprime na materialidade das imagens. Seus procedimentos tomam como ponto de partida inequívoco a percepção de que a sociedade de classe das aparências é organizada e valorizada conforme sua resolução. Realizado com arquivos de dispositivos de filmagem roubados, Filme dos Outros expõe esse “outro” a partir das câmeras que cada filmador possuía. O filme… CONTINUA

Cecilia Mangini: nada é acidente

Uma senhora com a idade impossível de contar, o corpo em direção à terra. Ela brinca com seu neto, reza no altar, conversa com os animais enquanto os alimenta e participa das atividades familiares em uma cidade rural italiana. Esse é o registro documental de Maria e os Dias (Maria e i giorni, Cecilia Mangini, 1960), expandido pela atmosfera que se impõe: uma luz dramática contorna os espaços da casa pelos quais Maria se movimenta, um plano em plongée no pátio interno, um mistério em… CONTINUA

Esculpir a dança do tempo

Atribuir ao corpo a condição primeira de nossas relações com o mundo é uma das portas de entrada para o visionamento do cinema de Welket Bungué, onde o corpo situa-se, simultaneamente, no texto e fora do texto, no esforço de esculpir o tempo pelo movimento corporal. Através de um ritmo próprio – enquanto movimento expressivo de um ciclo temporal, porém, em outro tempo que não o cronológico – de suas criações e dos entremeios que constrói pela multidisciplinaridade, o cineasta lança uma proposição na ausência… CONTINUA

Deslocamento do gesto, insubmissão da forma

Corre quem pode, dança quem aguenta (Welket Bungué, 2020) estrutura sua carne em um relato, sobreposto por imagens aéreas da cidade do Rio de Janeiro e fragmentos do pátio externo de um prédio em Santa Teresa. Aos poucos, a imagem de Welket Bungué surge em tela através de um movimento oscilatório de se desmanchar e se rematerializar em cena, por meio de transições que o inserem em diferentes pontos do quadro. A construção sonora apresenta Auris (voz de Welket Bungué), através de uma entrevista ficcional,… CONTINUA

Estética do quintal remix: fragmentos ao redor da Filmes de Plástico

Há um plano no curta-metragem Quintal (André Novais Oliveira, 2015) que, diante das mirabolantes invenções do filme, pode passar despercebido. Depois de ser abduzido por um misterioso portal que aparece de repente no quintal de casa, Norberto retorna ao lar na periferia de Contagem e se dirige à porta para entrar. A porta está trancada, como seria de se esperar. A câmera, instalada na sala, mostra a chave no trinco. Sem cerimônia alguma, como alguém que repete o mesmo gesto por décadas, Norberto enfia a… CONTINUA

Antiguerra híbrida – sobre as táticas de Adirley Queirós e 5 da Norte

O cinema de Adirley Queirós e de sua rede de colaboradores se forma por uma relação com o território. Não é só nos títulos de Rap – O Canto da Ceilândia (2005), A Cidade é uma Só? (2011) ou Era uma vez Brasília (2017) que as cidades figuram. Sua obra tem como premissa estudar as ficções e fabulações que formam uma cidade. Para isso, a perspectiva da Ceilândia é estratégica: espacial e simbolicamente em oposição à cidade-síntese das ficções brasileiras do poder institucional: Brasília. Esta situação… CONTINUA

A voz do sangue

Assaltai os antigos e trazei os despojos para casa Provérbio italiano do século XVI O Outro é infinitamente menos importante que o eu, mas são os outros que fazem a História Pasolini em carta a Giovanna Bemporad “Era uma vez” é uma consagrada fórmula de abracadabra para entrarmos no mundo – a princípio interdito a um adulto – do sangue, da origem e do fim, domínios que nos foram castrados pela preeminência da palavra, mediação incestuosa entre a carne e o espírito, entre o mesmo… CONTINUA