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in loco - cobertura dos festivais
Trampolim do Forte,
de João Rodrigo Mattos (Brasil, 2010)
por Filipe Furtado
Entre
filmes
As primeiras duas seqüências de Trampolim do Forte nos
informam tudo sobre os méritos e fragilidades desta estréia de
João Rodrigo Mattos em longa metragem de ficção. Primeiro, somos
introduzidos ao universo do filme em meio a uma longa seqüência
frenética, entre a primeira e a terceira pessoa dentro do mesmo
plano, em que um garoto corre pelas ruas até chegar ao trampolim
do título para um mergulho. Há ali toda uma pulsão, toda um desejo
de se colar a esta personagem que garante a Trampolim do Forte
um inegável encanto. Na segunda, somos apresentados a um dos
dois garotos protagonistas enquanto este chega do trabalho – ele
é vendedor de picolé – e encontra a mãe que lhe cobra os lucros
o dia para poder entregar ao pastor no culto. Cada momento da
troca de diálogos soa cuidadosamente calculada para explicitar
os temas presentes nesta relação, e toda possível intimidade da
cena é sabotada por um desejo programático que lhe esvazia de
qualquer força. O drama se desloca ao grotesco das relações.
Tudo
em Trampolim do Forte sugere um destes dois registros e
é uma pena que o segundo com tanta freqüência termine por engolir
o primeiro, pois é inegável que Mattos consegue extrair momentos
de muita força quando o filme simplesmente repousa sua câmera
sobre sua dupla de protagonistas. Cenas como as de Feliz vendendo
seus picolés – ou sua alegria ao encontrar uma carteira cheia
de dinheiro dentro do seu isopor – trazem força o suficiente em
si mesmas que o filme poderia se sustentar só destes momentos
que fazem valer sua proposta de registrar a vida destes meninos.
Entra em cena, porém, a necessidade do drama, e a necessidade
de incluir um sem número de obstáculos e subtramas além de um
grande número de coadjuvantes, inclusos ali apenas para que o
filme tente abarcar o maior número de temas possível. Mattos parece
não perceber que os seus dois protagonistas são naturalmente fortes
e dramáticos, sem precisar, por exemplo, da inclusão de um estuprador
serial de crianças/adolescentes agindo na região.
Esta tendência termina exacerbada pela opção freqüente
de tentar escamotear os momentos mais duros dos conflitos para
fora da tela. O que fica claro na forma como a identidade do estuprador
resolve fora de cena um dos conflitos centrais, sem que Mattos
jamais tenha que filmar seu desenlace, ou ainda, de forma mais
direta, nas duas cenas com a mãe do outro protagonista que o abandona
logo no começo do filme sem explicar os motivos e que inclui cada
uma um par de diálogos constrangedores nos quais o filme tenta
evitar lidar com a situação (sua função no drama afinal é deixar
o garoto ao relento). Trampolim do Forte parece o rascunho
de muitos filmes, sendo que o principal seria de considerável
potência pena – que seu cineasta passe tanto tempo se dedicando
e se conformando a tudo que não domina, e assim fragilize o trabalho.
Setembro
de 2010
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