Imagens no tempo
por Fábio Andrade
O cinema não é somente uma arte do tempo, mas, como qualquer produção de cultura, também uma arte no tempo. Se há sentido, como acreditamos haver, em não só lidar com o cinema do presente (cinema este que lida, inevitavelmente, com tudo que lhe foi passado), fazendo as escolhas e apontando os caminhos possíveis em um labirinto que se rearranja drasticamente a cada segundo, mas também em voltar os olhos para o passado, é porque os filmes e a compreensão corrente sobre eles se transformam ao longo do tempo. Assistir a Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder, ou a Brasil Anos 2000, de Walter Lima Jr., hoje, por exemplo, pode gerar impactos e iluminações mais ou menos distantes das impressões correntes à época de seu lançamento. Ainda assim, independente do grau de proximidade, é certo que essas impressões, mesmo quando parecidas, avizinhadas, serão fundamentalmente outras.
No trabalho cotidiano, essa vocação revisionista da crítica se manifesta em ao menos duas instâncias diferentes. A primeira está em, neste movimento de olhar para trás, perceber filmes, autores e recortes que, por inaptidão, impossibilidade, inevitabilidade, falta de vontade ou incompatibilidade de valores, não foram percebidos pela crítica à sua época. A revisão, neste caso, se aproxima de um trabalho de prospecção com fins históricos – uma revisão dos filmes mas, ao mesmo tempo, uma revisão das escolhas da crítica que lhes foi contemporânea. A segunda diz respeito à própria idéia da duração como algo mutável, em que os pequenos pontos neste grande contínuo alteram a percepção do contínuo, e, por consequência, alteram também a percepção destes mesmos pontos. Assistir a Quanto Mais Quente Melhor ou Brasil Ano 2000 hoje é diferente de assisti-lo à época de seu lançamento, pois o regime estético que media o gosto e o contato com a obra é inevitavelmente outro. Mesmo quando há um esforço ou uma coincidência de predileções em diferentes momentos históricos, é inevitável que este reencontro seja desigual, que a perspectiva sobre o passado carregue outros dados que são sempre inacessíveis à concomitância do presente.
Nesta edição da CINÉTICA, há pequenas intromissões desse revisionismo deslocado no tempo em praticamente todas as seções. A começar pelo especial sobre o cinema de Kiyoshi Kurosawa na EM PAUTA, cineasta que nos move à palavra com a necessidade de sanar uma dívida não só da Cinética, que havia publicado textos (e republicados agora) sobre apenas dois de seus mais de trinta filmes de longa-metragem, mas da crítica contemporânea em geral: dada a envergadura de sua obra artística, é aterrador perceber o quão pouco de realmente detido foi escrito sobre seus filmes, determinando, inclusive, uma série de más leituras (é sempre curioso rever um sem número de críticas que apontavam um desvio do cinema de gênero em Sonata de Tóquio, seu último longa-metragem, enquanto toda sua carreira é pontuada por desvios semelhantes, igualmente eloquentes). Preguiçosamente atrelado ao nicho específico do cinema de gênero pelo senso comum, Kurosawa é um dos mais expressivos autores dos últimos vinte anos, com uma obra vastíssima que reserva múltiplas perspectivas para um mesmo gesto: olhar para o presente à luz do passado, do tempo acumulado que encontra possibilidades de manifestação no “agora”.
Esse mesmo sentimento se faz presente, com maior nitidez, nesta edição da EM CAMPO. Em parte, ela nasce da vontade de alguns anos de se debruçar sobre os meandros da preservação audiovisual no Brasil, motivado também pelas idas da revista à Cine OP – festival de Ouro Preto dedicado à discussão da questão da preservação. Esse desejo se esboçou de maneira mais ativa no ano passado, em que um enfrentamento mais claro entre a então Secretária do Audiovisual, Ana Paula Santana, a Cinemateca Brasileira e a comunidade de preservadores, em um encontro público na Cine OP, nos levou a fazer uma série de entrevistas com profissionais do meio. As entrevistas foram temporariamente engavetadas, e, neste meio tempo, uma mudança radical no cenário da preservação foi sentida no curto espaço de um ano, começando por uma mudança na presidência da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA), outra no Ministério da Cultura e na SAV, a exoneração do então diretor da Cinemateca Brasileira, Carlos Magalhães, e uma mudança de rumo clara das diretrizes do Ministério da Cultura para a área.
