Jogo das Decapitações, de Sergio Bianchi (Brasil, 2013)

outubro 3, 2013 em Cinema brasileiro, Coberturas dos festivais, Em Campo, Filipe Furtado

jogo1

Uma antena atrofiada
por Filipe Furtado

É impossível assistir a Jogo das Decapitações hoje e divorciar o filme de todo o contexto no qual o Festival do Rio acontece este ano. Trata-se de um filme que se torna, ao mesmo tempo, muito mais rico e muito mais deprimente por chegar até o espectador num momento tal que, enquanto o filme passava nas telas do Cine Odeon pela primeira vez, o governo carioca reprimia de forma violenta uma manifestação de professores de ensino público em greve. As imagens dos streamings da web e os relatos dos amigos presentes ecoam de forma inevitável sobre este último relato de inoperância brasileira que Bianchi urge aqui, no seu explícito desejo de sugerir uma história que se repete incessantemente sem grandes variações. Se, por exemplo, as sequências com o grupo de ex-presos políticos poderiam, quando filmadas, parecer somente mais uma das muitas caricaturas grosseiras que se multiplicam na filmografia do cineasta, vistas hoje elas não deixam de ecoar os muitos artigos produzidos nos últimos meses que tentam usar a muleta do envolvimento do autor na história para desqualificar as manifestações recentes de acordo com os interesses ideológicos e/ou econômicos do articulista.

Se há uma qualidade inegável na obra de Sergio Bianchi é justamente a facilidade do cineasta captar inquietações e questões do seu entorno e cuspi-las para dentro do seus filmes. É o que garante que, com todos os seus defeitos, Cronicamente Inviável será sempre um filme incontornável quando pensarmos o cinema brasileiro durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Jogo das Decapitações não tem a mesma ambição totalizante do filme mais celebrado de Bianchi, mas parte de um desejo similar de jogar na tela as fissuras do governo Dilma. A maior qualidade do filme nasce justamente desta capacidade do cineasta de servir de antena, de localizar o ressentimento geral e devolve-lo em filme num ressentimento autoral.

Só que este é também o seu limite. O primarismo de Jogo das Decapitações o impede de ir além disso. Se o filme é história de uma tragédia, esta não é a do país, mas a do cinema brasileiro. Mais do que uma oportunidade perdida, o novo filme de Sergio Bianchi é um dos exemplares mais bem acabados da incapacidade do cinema brasileiro contemporâneo de dar formas para questões nacionais. A primeira percepção nunca chega a um filme.

Jogo das Decapitações parte de um terreno já muito trafegado pelo cinema brasileiro: as memórias da ditadura, o filho que procura recuperar a história do pai, o encontro de gerações, etc. O filme tem o mérito inegável de encará-los com um olhar de hoje que evita a moldura que arruina a maioria das nossas ficções históricas. Sergio Bianchi sabe que seu filme é eminentemente histórico, e não lança mão da mesma História para buscar uma relevância escorada, apenas permite que ela chegue até ele. Seu olhar é, como sempre, de um cinismo muito limitado, sua história se desdobra em pura atrofia, um jogo de ecos e repetições frustrantes… mas, se falta ao filme um frescor de olhar, resta-lhe o mérito de, mesmo que de forma tateante, encará-la de frente. Nos seus momentos mais grosseiros, Bianchi pode soar como uma versão inteligente do Leandro Narloch, mas sua percepção é muito mais apurada e, em meio a alvos fáceis e ao desejo de pretenso iconoclasta de se atacar a tudo (e seu efeito inevitável de com isso não atingir ninguém), esta sua capacidade de servir de antena encontra alguns momentos de força.

jogo3

Como sempre, em Bianchi, a dramaturgia se perde num teatro pueril. A preguiça de encenação dá o tom. Se Os Inquilinos (2009) sugeria um novo movimento na filmografia do diretor – com espaço para uma ficção mais potente, se pouco sutil, que fosse contaminada por esta qualidade ressonante – Jogo das Decapitações retoma o mesmo didatismo ilustrador que sempre marcou seus filmes. É um filme pedagógico, mas Bianchi não é um cineasta pedagogo no sentido de um Rossellini, mas um ilustrador de planilhas de Power Point. Não se apreende nada em Jogo das Decapitações. Desde sua introdução ao protagonista– um mestrando tratado pela mãe como um aluno de primeira série, o que não deixa de ser uma tradução ideal para a pedagogia bianchiana – ditando um gráfico com as varias facções de extrema esquerda da virada da década de 1960 para a de 1970, tem-se sempre a certeza de que estamos diante de um filme menos interessado numa expansão de olhar do que em uma limitação.

