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Agente
86 (Get Smart), de Peter Segal (EUA, 2008)
por Eduardo Valente Logo
no começo desta versão cinematográfica e moderna da clássica
série de TV, uma cena deixa clara a relação que o filme optará
por estabelecer com a iconografia (e, por tabela, com todo o resto) de sua predecessora:
quando Maxwell Smart entra no que de fato é o quartel-general da CONTROL,
ele passa por uma espécie de museu onde se podem ver velhos conhecidos
da série, como o terno, o carro esporte ou o sapato-fone. É verdade
que no final estes serão retomados, mas ainda assim não deixa de
ser um momento sintomático da aproximação de Peter Segal
e dos roteiristas/produtores: a série de TV é coisa de museu. Com
isso, como poderíamos esperar, cabe ao filme trazer o personagem e
seu universo para o presente - e por isso entendamos acima de tudo para a platéia
(jovem, inclusive) dos dias de hoje. Então, por um lado tome referências
sócio-políticas à atualidade (principalmente através
da trama em torno do presidente interpretado por James Caan, cheio de referências
a Bush), mas de maneira ainda menos sutil através de um desejo de filmar
as desventuras de Smart não apenas pelo viés cômico, mas também
a partir de uma cartilha do cinema de ação contemporâneo,
seguida à risca por uma lógica do "quanto maior, melhor"
numa série de cenas de ação francamente sem muito nexo (e
não falamos aqui de verossimilhança, mas sim de lógica interna
mesmo), marcadas acima de tudo por uma mise-en-scène sem qualquer
senso de timing ou de clima (um micro-exemplo bastante forte é o
péssimo primeiro encontro com a Agente 99, enquanto ela pratica jogging).
Por conta deste desejo de fazer um filme de ação "à
vera" que complemente a parte cômica, este Agente 86 se revela
uma experiência bastante esquizofrênica e quase nada engajante. Temos
um Steve Carrell no piloto automático (o que, lógico, significará
duas ou três gags fantásticas, mas pouco mais que isso), uma
deliciosa Anne Hathaway bastante perdida em si mesma, um Dwayne "The Rock"
Johnson de enorme carisma pedindo um personagem que faça jus a ele, e um
Terence Stamp absolutamente dispensável. Mas o que temos mesmo, acima de
tudo, é uma típica experiência hollywoodiana moderna segundo
uma competência desprovida de qualquer vida própria, de qualquer
diferencial ou desejo de encanto. Um "filme de resultados", que certamente
atingirá os desejados (leia-se, basicamente, a bilheteria mundial).
As
Crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian (The Chronicles
of Narnia: Prince Caspian), de Andrew Adamson (EUA, 2008)
por Eduardo Valente Existe
uma curiosa distância entre os recentes fenômenos de bilheteria infanto-juvenis
norte-americanos e os livros (ou melhor as séries de livros, uma sacada
de resto incrivelmente lucrativa) que os inspiram. Sim, porque da literatura dos
Harry Potter, dos Senhor dos Anéis e deste Nárnia, tem sido retirada
algo que, na maioria das vezes (e certamente nos dois capítulos vistos
até agora desta série aqui), ao invés de remeter às
fantasias que seus originais aspiram, se aproximam muito mais de uma realização
quase documental. O termo é forte, sim, mas não despropositado:
fato é que a tecnologia dos efeitos de computação gráfica
têm levado o desejo de verossimilhança no fantástico cinematográfico
a um tal paroxismo que o que temos visto cada vez mais é uma aposta em
recriar um "mundo fantástico", com
suas paisagens, seres míticos e narrativas, da maneira mais fidedigna possível
a uma idéia de realidade. Com isso, perde-se de vista toda e qualquer fabulação
possível, e o exercício de assistir a filmes como este segundo Nárnia
se resume ao espetáculo de maravilhar-se com as proezas cinematografico-realistas
dos realizadores. Se esta redução drástica dos poderes encantatórios
da ficção cinematográfica fantástica já soava
desinteressante há alguns anos, agora consegue nos fazer sentir um precoce
dejà vu, onde ajuda muito pouco que este segundo episódio
de Nárnia tenha tantas cenas em comum com o que vimos há
pouquíssimo tempo na série do Senhor dos Anéis: a
batalha na fortaleza de pedra num espaço sem saída, a montagem paralela
com a solução que virá em cima da hora, até mesmo
a revolta das árvores. Talvez a principal diferença seja esta imagem
um tanto perturbadora de meninos empunhando suas ferramentas de matar (que, claro,
nunca derramam sangue dos inimigos - afinal não podemos perder a censura
livre, mesmo com toda a carnificina na tela), algo que pode soar heróico
num livro mas que tornado imagem tão desejadamente "realista"
certamente tem algo de soturnamente semelhante a episódios menos felizes
da história humana (imagens de nazistas ou de guerrilhas vêm à
mente). Se somamos isso ao subtexto claramente cristão do livro, onde o
"deus-leão" nos remete à ironia e crueldade do Deus do
Velho Testamento, este Crônicas de Nárnia 2 adquire um tom
perturbador que, entretido com o que pensa ser sua ode ao heroísmo clean,
aparentemente passa desapercebido do diretor Adamson.
