Vivendo e Morrendo em São Paulo
De 02 a 07 de setembro, o Centro Cultural São Paulo
será sede da segunda mostra organizada pela Revista Cinética,
com curadoria dos editores Cléber Eduardo e Leonardo Mecchi.
A mostra exibirá 18 produções em torno da relação
conflituosa entre seus personagens e a cidade de São Paulo
e terá debate com teóricos e realizadores. Confira aqui
a programação completa da mostra.
A
mostra
O que mobiliza, em ficções e documentários,
os dramas paulistanos? Quais as principais razões de sofrimento
ou de conflito dos personagens na cidade? Em quais medidas a experiência
específica na metrópole motiva essas feridas emocionais?
A mostra Vivendo e Morrendo em São Paulo coloca
essas questões por meio da exibição de 18
longas-metragens e da realização de um debate, que
acontecerá no dia 04/09, às 14h, com a presença
dos cineastas Ricardo Elias e Guilherme de Almeida Prado, do professor
e pesquisador Rubens Machado Jr (da ECA-USP) e mediação
de Cléber Eduardo.
A seleção não foi pautada
pelo cânone, mas por um recorte no enfoque, levando-se em
conta, sempre, a disponibilidade de cópias e a viabilidade
dos direitos de exibição. Nos enredos presentes
na programação, há procuras pelo par ideal
na selva de rostos e imagens da metrópole, a perda desse
par ou da esperança de encontrá-lo e os dissabores
gerados por uma circunstância social, diante dos quais se
resiste ou se tomba.
Pode-se afirmar em linhas gerais que, vivendo
ou morrendo em São Paulo, os personagens primam pela "ausência"
(pela perda ou pela falta). Pode ser ausência de casa, de
afeto, de liberdade, de expectativas e de confiança. Não
deixa de ser um olhar paradoxal para um espaço urbano marcado
pelo acúmulo.
São filmes de 1968 a 2008, dirigidos por
alguns dos mais expressivos cineastas do universo paulistano,
alguns de fora da cidade, mas marcados sempre em seus percursos
pelo olhar para o ambiente urbano da capital, como Rogério
Sganzerla, João Batista de Andrade, Denoy de Oliveira,
Suzana Amaral e Guilherme de Almeida Prado, surgidos entre os
anos 60 e 80, que recebem o reforço de uma nova geração
de diretores com olhares voltados para São Paulo, como
Lina Chamie, Laís Bodansky e Ricardo Elias.
Podemos ver o ambiente das ruas, dos imigrantes
nordestinos recém chegados, de um taxista, de um marginal,
de uma jovem prostituta, de um jornalista policial, de um motoboy,
de um rapaz de volta à cidade, de sujeitos de classe média,
de presidiários, de jogadores, enfim, de um grupo multifacetado
de personagens na cidade. A geografia dramatizada pelos 18 filmes
transita da periferia aos Jardins, passando pelo metrô,
pelo trem, por um presídio e por um estádio.
É notável a freqüência
e proximidade da morte, presente de formas menos ou mais evidentes
na maioria dos filmes de narrativa paulistana. Pode ser a morte
no trânsito, como A Hora da Estrela, de Susana Amaral;
A Via Láctea, de Lina Chamie; e Os 12 Trabalhos,
de Ricardo Elias; ou por medo da perda, como Perfume de Gardênia,
de Guilherme de Almeida Prado. Pode ser por contingências
sociais, como O Baiano Fantasma, de Denoy de Oliveira;
O Homem que Virou Suco e A Próxima Vítima,
de João Batista de Andrade; e De Passagem, de Ricardo
Elias; ou no extracampo do espaço filmado (O Prisioneiro
da Grade de Ferro, de Paulo Sacramento). Pode ser uma morte,
ainda, envolta no insólito, como em A Grande Noitada,
de Denoy de Oliveira, ou como condição mítica,
existencial e social (O Bandido da Luz Vermelha, de Sganzerla).
A morte pode ser também um estágio
superado, como em O Caminho dos Campeões, de Eduardo
Barioni, que terá sua primeira exibição
pública nesta mostra; ou ainda a morte do próprio
cinema como atestado de qualquer coisa, como em A Dama do Cine
Shanghai, de Guilherme de Almeida Prado. Na morte aparente,
porém, pulsa a vida. Se há a morte de um projeto
de moradia, ou uma ausência de projetos, há também
resistência em À Margem do Concreto, de Evaldo
Mocarzel; assim como em Jogo Subterrâneo, de Roberto
Gervitz, existe uma resistência ao fim do romantismo, ainda
que, para sobreviver, esse romantismo precise se adaptar às
novas experiências com espaços sociais, na qual a
individualidade em público se torna somente imagem.
Em A Casa de Alice, de Chico Teixeira,
e Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodansky,
a vida resiste à família, ou é ameaçada
pela mesma, colocando os problemas na esfera íntima dos
personagens ao invés de colhê-los fora de casa e
introjetá-los na vivência doméstica. Essa
fusão entre o fora e o dentro - entre a cidade, o personagem
e a casa - é a base também de Nina, de Heitor
Dhalia, no qual a morte igualmente ronda a vida de uma jovem confusa
entre exterior e interior em sua vivência.
Temos, por fim, um amplo painel de retratos e
olhares sobre a capital paulista, seus dramas e as feridas emocionais
que causam em seus habitantes e personagens. Convidamos ao público
para um mergulho nesse universo onde, quem sabe, poderá
encontrar o reflexo de sua própria relação
com a cidade.
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