Snowpiercer (2013), de Bong Joon-ho (Coréia do Sul/EUA/França/República Tcheca, 2013)

março 16, 2014 em Coberturas dos festivais, Em Campo, Pablo Gonçalo

* Cobertura do Festival de Berlim 2014

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Os trilhos (circulares) do fim
por Pablo Gonçalo

Vinte minutos a mais ou a menos? Corte do produtor ou do diretor? Foi com essas dúvidas – e cheio de expectativas – que Snowpiercer pousou no Forum da última Berlinale. Conturbado por tantas especulações, o novo filme de Bong Joon-ho parecia ter escolhido um festival como o de Berlim para reiterar, simbolicamente, seu trabalho autoral, cuja produção contou com um elenco majoritariamente ocidental e foi capitaneada por ninguém menos do que Park Chan-wook. Havia, e ainda há, muitas ansiedades em torno do filme. Afinal, são quase cinco anos desde que Mother (2009) foi lançado, e essa última produção, com tons mais catastróficos, chega como um diálogo com O Hospedeiro (2006), filme que, talvez, tenha chamado mais a atenção de um grande público.

Snowpiercer começa em alta velocidade. Entrar no seu enredo e no seu cosmos assemelha-se a embarcar numa poderosa máquina ficcional que aponta para um cenário aterrorizante e desconfortável. Ao embarcar, no entanto, não há mais saída nem retrocesso. Vê-se flocos de neves que crescem e mostram, ao fundo, ruínas congeladas. Escuta-se o uivo, o ruído de trilhos, e um trem preenche o quadro, agressivamente, numa rapidez estonteante. Poucos planos bastam e não apenas entra-se num dos vagões do Snowpeircer como já se percebe a eficaz e requintada delimitação espacial do trem, que abriga os últimos sobreviventes após o aquecimento global. Snowpiercer é um filme com várias geometrias e diversos movimentos sobrepostos.

Inventado pelo engenheiro e empresário Wilford (Ed Harris), esse trem vendeu bilhetes para passageiros como são atualmente vendidos – ou seja, com divisões por classe, com preços e pacotes que dão ou retiram vantagens. Contudo, a viagem por esse cenário pós-apocalíptico deixa essas classes empedernidas, inflexíveis, transforma-as em castas, formas de vida, para quem riqueza e pobreza são reproduzidas durante gerações, a despeito de todas as tentativas revolucionárias. Esse realismo pós-apocalíptico ganha tons de venda, comércio, troca e divisões injustas, nuances de um capitalismo avançado que, mesmo deparando-se com o fim, não acua, não se intimida, e volta a impulsionar sua locomotiva irracional. Snowpiercer é o último trem do capitalismo – um trem suicida.

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Nos seus vagões, a revolução ocorre menos como um gesto utópico do que como uma última inquietação, um desespero, uma vontade de dizer não para o insuportável. É esse o impulso – esse ethos – que habita o olhar de Curtis (Chris Evans), que quer percorrer os vagões para mudar, ainda que em vão, os rumos e a condução política do trem. Bong Joon-ho consegue conotar uma força física entre o trem, os vagões e os corpos; uma força magnética, ficcional e social, que impede, cerceia, expele, pune. Estamos longe, nesse primeiro e mais escuro vagão, das formas suaves de controle, vigilância e punição; a convivência forçada em Snowpiercer levou a um retrocesso à idade média, em que os corpos mutilados – os braços e as pernas dos infratores, que são congelados até virarem caquinhos de gelo – são exibidos como eram, em praça pública, as cabeças guilhotinadas, os corpos esquartejados. No entanto, o caminhar pelo trem, vagão a vagão, nos leva a perceber como os séculos foram diluindo formas de controle mais sutis, tornando-as, muitas vezes, invisíveis.

