Era uma vez

O que é “um filme de época?” Estritamente falando, a resposta não poderia ser mais simples: um filme que se passa num momento “real” do passado. Mas muito mais interessante pode ser perguntar: o que pode ser um filme de época? Se é considerada uma verdade universal a afirmação de que um filme sempre nos fala mais sobre o momento em que ele é realizado do que sobre o momento (seja o passado ou o futuro) que ele retrata na sua narrativa, o que nos… CONTINUA

Repetir ou não repetir: essa não é a questão

Principalmente na obra mais tardia de ambos, há algo de muito curioso que aproxima as trajetórias de Abbas Kiarostami e Eduardo Coutinho. Não se trata apenas do fato de que repetição não parecia ser uma possibilidade para eles: chama a atenção a maneira como os filmes iam reagindo uns aos outros, levando a desenvolvimentos e questionamentos internos onde cada resposta claramente levava a mais uma pergunta. Até por isso, nos cria uma perspectiva fascinante poder assistir 24 Frames, com a triste condição de finalidade que… CONTINUA

O mundo vai acabar, longa vida ao mundo

Chegando na metade do Festival, é um bom momento para prestar um esclarecimento ao leitor(a) que esteja acompanhando nossa cobertura por aqui, e que até agora só viu citados 3 filmes da competição, quando já foram exibidos dez: não, a gente não se vê na obrigação de assistir e cobrir todos os filmes da competição. Isso, basicamente porque o recorte proposto pela competição é tão arbitrário quanto qualquer outro, e se pautar por ele significa deixar de ver vários outros caminhos nas seções paralelas (uma… CONTINUA

Palavras, palavras, palavras…

Em geral, os gestos mais facilmente reconhecidos como essencialmente cinematográficos envolvem grandes afirmações em termos de uso do aparato cinematográfico, tecnicamente falando: aquele filme feito em um único virtuoso plano sequência; aquela montagem elíptica radical; aquele plano que capta uma enorme paisagem; aquele movimento “nunca visto” da câmera. A ideia fácil de uma essencialidade cinematográfica se manifestaria em todo tipo de “originalidade” (atenção às aspas, por favor!) que imediatamente recebe o grito reconhecível da plateia: “isso sim é cinema!” (inclusive, algo que ouvimos bastante sobre… CONTINUA

Vaga carne, ou, a paz veste branco

Confesso que o horizonte critico no qual muitas vezes me baseio como critério pode ser resumido pela “invenção de novas formas”, pela expansão de um repertório expressivo de produção de experiência. Com esses olhos, Corra!, de Jordan Peele, pareceria um filme decepcionante. O que faz dele um marco na história do cinema americano, e também um paradigma sobre a experiência negra nos países colonizados, é sua incomum habilidade de organizar o passado, uma porção determinada de já-conhecido, e produzir daí algo talvez sem paralelos. Mais… CONTINUA

Seguir respirando

Numa passagem de seu novo filme, Abel Ferrara começa a falar com entusiasmo sobre Paris, onde está sendo filmado naquele momento. Aí é perguntado sobre Roma, a cidade onde mora atualmente, e fala também das qualidades daquele lugar, finalmente refletindo que também gosta muito de Nova York. Afinal, ele conclui: “quer saber? O melhor lugar do mundo pra mim é onde eu estiver, simplesmente respirando.” Alive in France, título que parece remeter principalmente a uma brincadeira com a maneira como as bandas de rock costumavam… CONTINUA

Um certo olhar (no feminino)

Este ano o Festival de Cannes, como forma de celebrar os seus 70 anos, fez uma adição à sua mais que tradicional vinheta de abertura, na qual degraus saem do fundo do mar até o céu, e chegam na logomarca tradicional da Palma. Em cada degrau, foram adicionados nomes de cineastas importantes na história do Festival, de muitas nacionalidades e épocas. E, no entanto, por mais que o termo em português não tenha gênero, um chocante dado fez-se perceptível nas duas primeiras edições da vinheta… CONTINUA

O autor-criança

É curioso que a competição do Festival de Cannes tenha começado sob o signo de dois filmes que podem ser chamados de “infantis”. Ainda que possa se discutir o quanto cada um deles é mais ou menos adequado para um olhar de criança como espectador, ambos certamente se irmanam a uma perspectiva de mundo totalmente construída a partir do olhar de seus protagonistas infantis, incorporando a experiência de descoberta do mundo como elemento central da composição de suas narrativas. Mas talvez seja igualmente interessante poder… CONTINUA

Formas da deriva

Rever Aloysio Raulino hoje é descobrir um continente inexplorado. Sua obra como diretor é, ao mesmo tempo, um inventário de figuras singulares do povo, esse emblema tão duradouro na história do cinema, e um manancial exuberante de pensamento cinematográfico. Entre os habitantes desse continente (que tantas vezes teve um epíteto: São Paulo), destaquemos três: Deutrudes Carlos da Rocha, baiano, lavador de carros na periferia; Arnulfo Silva, o Fenômeno, escravizado quando criança, hoje “físico orientador da paz de espírito universal”; Rosendo, jovem trabalhador paraguaio, que vem… CONTINUA

Da cosmética da fome à gentrificação da violência

Quando Ivana Bentes escreveu no Jornal do Brasil, em 2001, seu célebre texto sobre a “cosmética da fome”, certo cinema brasileiro de forte apelo comercial buscava explorar, sob novas vestes, territórios à margem da urbanidade burguesa – nomeadamente, os sertões e as favelas – que foram paradigmáticos na constituição da identidade do Cinema Novo. Segundo a autora, ao retomar alguns dos temas tratados no célebre manifesto “Eztetyka da fome” (1965), de Glauber Rocha, alguns filmes de meados dos anos 1990 e do início da década… CONTINUA