Existo, logo enceno

Em tela preta, a voz de Troy Maxson (Denzel Washington) ressoa. Nos segundos iniciais, Um Limite entre Nós (Fences) se apresenta como um filme dedicado à palavra. Ao aparecer a primeira imagem, com dois personagens se movendo pendurados num caminhão de recolhimento de lixo, torna-se também um filme dedicado ao corpo. A soma do verbo com a carne é a base de sustentação do tour de force de Troy como um furacão de emoções que, no cotidiano simples e íntimo de um bairro de Pittsburgh… CONTINUA

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A franquia Resident Evil chega ao fim mais fiel do que nunca, tanto ao mote conceitual de sua proposta funcional – cada filme como uma fase, um sistema fechado de mandamentos formais e referenciais bastante específicos –, como à sua sempre oportuna vocação política. Afinal, nada mais revelador nos dias de hoje do que abrir um filme com a capital norte-americana completamente devastada e recheada de monstros e zumbis à espreita. O apocalipse, como descobrimos neste capítulo final, não é apenas o ensejo perfeito para… CONTINUA

Cuidado, madame

O título escolhido para o lançamento de La Cérémonie no Brasil, Mulheres Diabólicas, funciona como uma espécie de pista falsa sobre o sistema de relações que Chabrol constrói aqui, baseando-se no romance L’Analphabète, de Ruth Rendell. Pista falsa, pois o que pode haver de “diabólico” aqui sem dúvida não é algo da ordem individual, mas sim da teia de relações entre as pessoas e as coisas. A simples história de uma família burguesa que contrata uma nova empregada doméstica (Sophie, numa brilhante composição de Sandrine… CONTINUA

Cool story bro

Em um dos primeiros planos do mais novo filme de Sergei Loznitsa, um pequeno grupo de pessoas se põe à espera. Elas parecem turistas, mas não há pista de onde elas estão. A esta altura do filme, poderiam estar em qualquer lugar: na Disney, no London Dungeon, em um festival de música. Naquele grupo, chama atenção um rapaz em especial, que veste uma camisa com dizeres em letras brancas garrafais: “Cool story bro”. Essa afirmação parece ecoar uma citação hoje já cult no cinema francês,… CONTINUA

“E a tempestade que faz dobrar os dorsos dos operários nas ruas?”

Ficcionalização – “Qual é a primeira pergunta para abrir um negócio?”, pergunta uma professora do Sebrae. – “O que a gente gosta de fazer?”, responde uma aluna. – “Não, isso é um erro, um equívoco natural. Todo mundo gostaria de fazer o que gosta. (…) O que você precisa se perguntar é: o que o mercado precisa?”, direciona a professora. Esse diálogo poderia naturalmente existir na vida real, em qualquer palestra sobre marketing, empreendedorismo ou novos negócios. Apesar de crível, esse mesmo diálogo, em uma… CONTINUA

“Em teu seio, ó liberdade”

Depois de duas cartelas, contextualizando a época da ditadura a um período fértil de filmes populares e eróticos, “chamados pejorativamente de pornochanchada”, o terceiro informe avisa que irá contar a história da década de 1970 através desse cinema. Ou seja, seu princípio será dos filmes como método, e seu interesse está na memória de um país e não no de sua cinematografia. Fica subentendido: isto não é um best of, mas uma investigação histórica dos costumes, “estrelada”, como dizem os créditos iniciais, pelos próprios filmes.… CONTINUA

As passagens

A primeira imagem de A Rotina Tem seu Encanto nos coloca em uma interessante posição na sala de cinema: vemos a imagem de uma fábrica. O plano possui alguns dos habituais elementos do estilo desenvolvido por Yasujiro Ozu – o uso da música leve e prosaica; o enquadramento em sutil contra-plongée; a caracterização simples e minimalista do espaço –, mas o diretor decide posicionar a câmera fora da fábrica, em uma das ruas que cortam seu entorno. A fábrica é apresentada de tal maneira que… CONTINUA

“O silêncio cresce como um câncer”

Um senhor já idoso vive num pequeno vestiário travestido de barracão. Ali passa um barulhento trem, mas nem o alto ruído diário, nem a modéstia da casa o fazem voltar a morar com sua antiga família que em vão tenta abrigá-lo. O terreno é sítio de um campinho de futebol amador, paixão desse senhor já idoso. Enquanto, na substituição de um goleiro, vai imperceptivelmente ganhando um novo filho, sua rotina tem seus dias contados: a empresa dona do terreno cansou de “apoiar” o esporte e… CONTINUA

“Eu sou a lei, foda-se a lei”

De um lado, Corpo Delito lida com um dos temas mais urgentes do país – o sistema penitenciário brasileiro e sua burocracia burra e sufocante; de outro, toca de forma aguda num dos grandes dramas da condição humana – a restrição, neste caso, parcial, do livre-arbítrio. Ivan Silva foi preso. Depois de anos de cadeia e, supostamente, bom comportamento, ganhou o direito à liberdade condicional: trabalha na fábrica-escola e volta para casa de tornozeleira. Em sua rotina, não deve desviar desse trajeto. No primeiro diálogo… CONTINUA

“E uma pequena vos guiará”

Alguns alunos se metem a fazer um filme para um trabalho de escola. A filha pede a câmera ao pai, ele diz que não – “é um equipamento caro” –, ela faz birra. Sem jantar com o resto da família e sem a mãe conseguir convencê-la, o pai vai até o quarto e cede, empresta a câmera. Nunca veremos esse filme – apesar de, ao fim, sabermos que é genial – mas temos algumas pistas: ela vai ao encontro da diretora da escola, da faxineira,… CONTINUA