Harmony Lessons (Uroki Garmonii), de Emir Baigazin (Cazaquistão/Alemanha/França, 2013)

março 11, 2013 em Coberturas dos festivais, Em Campo, Pablo Gonçalo

harmonylessons

Antecâmara de violência
por Pablo Gonçalo

De todos os filmes da Mostra Competitiva desta Berlinale, Harmony Lessons chama a atenção por alguns aspectos externos que merecem certo destaque. Primeiro, é um filme de um diretor jovem, por volta dos 30 anos, nascido no Cazaquistão, local onde também rodou esse seu primeiro longa-metragem. Emir Baigazin foi selecionado em 2008 pelo Berlin Talent Campus e conseguiu um financiamento da Berlinale para realizar este filme, o que, em parte, explica sua seleção. Assim, ele se insere num inteligente modelo cultural de valorização de artistas novos e emergentes, vindos de “países periféricos”, mas legitimados pelos grandes centros europeus. Um modelo de co-produção comum em vários outros festivais internacionais de renome. Além disso, Harmony Lessons é uma obra que não se preocupa exatamente em narrar uma história apoiando-se num arco dramático, gesto raro nos filme da competitiva, mas, diferentemente, ele se joga na aventura de criar quadros ou uma gama de sensações guiadas por uma fotografia imponente e convidativa.

O filme nos apresenta Arslan (Timur Aidarbekov), um jovem adolescente, de 13 anos, que sofre de transtornos para controlar tudo que está ao seu redor. Ele é humilhado por seus amigos da escola – algo que talvez chamaríamos como bullying, mas que possui um ar cotidiano e normal na pequena comunidade onde vive. Aos poucos, chegamos ao tema central do filme: a violência física e simbólica que se instaura entre adultos, adolescentes, animais, a natureza. É uma violência um tanto normal, que, como a própria aula sobre Darwin que vemos no filme, parece guiada por uma seleção natural, na qual persevera a sobrevivência do mais forte. Os planos que vemos realçam as aulas, um tanto absurdas; sessões de brigas, lutas, torturas, contornadas pelo plot central do filme que só se revelará de forma completa no seu final. Ora de forma explícita, ora mais latente, a violência está sempre presente e é a resposta íntima em Arslan que o filme retrata.

A primeira seqüência do filme é ilustrativa dessa forma de composição. Vemos o próprio Arslan atrás de uma simpática ovelha. Ele a laça. Amarra sua boca. Prende bem sua cabeça entre os braços. Tira uma faca e a degola. A sua avó está ao seu lado e lhe dá regras e orientações de como proceder nesse instante, enquanto o animal agoniza nos seus braços. Depois de morta, ele pendura a ovelha numa árvore, a descarna, tira, lentamente, seus órgãos, suas entranhas, para deixar expostas apenas a medula e a cartilagem ancilar. Descrita assim, a cena pode parecer violenta ou sangrenta, mas Arslan faz todos esses atos com uma normalidade bem comum para as sociedades rurais, onde a morte de animais de quintal faz parte do cotidiano. Em outro momento do filme – depois de uma aula sobre Gandhi, Arslan pergunta à sua avó se é possível ter uma vida sem comer carne. Após um silêncio, ela responde: “sim, no paraíso”.

Harmony Lessons aborda o mundo violento concreto e os desvarios de um adolescente solitário, na resposta íntima que ele traça dentro do seu quarto. De forma curiosa, Arslan coleta vários insetos e animais para criar um microcosmos entre quadro paredes, onde é ele mesmo o artífice da violência que mimetiza. Assim, ele inventa torturas, armadilhas e encontros entre insetos e lagartos – e passa a observar a interação desses contatos da natureza. Como se fosse uma antecâmara – um voyeurismo da violência muito próximo daquele experimentado pelo espectador desse filme – a violência, ali, transforma-se num ciclo mimético. Como se o ambiente natural e social de Arslan fosse essencialmente violento e ele tecesse, no seu mundo tranqüilo, um pequeno teatro, um pequeno cinema da luta pela sobrevivência que o rodeia.

No entanto, o melhor de Harmony Lessons concentra-se no seu recorte visual. Temos poucos mas rebuscados planos gerais que realçam a interação de Arslan com seu meio. Uma interação prenhe de mistérios e bonita de ser vista. Quando digo recorte, penso tanto no enquadramento como na narrativa, que sabe se colocar com muita propriedade entre os quadros, entre as imagens, nas elipses, nos raccords discretos que coligam e dissolvam o filme. A violência é sublimada pelos estranhos devaneios poéticos do adolescente Arslan. Emir Baigazin, assim, revela-se um diretor que situa-se com segurança nessa narrativa por meio de uma escritura visual. Ainda jovem, ele começa a construir uma obra que merece ser acompanhada com atenção.

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