Horton
e o Mundo dos Quem! (Horton Hears a Who!), de Jimmy Hayward e Steve Martino
(EUA, 2008) por
Nikola Matevski O consenso crítico sobre
animações blockbuster veio à tona novamente em Horton
e o Mundo dos Quem!: laureia-se a "técnica", termo genericamente
aplicado a tudo o que resulta nas imagens do filme, enquanto o roteiro é
uma esfera autônoma que usualmente esquenta discussões sobre as lições
moralistas ou outros valores implícitos à narrativa. Não
há nenhum problema na moralidade representada no mundo de Horton, mas na
maneira como personagens tornam-se vozes dessa moralidade. Se na fábula
criada originalmente por Dr. Seuss os animais são veículo para representar
as ambições humanas maiores do que eles, na adaptação
dirigida por Jimmy Hayward e Steve Martino suas motivações e valores
surgem da interioridade (da psicologia, do caráter) em detrimento da superficialidade.
Disney, em suma.
Porém, o filme sofre seriamente com isso apenas nos minutos finais e até
lá vemos algumas liberdades interessantes no uso da animação
para construir a atuação, especialmente no prefeito do Mundo dos
Quem.Em determinados momentos sua gestualidade é curiosamente "borrachuda",
ou seja, há manipulações arrojadas nas transições
entre as expressões faciais e movimentos das extremidades do corpo. Assim,
um braço amortecido por uma injeção de anestesia torna-se
um veículo para algumas gags físicas - para ser humanizado, o corpo
não imita simplesmente os movimentos humanóides (como ocorre em
Happy Feet, Shrek, etc), mas explora algumas possibilidades únicas
da animação para gerar movimentos exagerados que caracterizam certeiramente
a atuação. Algumas pontas dessas qualidades podem ser vistas no
trailer oficial do filme. Infelizmente, essa é uma característica
inconsistente, que parece ter sido mantida sob controle (pela direção?
pelos executivos?), porque em momentos-chave somos novamente dirigidos para a
habitual quota de templates genéricos de expressões (alegria, tristeza,
etc) que infestam os cartazes de divulgação do filme.
Jogo
de Amor em Las Vegas (What Happens in Vegas), de Tom Vaughan (EUA, 2008)
por Eduardo Valente Desde
que o cinema é cinema que a comédia romântica segue as mesmas
regras: homem conhece mulher, homem e mulher se estranham no começo, homem
e mulher vão se acertando, homem e mulher se amam no final. De fato, a
comédia romântica só não é tão velha
e previsível quanto os dilemas amorosos de homens e mulheres, que revolvem
em torno de mais ou menos as mesmas coisas desde que o mundo é mundo -
o que antecede o cinema em alguns séculos. Até por isso não
faria o menor sentido se opor a este Jogo de Amor em Las Vegas baseado
na sua previsibilidade como narrativa - até porque inúmeros outros
filmes do gênero seguem o mesmo modelo e atingem píncaros de qualidade
(só para ficarmos no hiper-recente, lembremos de Ligeiramente Grávidos,
de Judd Apatow e de Antes Só do que Mal Casado, dos
irmãos Farrelly). Só que Tom Vaughan, um senhor ninguém da
TV americana, não tem o menor interesse em ser Apatow ou os Farrelly. De
fato, ele não tem o menor interesse pelo cinema. Sua missão em Jogo
de Amor em Las Vegas lhe parece simples e direta: basear-se no star power
de seus dois protagonistas, copiando todos os tiques de atuações
dos personagens pelos quais eles ficaram famosos, usar o roteiro mantido de pé
por apenas uma premissa esperta (o enriquecimento repetino após um casamento
movido pela bebida em Las Vegas) e... bem, e é isso. Só que Vaughan
parece esquecer dois dados essenciais: que o verdadeiro humor vem do inesperado,
da possibilidade de ver algo por um lado ainda não visto; e que não
há bom humor "a favor", o humor é um gesto contestatório
por definição. E isso é tudo que não existe em seu
filme, não deixando dúvidas do porquê ele não tem qualquer
graça. Não é a narrativa que é previsível por
seguir um modelo eterno baseado nas relações humanas: são
todas as suas piadas que são previsíveis porque se baseiam na colocação
de câmera mais óbvia, patética mesmo; no tique de interpretação
mais fora de tom, exagerado; no comportamento de personagens mais fora da lógica
que os constrói a cada cena. O humor tenta ser retirado a fórceps,
e está sempre a favor: da moral mais vagabunda, da estética mais
porca, do comércio mais puro. Não há cinema para se analisar
em Jogo de Amor em Las Vegas, porque nenhum dos seus realizadores assim
deseja ou se importa.
