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500 Dias com Ela (500 Days of Summer),
de Marc Webb (EUA, 2009) por Filipe Furtado
500
Dias com Ela poderia ser um bom filme, mas ao invés disso é uma bela
ilustração. Raramente nos vemos diante de um filme que ilustre tão bem toda a
indústria de cheeseburger do cinema independente americano. 500 Dias
com Ela tem um bom ator (Joseph Gordon-Levitt) se esforçando muito para vender
o filme e uma premissa (rapaz precisa se recuperar de um fora enquanto relembra
a relação) de interesse. A partir daí Marc Webb completa a idéia inicial com todos
os cacoetes esperados para vender seu filme, seja as referências musicais aceitáveis
(o primeiro dialogo do casal se dá quando ela o elogio por gostar dos Smiths),
a narrativa atemporal (com cartão de explicação para o espectador não ficar perdido),
os atores indie (Gordon-Levitt, Zoey Deschanel), etc. Nada ilustra isto
melhor que as cenas entre o protagonista e seus dois melhores amigos: são seqüências
funcionais, com os dois coadjuvantes ali essencialmente para dar ao protagonista
alguém para conversa e/ou servirem a alguma piada. O que impressiona é como não
existe nenhuma intimidade sugerida nestas cenas, como é impossível diante delas
dizer “ei, estes caras se conhecem há anos e estão sempre muito à vontade entre
eles”. 500 Dias com Ela se preocupa demais em se vender de forma eficiente
para que tal intimidade possa se instaurar. Entre Gordon-Levitt e o profissionalismo
industrial, 500 Dias com Ela certamente se deixa ver facilmente. Mas diz
muito sobre este cinema que o blockbuster que o ator fez este ano pelo
cheque (GI Joe) pareça ter muito mais personalidade que isto aqui.
Bons
Costumes (Easy Virtue), de Stephan Elliott (Inglaterra, 2008) por
Eduardo Valente Desde
o desenho dos créditos iniciais, Stephan Elliott deixa claro que, nessa
volta ao cinema depois de nove anos afastado (inclusive por motivos de doença),
ele quer muito se divertir. E esta é a principal virtude de Easy Virtue
- uma, aliás, nem sempre tão fácil assim, com o perdão
do trocadilho. Elliott se aproveita em parte do texto de um Noel Coward ferino
(embora, a bem da verdade, em alguns momentos o texto seja um pouco witty
demais da conta) e em parte de uma mise-en-scène de uma fluidez
notável, entre elegantes movimentos de câmera e uma montagem de cortes
rápidos, mas nada bobos. Fica claro que seu desejo é o de retomar
uma certa tradição da comédia de costumes, não só
no teatro como no cinema dos anos 30-40, e ele consegue reproduzir o que talvez
seja o principal de alguns dos melhores filmes do período: a capacidade
de transformar a diversão na realização em diversão
na tela, que transborda então para o espectador. Por fim, não podemos
deixar de falar de três escolhas sábias no elenco: Colin Firth dando
muita dignidade ao seu personagem; Kristin Scott Thomas se divertindo como a megera
inglesa; e, acima de tudo, uma Jessica Biel que, se não chega a ser brilhante
como comediante, também não faz feio - ou melhor, faz o principal,
que é ter uma presença de tela que dá total veracidade ao
impacto de sua personagem no espaço onde se passa a trama.
Embarque
Imediato, de Allan Fiterman (Brasil, 2009) por
Eduardo Valente No cinema, como de resto em qualquer
outra parte da vida, ambições são sempre bem vindas – no entanto, quanto maiores
sejam, mais fortes podem ser as quedas. Talvez isso ajude a entender porque a
queda que sentimos vendo Embarque Imediato pareça tão grande: aquilo que
poderia ser apenas um exercício de gênero sem maiores habilidades ou talento vira
um desastre justamente porque almeja ser mais do que isso. Por um lado, há o claro
interesse em propor um clima para além do realismo naturalista, sob influência
forte dos tons almodovarianos (algo
que surge em cena desde uma personagem que fala em espanhol até a relação direta
de um personagem com o cinema clássico, aqui via Gilda); por outro, a ambição
de fazer uma observação aguda sobre o desejo brasileiro de emigrar para o Primeiro
Mundo em busca de oportunidades. O problema é que, no primeiro caso, falta a Fiterman
o domínio do artesanato básico do cinema, algo que Almodóvar sempre teve e que
especialmente hoje esbanja. Por um lado, Embarque Imediato parece editado
com um machado, retirando qualquer possibilidade de clima no interior de suas
seqüências já bastante problematicamente encenadas e decupadas (os exemplos são
inúmeros, mas a cena de sexo e aquela em que Marilia Pêra aparece fazendo ginástica
são os ápices); por outro, no desejo de colocar os atores um tom acima do naturalismo,
o filme se perde em desempenhos quase grotescos (ou totalmente, no caso de José
Wilker), nos lembrando sempre que a sátira e a farsa não são uma simples exacerbação
da realidade para os campos de qualquer comicidade. O que é uma pena nisso tudo
é que, no meio de toda a inaptidão de linguagem e no discurso sócio-econômico
simplório, há ali um ponto de interesse inegável: a relação amorosa entre um casal
tão improvável como o formado por Marilia Pêra e Jonathan Haagensen. Infelizmente,
porém, Embarque Imediato não consegue criar nem narrativa, nem dramaturgia
que nos permita minimamente partilhar desta relação.
Um
Segredo de Família (Un Secret), de Claude Miller (França, 2008)
por Eduardo Valente Durante
sua primeira hora, Um Segredo até consegue enfrentar dignamente sua obrigação
de ser um exemplar típico do novo “cinema francês de qualidade”, com atores de
renome, super-produção e narrativa engessada. Nesta primeira hora, Miller demonstra
elegância nas idas e vindas entre 1955 e 1985, conta com o carisma à toda prova
de Cecile de France e mantém o interesse. A partir do momento em que uma terceira
linha temporal é somada, no entanto (a que configura o tal segredo do título),
o filme mergulha de vez no tédio completo, fazendo pouco mais do que ilustrar
com imagens e sons uma narrativa que, para além de ser toda mastigada por uma
narração em off onipresente, já mais do que antecipamos e compreendemos.
É quase triste ver uma Ludivine Sagnier tão apagada e pro-forma em um papel de
sofredora orgulhosa num filme que logo se revela que não será lembrado como nada
além de apenas mais uma obra sobre o sofrimento judeu durante os anos do nazismo.
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