A última Cine OP foi marcada por um depoimento franco de Ismail Xavier, presente na Mostra como representante da Sociedade Amigos da Cinemateca, que trazia as discussões em torno da instituição para um nível de clareza e transparência muito distinto do nevoeiro imposto nos últimos anos. Como a fala de Ismail não foi ainda publicada na íntegra, limitada a relatos pontuais mas também esclarecedores, conversamos com Hernani Heffner – curador-chefe da Cinemateca do MAM e atual presidente da ABPA – para fazer um balanço dos últimos acontecimentos, conversa que publicamos aqui como uma entrevista. No desejo de evidenciar as mudanças acontecidas neste último ano, recuperamos a ainda inédita entrevista que fizemos com Rafael de Luna, do blog Preservação Audiovisual, na Cine OP do ano passado. Colocados lado a lado, os dois depoimentos ajudam a clarear a conjuntura atual e melhor compreender os processo pelos quais passa a área.
Além disso, na mesma EM CAMPO, temos uma cobertura da mostra histórica da Cine OP – que reuniu filmes do contexto do golpe militar de 1964, como Terra em Transe, Brasil Ano 2000, El Justicero e diversos outros – e um ensaio motivado pela retrospectiva integral de Billy Wilder, realizada pelo CineSESC, em São Paulo. E como o campo é também território crítico, na mesma EM CAMPO publicamos uma reflexão a partir de comentários recentes do crítico Jean-Claude Bernardet sobre as comédias brasileiras recentes, à ocasião do lançamento de De Pernas para o Ar 2.
Na EM VISTA, quatro filmes distintos ganham nossa atenção. Leviathan, de Lucian Castaing-Taylor e Véréna Paravel, é a última produção do Sensory Ethnography Lab, de Harvard, que já tinha rendido obras sobre as quais nos debruçamos, como Foreign Parts e Parque do Povo. Apesar de o filme ter distribuição garantida no Brasil, a força da experiência de assisti-lo suscitou a urgência das palavras como um testemunho imediato de seu impacto presente. Além disso, há outros três textos sobre filmes em que o revisionismo da trajetória do artista e da própria história das representações se colocam como questão central: A Bela Adormecida, telefilme mais recente de Catherine Breillat; Branca de Neve, monumento do fora-de-campo de João César Monteiro; e Nada Levarei Qundo Morrer Aqueles que mim Deve Cobrarei no Inferno, curta-metragem de Miguel Rio Branco.
Mesmo no EM CARTAZ, momento mais tipicamente afixado no presente do circuito exibidor, alguns filmes nos chamam atenção também por essa relação móvel com um passado – mais remoto, ou mais recente. Em destaque, temos três textos sobre A Bela que Dorme, mais recente filme de Marco Bellocchio, a partir da eutanásia de Eluana Englaro, um dos maiores nós midiáticos do passado recente da Itália. Em debate, com dois textos, Tabu, de Miguel Gomes retoma o colonialismo português e o cinema silencioso de uma perspectiva presente. Há também textos para Antes da Meia-Noite, de Richard Linklater, filme que desfia uma relação cinematográfica paulatinamente construída nos últimos dezenove anos; Amor Profundo, retorno de Terence Davies à ficção que inventaria e atualiza os preceitos do melodrama clássico; e, ainda, discussões que circundam a relação do autor com as idéias de História, trajetória e obra, em textos sobre Depois da Terra, de M. Night Shyamalan; Os Amantes Passageiros, de Pedro Almodóvar; e Jards, de Eryk Rocha. E como a revista também não se isenta dos efeitos do tempo, parece importante frisar a decisão por não republicar textos já escritos sobre três filmes brasileiros que entraram recentemente em cartaz: Elena, de Petra Costa; As Hiper-Mulheres, de Carlos Fautos, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro; e A Cidade é uma Só?, de Adirley Queirós. Por mais que nos interesse o contato menos mediado que as primeiras exibições permitem (ocasião em que os textos foram escritos, e eles seguem em nosso arquivo para quem quiser lê-los ciente deste contexto), ao relê-los foi inevitável a percepção de que este, mesmo que breve, intervalo havia alterado significativamente os filmes e os textos, exigindo retomadas e revisões que esperamos cumprir em breve, como fizemos, nesta edição, com Noites de Reis, de Vinícius Reis.
+ CINÉTICA