É como em um sacrifício geracional que Curtis, Edgar (Jamie Bell) e Tanya (Octavia Spencer) decidem atravessar o trem. Mais do que dolorosa e urgente, essa travessia transforma-se num ato de descoberta, de novas camadas de percepção e de movimentação entre o mundo externo e o interno, não dos personagens, mas do trem, como último espaço da Terra ainda habitável. O que vemos é uma fúria parecida com a ira de Aquiles, que contamina esses personagens. Como se fosse necessário sublimar seus corpos, suas vidas e as forças dilapidantes entre os vagões para manter uma réstia de ética e decência que, entre eles, ainda vibra. O vagão destinado à casta mais pobre é todo fechado, sem janelas, sem contato com o mundo lá fora. Numa das sequências mais interessantes do filme, chega-se a ver, novamente, a luz, uma luz fulgurante, que retira o equilíbrio, que, de tão forte, fere a retina.

A trajetória de Curtis e seus outros guerreiros traça o caminho contrário e reverso dos ciclos da Comédia de Dante, ou engendra uma mise en scène a contrapelo, que aglutina elementos mínimos e macroscópicos, como bem salientou Jean-Michel Frodon na sua crítica. Ao invés de uma sublimação progressiva, vê-se uma regressão humana, uma atrofia de valores, como se alcançar o último vagão fosse tocar e perceber o auge da exploração do homem pelo homem.

Contudo, a história em quadrinhos de Lagarce que inspirou o filme de Bong Joon-ho enfatiza uma elite que, em contraste com o inferno da pobreza dos vagões inferiores, é limpa, bem educada, festiva, alimenta-se de forma anti-ética, mas num equilíbrio científico de nutrientes. Retrata-se uma elite alienada, fútil e hipócrita, mas cheia de cores, de forças tecnológicas e cercada por um conforto esnobe frente a pobreza do vagão da casta inferior, como se alcançasse o cenário clean e a limousine de Cosmópolis (2012), de David Cronenberg. Nesse recorte, mostra-se como os últimos humanos sobreviventes reiteram uma autofagia entre a espécie e uma antropofagia entre si, que está dentro de um ciclo de produção, reprodução e, paradoxalmente, sobrevivência. Snowpiercer é o próprio Leviatã, mas a ganância autofágica é mais do que uma contradição: é o motor que move, impulsiona e retro-alimenta o trem. Como um força centrípeta que leva a um buraco negro, sair desse trem sem saída seria a última opção da humanidade, e, ao mesmo tempo, uma trágica extinção dela mesma.

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De todos os personagens, é Namgoong Minsu (Kang-ho Song) quem surge como o mais fascinante. Ao contrário de Curtis, que entra num endógeno e complexo ciclo sucessório, Minsu é o único dos seres humanos do trem que consegue olhar pela janela, que volta a ver o mundo e busca reconectar-se com ele. Ele também torna-se o personagem mais surpreendente. No início, parece restrito a um drogado com fama de ex-cientista e decifrador, mas, aos poucos, percebe-se uma estratégia, uma vontade de fuga e um gesto que negligencia os artifícios sensórios e as regras absurdas do trem para ir além dele. De forma discreta, Minsu é o personagem que busca desatar os grilhões, que mostra-se inquieto em sair da caverna e do mundo de sombras que o trem, ao longo dos séculos, introjetou entre seus passageiros e habitantes.

Permeado por alegorias, referências literárias e filosóficas, Snowpiercer, contudo, é apenas um filme que constrói uma intricada narrativa do fim, do último ato, do último instante. Longe, contudo, do niilismo de Melancolia (2011) ou do salvacionismo metafísico de A Árvore da Vida (2011), a ficção científica de Bong Joon-ho parece propor algo mais simples. Aposta-se mais na ética do que em respostas vãs e generalizantes; numa forma de caminhar, numa preocupação que busca simplesmente voltar a andar, longe dos trilhos do trem, com pernas próprias. Uma aposta ínfima em meio à aporia pós-apocalíptica, na qual as crianças – que possuem um papel tão importante no filme, revelam-se como a força que leva adiante, sintetiza e sublima as contradições de uma herança humana, demasiadamente humana, uma herança pesada, um fardo explosivo, brutalíssimo. 

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