Promised Land, de Gus Van Sant (EUA, 2012)

março 11, 2013 em Coberturas dos festivais, Em Campo, Pablo Gonçalo

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Perguntas e respostas
por Pablo Gonçalo

A carreira de Gus Van Sant costuma oscilar entre filmes mais comerciais e outros que escapam das convenções do grande público. Ele não é o único cineasta norte-americano que transita entre esses pólos e, claramente, essa separação, bem estanque, tende a uma hierarquização simplória e perigosa, como se os filmes mais ousados obtivessem, de antemão, uma aura artística distinta frente aquelas que buscam um diálogo com as convenções. Ledo engano. Numa obra como Psicose, de 1998, Van Sant embaralha todas essas etiquetas dos filmes de arte ou de autor. Nela, o diretor não faz apenas um “remake” do clássico de Hitchcock; ele o copia quase quadro a quadro, plano a plano, como se, ao imitar as convenções, ele pudesse, ali, desdobrar ousadias, como se na cópia deslavada houvesse, quem sabe, também um gesto de aprendizado e resistência.

Juntos com esses passos camaleônicos, chegamos a Promised Land, que abriu a mostra competitiva da Berlinale. Na seqüência inicial, antes dos créditos, entramos num almoço típico de businessmen em Nova York, onde Steve Butler (Matt Damon) consegue um novo emprego na empresa Global – nome sugestivo – que explora energia a gás. Esta será a única cena em que veremos uma cidade grande. Os praticamente noventa minutos do filme ocorrerão num povoado minúsculo, bucólico, onde Butler terá a missão de fechar contratos com os agricultores da região para conseguir explorar suas terras. Logo no primeiro plot, encontramos algumas oposições binárias que serão constantes no filme: o global contra o local; as grandes corporações contra as comunidades desprotegidas; as táticas inescrupolosas do capital contra um romântico espírito de cuidar da terra.

Ao chegar na comunidade, Butler se depara com um movimento de resistência à empresa. Inicialmente, a desconfiança é apenas residual. Contudo, aos poucos, ela torna-se crescente e chega a um ápice que passa a dificultar e mesmo impedir os objetivos de Butler. Nesse diapasão, encontramos o ecologista Dustin Noble, o clássico antagonista do homem de negócios, bem interpretado por John Krasinski. Aos poucos, a comunidade torna-se o palco por uma disputa de discursos – e aqui, nesse duelo, encontramos o melhor de Promise Land. Trata-se de um filme que aborda estratégias, métodos e forças de persuasão. Butler dialoga com todos que pode, oferece uma riqueza possível, num futuro próximo, imediato, sugere uma boa educação aos filhos daquela comunidade que convive com hábitos simples e pacatos. Dustin Noble, o ecologista, por outro lado, chega com mais sedução performática. Encena, encanta, cria imagens, cartazes, slogans e acaba convencendo mais que os métodos tradicionais e prosaicos de Butler.

Sutilmente, Van Sant mostra como há, ali, por trás de toda aquela rede de discursos, formas de estratégias de convencimento que levam os indivíduos a lidarem com construções de verdade. Em pauta, nas assembléias, o futuro da comunidade. De forma binária, a dramaturgia expõe tanto os perigos do “progresso” e do desenvolvimento, eivados por uma ganância individual por dinheiro, quanto, paralelamente, a vontade de manter a terra intacta e escolher, de fato, por uma vida mais simples, com um conforto franciscano talvez mais harmônico com a natureza. Promised Land, assim, enfatiza os atores e o teatro que manipulam o futuro de uma comunidade. É aqui que encontramos sua força e sua atualidade. O roteiro assinado pelos atores John Krasinski e Matt Damon toca num tema atual e urgente. O curioso, porém, é vê-lo retratado em terras norte-americanas, já que no contexto brasileiro e dos nossos vizinhos esses conflitos entre corporações e comunidades têm capítulos dramáticos estampados cotidianamente nas manchetes dos jornais.

Ainda que premente, a força do tema não é o bastante para conduzir o filme de Van Sant com autonomia. Aos poucos, o dilema da comunidade se desdobra num conflito interno de Steve Butler. Ele precise decidir de que lado ficaria – entre a comunidade ou o capital globalizado, numa escolha por demais maniqueísta, que é concentrada na paixão despertada entre Butler e Sue Thomason (Frances McDormand). No entanto, esse conflito é tecido de forma precipitada e acaba titubeando na sua força de convencimento. São vários os momentos de Promised Land em que as artimanhas dramatúrgicas e de roteiro ganham uma mão pesada demais e parecem artificiais frente um contexto histórico tão real e delicado. O filme é um bom retrato de táticas, mas um manifesto tortuoso e maniqueísta que acaba por trazer uma anestesia política. Sintomaticamente, ele parece acreditar pouco num poder de resistência e autonomia de decisão da comunidade, que está sempre desorganizada, dividida, e sendo pautada de fora para dentro.

Ainda assim, o seu melhor instante dramático é quando Frank Yates (Hal Hobrook), um velho professor de ciências e um pesquisador aposentado, simplesmente questiona, na assembléia, sobre os riscos das conseqüências da exploração da terra da comunidade. Uma simples pergunta, quando bem feita, pode colocar em crise todo o teatro, os atores, as táticas e a força de persuasão da grande corporação de The Promised Land. É esse o gesto de resistência a ser guardado do filme. Promised Land toca em dilemas éticos urgentes do nosso cenário contemporâneo, mas acaba acertando mais quando pergunta do que quando decide responder.

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