Para habitar esta paisagem

Conheci as fotografias de Henry Bosse ao ler A field guide to getting lost (2005), um dos livros de ensaios de Rebecca Solnit. Bosse foi contratado para fotografar o alto Rio Mississipi no final do século XIX. Suas fotos eram reproduzidas com cianotipia – ou seja, em um tom predominantemente azulado, resultado de um processo mais barato de reprodução da imagem. É a cor azul, e a sua utilização para um registro paisagístico, que interessa a Solnit em seu ensaio. De fato, o azul da… CONTINUA

Uma vela acesa à luz do dia: estados alterados da ficção no cinema de realizadores indígenas

Quando o protagonista indígena de Uirá, um Índio em Busca de Deus (Gustavo Dahl, 1973) decide deixar a família para trás e partir numa corrida desenfreada em busca da divindade que o fizera abandonar a aldeia, todo o filme muda subitamente de tom, abandona o compasso da ficção realista que acompanhava o percurso de Uirá e adquire por um momento as texturas visuais e sonoras de um conto mitológico. Em Pirinop – Meu Primeiro Contato (Mari Corrêa e Karané Ikpeng, 2007), a reencenação da expedição… CONTINUA

“As frívolas arrasam!” – Entrevista com o coletivo Surto & Deslumbramento

Em meados de 2012, André Antônio, Chico Lacerda, Fabio Ramalho e Rodrigo Almeida formaram o coletivo Surto & Deslumbramento. Em menos de dez anos, realizaram um longa-metragem, A Seita (André Antônio, 2015), e dirigiram sete curtas, além de assinarem outros sete trabalhos colaborativos. Um historiador do futuro talvez encontre nos filmes do coletivo, realizados fora do mercado de distribuição e com uma presença discreta nos grandes festivais do país, uma das formulações mais conscientes e vigorosas de uma sensibilidade maneirista e paródica que tornou-se com… CONTINUA

Seja belo e faça o mínimo

Talvez assistir a um filme que acompanha uma bicha de contornos apolíneos e sensibilidade gótica transitando entre ler Baudelaire no conforto de seu mausoléu e viver a noite carioca com outros jovens não seja o mais absurdo dos conceitos para o cinema brasileiro de 2021, mas em 2014 as pessoas e os cinemas eram outros, sobretudo aquele feito em Pernambuco. E talvez seja injusto, sobretudo se levarmos em consideração a produção experimental de Jomard Muniz de Brito e Geneton Moraes Neto nos anos 70 e… CONTINUA

Tesão, tragédia e ruína

1 Em 2015, a Revista Janela me convidou para fazer parte de uma listagem coletiva de melhores documentários brasileiros. Uma das minhas escolhas foi Casa Forte, curta de Rodrigo Almeida, que eu tinha visto havia bem pouco tempo. Escrevi um parágrafo sobre a escolha para constar junto à lista de filmes: “Filme fundamental pra pensar uma sofisticação da forma ensaio hoje. Acachapante exercício sobre as sobrevivências. Pega a fetichização da luta de classes e da especulação imobiliária e lhes dá uma chave de piroca. Cada… CONTINUA

esboço de um começo sem princípio

Virgindade (2015) se mostra como um esboço. Os primeiros ensaios de um menino que é arrebatado pelo seu desejo por outros meninos. Esboço não no caráter transitivo ou provisório, que antecede obra final, mas em sua natureza mesma de primeiros riscos. Folha de vida, em estado de aurora, que começa a ser desenhada em rudimentares garatujas. O curta de Chico Lacerda soma corpo ao insólito repertório de cinemas que se deixam ocupar por vislumbres de uma infância kuir. Entre as fendas comuns que marcam o… CONTINUA

Um dândi na periferia do futuro

Em meados da década de 2010, em um momento no qual ainda não estava claro o caminho político que o país tomaria, André Antônio realizou A Seita, uma das primeiras novas ficções pós-apocalípticas que tomaram de sobressalto o cinema brasileiro nos últimos anos. Nascido da colaboração com os seus companheiros do coletivo Surto & Deslumbramento, o filme foi realizado com um orçamento mínimo, adquirido inicialmente para realizar um curta-metragem. Em 2040, no filme, o mundo se encontra dividido entre uma sociedade próspera e regrada, assentada… CONTINUA

Ensaio enquanto filme, traição enquanto método

Como nos filmes que aqui serão comentados, esse texto se fará assumindo o gesto de costura de diferentes retalhos e derivando pelas pistas que as coincidências abrem. Partimos de um dos últimos filmes de Eduardo Coutinho, Moscou (2008) para pensarmos a relação entre ensaio e cinema, chamando atenção menos ao ensaio enquanto gênero do que justamente enquanto processo de criação. O inacabamento primordial de Moscou nos parece uma base para analisarmos alguns pormenores que constituem, por exemplo, o longa Esse amor que nos consome, de… CONTINUA

O ar entre campos: as invenções do cinema de entrevista na última década

Por onde andou o cinema de entrevista brasileiro na última década? O que aconteceu depois da morte de Eduardo Coutinho em 2014? O que se deu depois que ele, que subiu um edifício dedicado a esse cinema, decidiu dinamitá-lo, em partes, nas vigas e colunas que o deixavam de pé, sobrando afinal as paredes esburacadas e bambas, bem ao seu gosto pelo imperfeito, o impuro, o momentâneo, o passageiro? A partir de Santo Forte (1999), Coutinho se dedicou a filmes estruturados pela sequência de personagens falando para… CONTINUA

Glória e decadência das moneychanchadas – uma retrospectiva

O Brasil dos anos 2020 virou um pesadelo institucionalizado, e é pouco provável que esta nova ideia de país se modifique em pouco tempo. Para chegarmos ao vaticínio hiperbólico, devemos analisar o que nos trouxe até aqui. Antes de qualquer coisa, o país de 2021 veio sendo urdido por uma sucessão de equívocos e delírios que pareceram, em momentos cruciais, decisões equilibradas, triunfos irrefutáveis. Com o distanciamento histórico, conseguimos dizer que, sim, estávamos mesmerizados. E o desatino, o êxtase da impropriedade, termina nos parecendo tão… CONTINUA