The Iron Ministry, de J. P. Sniadecki (China, Estados Unidos, 2014)

agosto 17, 2014 em Coberturas dos festivais, Em Campo, Raul Arthuso

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Um trem lotado em alta velocidade
por Raul Arthuso

The Iron Ministry começa e termina com duas imagens abstratas sob sons dessincronizados embaralhados beirando o registro musical: uma série de linhas numa frenética dança desnorteadora, no início; luzes atravessando o quadro em alta velocidade, da esquerda para a direita, no final. Se for possível decifrar a natureza das imagens e seu significado preciso na abstração final, diferentemente do início, quando só é possível, na melhor das hipóteses, se deixar levar pelo fluxo das formas, isso é resultado de uma espécie de reconhecimento proposto pelo filme. No início, The Iron Ministry é um filme de mistério com temperamento instável de seus elementos narrativos: a câmera que não para, tremida, buscando algo a se agarrar; o som um pouco surreal, intensificando os elementos e tirando suas características mais perceptíveis. Quando, nas primeiras cenas, o filme mostra um grande número de pessoas, aparentemente imigrantes, entrando num trem com seus pertences, montadas com imagens de um homem descascando um tubérculo e depois outro revirando a gordura de uma carne, instala-se algo de pós-apocalíptico. Não há personagens e as falas das pessoas são ruídos como quaisquer outros neste trem. Não existem muitos elementos aos quais se apegar, exceto o trem em si: a câmera balança com ele, dá pujança ao som metálico da vibração de suas estruturas e, se o elemento humano contamina o quadro, o faz com lacunas.

Aos poucos, porém, ocorre uma estabilização, tanto temática quanto da câmera. Primeiro, acostuma-se com aquilo que o filme apresenta como mistério, tornando o espectador ciente de que o trem é o dispositivo sobre o qual o filme se desenrola – pouco importa se apenas um ou vários trens, pois existe uma síntese do trem como o espaço privilegiado para captar momentos das pessoas em trânsito por um enorme país. Nesse sentido, ocorre também uma estabilização do olhar: o filme passa a recolher fragmentos da vida humana em meio ao poder da máquina de metal, como crônicas de um trem carregando não só corpos e coisas, mas idéias, histórias e pontos de vista. Mesmo distribuídos a conta gotas, esses momentos são notáveis, pois existe uma aproximação natural e orgânica da câmera com as pessoas: ela adentra rodas de conversa, interpela as pessoas, anda pelos corredores como parte integrante desse universo.

Isso não significa, porém, que The Iron Ministry fique apenas na superficialidade dos assuntos, usando o drama como ferramenta de “humanização dos personagens”, encarando o trem como uma grande arca de Noé da modernidade chinesa. Pelo contrário, os assuntos são pesados: religião; o governo de um partido só, agindo à revelia da população; as dificuldades econômicas; as transformações de costumes e da paisagem (sempre impostas pelo Estado); o trajeto de um país agrário, de economia planificada e gente simples, para uma potência econômica que sofre os impactos da modernização – em uma das andanças da câmera, ela tenta adentrar o vagão restaurante da primeira classe e é impedida pelo segurança, no único momento que alerta para as desigualdades desse trem simbólico mostrado em The Iron Ministry. Um “trem simbólico”, de fato, pois não existe nenhum pudor quanto ao discurso totalizante em The Iron Ministry. Apesar de sabermos a posteriori tratarem-se de diversos trens, o filme lida com suas imagens como se fosse uma única e portentosa máquina.

As personagens, por sua vez, não são identificáveis por seus nomes, mas pelo papel que desempenham nessa comunidade – os jovens, o velho, o guarda, a intelectual – e a própria referência ao conjunto delas como uma “comunidade” já é um ato falho que entrega o lugar para onde The Iron Ministry se encaminha. Distante da alegoria mítica sobre a luta de classes de Snowpiercer, de Bong Joon-ho, que usa o mesmo dispositivo do trem como sublimação do que é mais palpável e material nessa política, The Iron Ministry atém-se à descrição desse trem, seus passageiros – do trem e do filme -, sua palavras, a paisagem que observam na viagem. Enquanto Snowpiercer quer manter sua alegoria como código universal do mundo moderno, The Iron Ministry não esconde sua territorialidade: a primeira cartela de créditos é um letreiro dizendo “Gravado em 2011-2013 – República Popular da China”. Ao referir-se ao país e não aos trens nos letreiros, The Iron Ministry deixa claro o desejo pulsante do filme nesse trajeto de estabilização do olhar: falar mais sobre o que está fora – o país – do que sobre o que está dentro desse trem. Afinal, não seria a China um grande trem lotado cortando a paisagem em alta velocidade?

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