Adeus à Linguagem (Adieu au Langage), de Jean-Luc Godard (Suíça/França, 2014)

setembro 18, 2015 em Em Cartaz, Raul Arthuso

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Vertigem
por Raul Arthuso

Adeus à Linguagem é um filme de desdobramentos. Assistí-lo é como abrir uma série de caixas dentro de outras caixas, mas, em vez de desvelar camadas, a cada abertura se é jogado novamente para o começo. Logo no início, Godard joga uma cartela de citação significativa: “Tous ceux qui manquent d’imagination se réfugient dans la réalité”. A falta de imaginação leva ao refúgio na realidade. Mas o que são imaginação e realidade? O filme, partindo dessa questão, é um labirinto borgiano, onde os caminhos levam a descaminhos mais tortuosos, que ressignificam todo o trajeto. Adeus à Linguagem é o caminhar por uma biblioteca infinita de citações, situações e imagens, um jogo táctil, quase infantil, de brincar com os materiais disponíveis.

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Em sua entrevista para a Cinética, Nicole Brenez atenta para o impulso godardiano de ter sempre o último aparato tecnológico para experimentá-lo antes de todo mundo. Adeus à Linguagem é todo contaminado por esse prazer da experimentação com a estereoscopia. Ou melhor, enquanto espera-se de Godard a exploração dos limites do 3D, ele extrapola os sentidos das próprias coisas, deixando à tecnologia seu papel no espetáculo, consciente dessa dimensão do cinema, seguindo, com a dialética própria de Godard, o protocolo pirotécnico do filme 3D. Pouco importa a tecnologia na alegria de ver o filme; Adeus à Linguagem é sobre as coisas, e não sobre esta em particular. Mas, por outro lado, é também sobre esta coisa – a tecnologia – então ela importa.

Pois, muitas das discussões sobre o 3D se voltam em torno de seus efeitos espectatoriais, como a profundidade, a nitidez, a distorção da luminosidade e das cores, em relação à visualidade “normal”. Seria a tecnologia um afastamento ou aproximação da experiência visual do mundo? A profundidade na tela de cinema acrescenta ou subtrai “efeitos de realidade”? – como a discussão sobre o som e a cor em suas respectivas épocas. Resumindo: imaginação e realidade. Adeus à Linguagem repõe o questionamento anterior à tecnologia, detendo-se no pensamento, na constituição das coisas: é possível produzir um conceito do raio que o parta? Desde a discussão da função táctil do polegar – que logo em seguida aparece, passando imagens num smartphone – até o assombro diante da vitória democrática de Hitler na Alemanha, o filme transita pelas coisas como numa viagem de reconhecimento. Mais uma vez: abrindo esta caixa dentro de outra caixa desdobrando-se em outra caixa ainda. Como o último dos pré-socráticos (e eles não seriam mais necessários que nunca?), Godard volta às questões anteriores, rediscutindo o primordial, talvez única possibilidade de entender tempos que parecem os finais. Derrida encontra seu fim na latrina quando o homem reflete sobre a natureza da arte enquanto a mulher só quer que ele termine logo suas necessidades para não atrasarem para seu compromisso. Do barro viemos, ao barro voltaremos – refletindo. “Le mot/La mort“, a palavra e a morte, trocadilho que surge na metade da projeção e que parece sintetizar uma série de dualidades trabalhadas ao longo do filme: metáfora/natureza; imaginação/realidade; alma/corpo; ser/estar. A morte, igualando todos os homens, encontra a linguagem, a diferenciação. Dialética mon amour.

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Um plano detalhe em Adeus à Linguagem, perdido em meio ao turbilhão textual do mais novo filme de Godard, parece apenas um corriqueiro plano de profundidade no experimento em 3D do mestre francês: três metades de laranjas repousadas sobre uma pia, fundidas à imagem de uma faca sobre um fundo vermelho. A faca parece atravessar as frutas enquanto a transparência da imagem faz o fundo vermelho se liquefazer como sangue. Esse plano de elementos estáticos, sem nenhuma ação que não a fusão de duas camadas de imagem no recurso de estereoscopia, coloca uma questão central no filme. Trata-se de uma natureza morta, um gênero tradicional da pintura européia cujo tema era um arranjo de frutas e objetos de mesa, de modo a permitir ao artista o trabalho sobre a composição dos elementos, as formas do traço e as cores. Por outro lado, é uma natureza morta literalmente: as laranjas sangram pela ação da faca. E, apesar de morta, é uma natureza viva de sugestões de ação e significados. Nesse plano, convivem duas naturezas: a literal, conotativa, o visível; e a metáfora, denotativa, a invisível. A questão em Adeus à Linguagem é, contudo, menos a dualidade; seu problema é o quanto o literal é metafórico, e o visível, invisível.