No centro de Jogo das Decapitações está Jairo Mendes, artista iconoclasta, figura do desbunde, provocador entre ideologias, e seu filme maldito (também chamado Jogo das Decapitações) perdido, e que Bianchi retoma vários vezes em pequenas sequências. São pastiches de um imaginário de cinema radical, menos vigorosos do que desejam – sua provocação será sempre ilustrativa – mas são nestes pequenos trechos do filme dentro do filme que O Jogo das Decapitações encontra-se mais encorpado, em sequências como aquela em que recebemos uma aula de como preparar um explosivo caseiro. Se Jairo Mendes sugere uma figura como a do poeta e ator Orlando Parolini, é também inegável o desejo de Bianchi, o grande provocador, de traçar um paralelo que sugira que o desejo de existir para além dos olhares ideológicos medíocres de Mendes é como um parente distante do seu próprio cinema.

Só que este desejo esbarra no limite de todos os filmes recentes de Bianchi: uma autoconsciência da sua posição na conjuntura do cinema brasileiro. No final das contas, Jogo das Decapitações sabe ser um filme servil, ocupa o seu lugar na estrutura do cinema brasileiro e desaparecerá como tantos outros sem abalar ninguém. Se a menção de Parolini traz à mente Carlos Reichenbach, é difícil não pensar numa versão de Jogo das Decapitações realizada por um cineasta como Carlão ou Edgard Navarro, para os quais representar tal universo e sua ressonância é sempre um processo dotado de dor e vigor genuínos.

Um dos elementos que primeiro chamam a atenção no filme é justamente o espaço entre as representações do filme dentro do filme e do didatismo das cenas atuais. O tempo presente de Jogo das Decapitações tem somente dois registros: a histeria das caricaturas (sobretudo no núcleo da mãe) e torpor de Fernando Alves Pinto, que mantém a mesma expressão apalermada independente da situação que o filme lhe lança. Se Jogo das Decapitações tem o mérito da percepção, falta-lhe por completo o da representação. Há um fracasso – tanto de olhar como de encenação – que encerra qualquer chance desta percepção se transpor na tela. Daí a importância, para o filme, de estrear num contexto que valorize a fissura que Bianchi reconhece. A fragilidade do seu mundo, a inércia com que o filme chega por fim nele, pede por um extracampo que lhe devolva a relevância. A lógica de Jogo das Decapitações é do mais puro exploit: seus planos ilustrativos ao final constróem menos um mundo do que sugerem uma forma de mercantilizar essas fissuras. O filme pode desejar se aproximar do pai artista maldito, mas sua lógica está muito mais próxima da dos dissidentes políticos satisfeitos com suas indenizações tardias.

jogo2

Por tudo isso que Jogo das Decapitações se revela sobretudo uma experiência frustrante, uma oportunidade perdida. Mais do que qualquer outro filme brasileiro recente, ele ilustra bem nossa incapacidade de chegar a questões e dar a elas um corpo e uma representação. Delineia-se um problema, mas não se pode chegar um olhar, pois antes é necessário existir numa estrutura de cinema brasileiro que age sempre como um entrave. Sergio Bianchi pode ter bem mais qualidades do que um Toni Venturi, mas não escapa-lhe a mesma lógica. Que fique claro que o problema não é simplesmente de cinismo do diretor – que pode ser questionado sempre, mas é apenas uma forma de olhar -, mas de uma incapacidade de registro anterior que atrofia mesmo este olhar cínico. Reconhece-se, ali, o sentimento de insatisfação, a violência da policia, a descrença nas instituições de todo o tipo, mas estes sentimentos chegam ao espectador sem o sangue, violência e dor que pedem. São dados para serem estudados e comentados somente. Não à toa, na hora que o pau comia solto na Cinelandia e que o mundo ameaçava invadir o Odeon, a preocupação maior era de baixar as portas e garantir que o espetáculo siga. O compromisso de Jogo das Decapitações é com os coquetéis, não com as ruas.

Share Button