Longe
Dela (Away From Her), de Sarah Polley (Canadá, 2006) por
Lila Foster Estréia
na direção de Sarah Polley, atriz canadense de filmes como O doce amanhã
de Atom Egoyan (também produtor deste filme) e Minha vida sem mim e A
vida secreta das palavras de Isabel Coixet, Longe dela mostra uma história
de amor contada da perspectiva do envelhecimento. Grant e Fiona formam um belo
casal mesmo depois de 44 anos de convivência, até que os esquecimentos progressivos
de Fiona por conta do Alzheimer levam o casal a tomar a decisão de se separar
para que ela tenha cuidados específicos numa clínica para idosos. É chocante para
Grant perceber em uma visita a clínica o deterioramento causado pela doença e,
aparentemente, ele parece ser o que mais sofre com a separação: um passado feliz
e uma vida harmoniosa em conjunto estariam assim se desfazendo. Mas, as dores
do passado não estão assim tão ausentes e esta pequena célula incômoda quebra
a aura de idealidade conferida ao casal. Esta mudança é o que o filme apresenta
de mais interessante, principalmente porque a partir dela cada um tenta estabelecer
estratégias de sobrevivência diante da separação e também das novas condições
de vida. Tema ainda pouco explorado no cinema, a velhice aparece de forma difícil
e triste, mesmo que não sem levar em consideração que, para além do fim da vida,
se trata também do tempo mais necessário para se reinventar. É aí que o passado
e o medo da solidão parecem pesar muito mais do que o medo da morte. A direção
de Sarah Polley se fia, até demais, no roteiro bem estruturado, contando ainda
com a ótima atuação de Julie Christie.
O
Melhor Amigo da Noiva (Made of Honor), de Paul Weiland (EUA, 2008) por
Francis Vogner dos Reis Patrick
Dempsey se apaixona pela melhor amiga que vai se casar com um cara mais sensível,
mais rico e mais bem dotado que ele. Essa é uma premissa, parecida com muitas
outras, o que não seria um problema se não fosse a extrema falta de personalidade
em ação. Mas é interessante ver uma comédia como esta que tem seu esforço centrado
na forçação de barra de qualquer detalhe pitoresco e grotesco. Chega a ser comovente
o incansável esforço por criar uma imagem que seja cômica, uma gag. Em
alguns momentos a coisa soa tão “over” que até consegue ser engraçado. O Melhor
Amigo da Noiva acaba sendo um filme que leva à seguinte reflexão (simples,
mas cada vez mais necessária): o que faz de uma comédia um projeto cinematográfico
além da tentativa de arrancar risadas? Essa pergunta emerge porque o filme de
Weiland é um Frankestein de comédias de casamento, uma reunião de idéias de filmes
mais talentosos como O Casamento do Meu Melhor Amigo e Quatro Casamentos
e um Funeral, que soa tão mais antiquada em um tempo em que os irmãos Farrelly
se dedicam a fazer filmes sobre relacionamentos. O Melhor Amigo da Noiva
serve para, pelo menos, mostrar que Sex and the City - O filme tem sim
(apesar de tudo) um projeto estético e dramático. Algo cada vez mais raro.
A
Outra (The Other Boleyn Girl), de Justin Chadwick (Inglaterra/EUA, 2008)
por Francis Vogner dos Reis É
um trabalho de Hércules assistir a um filme que encena um fato histórico sob forma
de historieta de detalhes infames. Se o objetivo não era fazer um filme histórico
ao pé da letra (nunca obrigação de nenhum filme), existia a possibilidade de propor
qualquer recorte no “caso” das irmãs Maria e Ana Bolena com o rei da Inglaterra
Henrique VIII, seja ele político ou de pura e simples sacanagem de alcova. Mas
não. O protocolo a cumprir é o do filme médio, para o público de médio interesse
por esse episódio histórico e pouco interesse no cinema. Tudo em A Outra
é “médio”, está no meio termo: figurinos, cenografia, tom de interpretação e condução
da narrativa. Na média, para que não seja considerado além e nem aquém. O tom
morno e nulo é algo parente, porque o filme tem um gosto pelo sensacionalismo,
a uma espécie de aula de história lecionada pelo E! Entertaiment Television, chafurdando
dos detalhes escandalosos da corte. Tudo isso com algum comedimento, claro, porque
o filme de Chadwick não é oito nem oitenta, mas um drama vazio, sem água e nem
açúcar.
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