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Assim, as citações se repetem (“Monsieur, est-ce qu’il est possible de produire un concept d’Afrique?”) com novos significados provocativos: as palavras incidem em diversos momentos como boutades típicas do cinema godardiano recente (Adieu Ah Dieu), as cenas se duplicam, a floresta reaparece com cores distorcidas, o casal protagonista se mantém ao longo do filme sob a pele de atores diferentes, e até mesmo o plano se desfaz em dois – por duas vezez! – a partir de uma panorâmica que desmembra e outra que reintegra a imagem, efeito físico na visão possível a partir da virtualidade da imagem estereoscópia (também ela um conjunto de duas imagens deslocadas no espaço de cor). A estrutura do filme é seu desdobramento primordial, como duas faces da mesma moeda, Natureza/Metáfora, repetindo-se, transformando esses lados num aparato de difícil definição. Afinal, existiria uma moeda de quatro faces, repetidas, distorcidas, ressignificadas a cada novo lance para o ar?

Falar em reflexão e de todas essas dualidades é fundamental para entender Adeus à Linguagem. Esta é uma obra de duplos: as duas camadas da imagem estereoscópica, cor e monocromia, homem e mulher, palavra/texto e imagem, animal e humano, civilização e barbárie. Nada acontece no filme que não se repita como farsa ou revele outra faceta desse grande trocadilho estrutural, se transformando ao longo do filme, ainda que mantenha os mesmos dados. Esse jogo de configurações dos mesmos elementos aproxima o filme de Um Corpo que Cai (1958), obra-prima em torno do duplo e seu fascínio que espelha a própria natureza do cinema. Como em Hitchcock, a estrutura duplicada é um grande jogo de dúvida, questionamentos, uma investigação, na qual Scotty está omitido enquanto personagem, transferido para além da tela. A busca pela verdade e seu fascínio é a do espectador diante da obra de Godard. Adeus à Linguagem se apropria da lógica do duplo hitchcockiano para estilhaçá-la num jogo de desdobramentos.

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Mas Um Corpo que Cai é também sobre a vertigem desse fascínio, a problematização da visibilidade e sua sedução, de onde advém certa cegueira. O filme de Hitchcock atenta também para a natureza física dessa relação. Adeus à Linguagem se alinha a este ideário, colocado à prova em cada novo filme do mestre inglês, do ato de ver um filme como uma solicitação de todo o corpo – sem cadáver não há crime, assim como sem presença diante do filme não há emoção. Godard joga com o espaço da tela e dimensões de profundidade variadas, destrinchando o plano em imagens com texturas de naturezas distintas – celulares, HD, televisão, fotografias, material de arquivo vindo da película – além de brincar com a espacialidade das caixas de som do sistema Dolby, solicitando a presença do corpo diante do filme. A sensação é de vertigem diante das imagens com entranhas expostas, dos sons que se movimentam no espaço da sala, recheados de uma série de citações, comuns ao opus godardiano, aqui trazidos para uma chave cômica fulminante: Mary Shelley e Eles Vivem (1988) apenas com a mudança de cor para preto-e-branco no mesmo plano da cadela Roxy. Assim, Adeus à Linguagem é construído como uma fuga, com sessões, idas e vindas de temas, repetições e modulações de escalas, cores, texturas; contrapontos visuais e sonoros; e momentos de pura articulação virtuosística, numa mistura atordoante e engraçada, espiritual e física, repleta de vulgatas profundamente filosóficas.

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Além de tudo – ou seria principalmente? – um filme divertido, e outra vez é possível aproximá-lo de Um Corpo que Cai. Seu humor é de dupla natureza: por um lado, pede, sem alardes, que o espectador desconfie do que está na tela; por outro, coloca o espectador num esquema de armadilhas que o faz mergulhar no filme e suspender a descrença. Afinal, em Adeus à Linguagem nada é estável exceto a instabilidade. Então, Godard traz à baila a literatura, a filosofia e, especialmente, a pintura moderna para fazer troça do espectador que busca, como Scotty no filme de Hitchcock, ligar os pontos. Isso se torna especialmente curioso no caso de Roxy, talvez o mais estável dos elementos. Godard constrói em dado momento uma reflexão sobre a incapacidade do homem em ver o mundo, utilizando imagens de Roxy caminhando à beira do lago, olhando para o horizonte, “contemplando”. Na continuação, a narração sugere a necessidade de ver o mundo por um olhar mais “natural”, levando a crer que as imagens de natureza com cor distorcida são essa visão do cão, do animal, do selvagem, o olhar “natural”. Mas Roxy não observa, não tem voz, pelo contrário: Roxy é olhada, observada, tornada parte do cenário e construída como a única personagem de fato. A cadela é objeto de reflexão e fascínio, sua alma sendo investigada pelas diversas imagens. Roxy é a Madeleine de Godard em Adeus à Linguagem. A metáfora está construída, é a natureza da linguagem. A ação do ironista, nesse caso – e, por extensão, de todo o filme -, é fazer crer que a construção é natural, essencial. Mas a pergunta que reverbera ao longo do filme a partir de todas as repetições e desdobramentos é exatamente “o que é natural?”. De Hitler, da troca de imagens por celulares, das “reencenações” de motivos da pintura impressionista, o filme dá a ver, mas, ironicamente, pede a desconfiança. O que é natural? Não é difícil imaginar Godard rindo dos inúmeros textos que buscam dar conta dos sentidos de seu filme – inclusive este, se lesse português – enquanto fuma um charuto. Seria muito natural.

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