A História da Eternidade, de Camilo Cavalcante (Brasil, 2014)

agosto 9, 2014 em Cinema brasileiro, Coberturas dos festivais, Colaborações especiais, Em Campo

ahistoriadaeternidade1

A Eternidade conta uma história
por Marcelo Miranda (colaboração especial)

“Na reverberação do sol, a planície parecia uma lagoa transparente, desfeita em vapores por onde se transluzia um horizonte acinzentado. E mais além, uma linha de montanhas. E mais além ainda, a mais remota lonjura. (…) Naquela hora, fui andando pela rua principal. Olhei as casas vazias; as portas cambaias, invadidas pela erva. Como foi mesmo que aquele fulano me disse que essa erva se chamava? ‘A capitânia, senhor. Uma praga que só espera que as pessoas saiam para invadir as casas. O senhor vai ver’.”

(Pedro Páramo, de Juan Rulfo)

A escolha pelo artigo definido para o título deste primeiro longa-metragem de Camilo Cavalcante (A História da Eternidade), antes do sentido totalizante que parece carregar, impõe, num primeiro contato com o filme, ao menos duas possibilidades, de acordo com o viés que se adotar. A hipótese inicial seria a de que veremos a grande história, quem sabe definitiva, de o que é o conceito de “eternidade”, e aí existe uma ambição fadada à impossibilidade cósmica de defini-lo; a segunda hipótese, menos evidente (e talvez mais escorregadia), é a de que veremos, de fato, uma história contada do ponto de vista da Eternidade, a palavra aqui deixando de ser apenas conceito abstrato para se ser ela mesma personagem (ou mito), tornando-se a instância narradora. Por essa segunda possibilidade, tem-se um filme menos centrado na derivação de alguma grande narrativa do que na ocupação do quadro com elementos constitutivos de uma pictorialidade que será, afinal, sua maior característica visual. (O uso do scope amplia a noção de vastidão num espaço relativamente pequeno de um vilarejo isolado.) A Eternidade seria tudo aquilo a ocupar o espaço da tela – cada elemento de linguagem e de encenação que se consiga ver, ouvir ou imaginar, sendo a articulação entre eles o escopo do que é efetivamente o filme de Camilo Cavalcante. A Eternidade, portanto, é o que é mostrado a partir da existência da câmera, e não apenas pelo relato temático (que, por sua vez, seria o elemento mais importante da primeira hipótese).

A diferenciação é importante na medida em que A História da Eternidade alimenta a mise en scène com um manancial de símbolos e referências pictóricas e literárias que expandem seu universo para além do cinema (eis a beleza da impureza, como diria André Bazin). Pensar a Eternidade como o ponto de saída da narração do filme o localiza fora de algum tempo e espaço. A iconografia do sertão, tão cara à filmografia brasileira ao longo de toda a sua história, aqui se desprende do imaginário pré-fabricado e caminha sozinha, como se fosse outra coisa que, mesmo reconhecendo a base, ainda está a ser descoberta na totalidade. O filme não é cínico, porém: Camilo Cavalcante jamais disfarça a evidência de estar sempre no sertão – muito pelo contrário: talvez os maiores desarranjos do filme estejam em momentos de mais ostentação desse universo facilmente assimilável. Mas a honestidade de A História da Eternidade está em, sem omitir o dado essencial, seguir adiante com ele e se esforçar por dar ao espectador alguma visão ainda inédita, na possibilidade de olhar (no sentido do olho humano mesmo) algo que surpreenda pelo inusitado e pelo maravilhamento a emanar daquilo que vem do quadro.

A tela larga de A História da Eternidade possibilita ao filme se apresentar com alto grau de grandiloquência na criação desse lugar indefinido, de tempo próprio, já explicitado no primeiro plano: em enquadramento aberto, um sanfoneiro cego se senta em uma árvore de galhos retorcidos, reenquadrado pelo infinito do céu e da terra – imagem forte da “mais remota lonjura” descrita pelo escritor mexicano Juan Rulfo. Depois de alguns minutos, um cortejo fúnebre carregando o caixão de uma criança atravessa o quadro, lentamente. Da pintura imóvel anterior tem-se agora o movimento, mas esse movimento traz morte e tristeza. O prólogo é prenúncio de todo o resto: visualmente, o filme trabalha a imagem até o limite da composição, às vezes em planos ainda mais abertos, nos quais se vislumbra, em meio ao cenário natural, o movimento dos corpos de personagens a se deslocar de um canto a outro (algo similar, por exemplo, ao visto no cinema de Sergio Leone).

A História da Eternidade se fixa na obsessão pelo número três – são três conflitos, apresentados ao longo de três capítulos delimitados, sobre a intimidade de três mulheres representantes de três gerações. Essa triangulação já pode ser vista nos pontos de atenção da cena inicial e o movimento triangular do filme será também o seu eixo estético. A mise en scéne depende sempre de como os personagens circulam pelo pequeno vilarejo onde a ação é ambientada, indo de um lugar a outro de acordo com os espaços permitidos pela direção de fotografia, assinada por Beto Martins. Existe não apenas o foco na ação de primeiro plano, mas também na profundidade de campo do scope, que deixa o ator ganhar existência mais plena a partir da composição que lhe é cabida. Martins já disse em entrevistas ter se inspirado na pintura de Caravaggio, algo perceptível não só nas escolhas de onde colocar a câmera, mas também na luz utilizada no plano, no claro-escuro para delinear o cenário e as junções dos corpos com os objetos em cena. Em dois momentos, o filme se entrega a movimentos circulares em plano-sequência que poderiam se tornar apenas fetichistas, mas o cuidado na construção anterior de outros tipos de espaços cênicos integra-os na artesania do filme. Se na maior parte das cenas a câmera está fixa, sua movimentação se assemelha a um acontecimento próximo do milagroso, considerando o universo mítico e fabular tratado por Cavalcante.

Os tais dois rodopios se dão em instantes de epifania: num, o artista rebelde e desprezado vivido por Irandhir Santos dança e canta ao som de “Fala”, dos Secos & Molhados; no outro, o mesmo personagem leva a sobrinha adolescente (Débora Ingrid) para ver um mar imaginário que só existe num truque simples de montagem no ápice do plano circular. Nos dois momentos, tem-se a performance como elemento central, junto à consciência (dos personagens e também do filme) de aquilo que não se vê ganhar concretude na forma como se apresenta diante dos olhos. O olhar em A História da Eternidade tem esse poder de materialização: a avó (Zezita Matos) passa a desejar o neto (e a se afligir e infligir dor) quando vê fotografias pornográficas numa revista do garoto e percebe nele não mais um menino, mas um homem; a mulher solteira e amarga (Marcélia Cartaxo) é cortejada pelo sanfoneiro cego e ferido, que obviamente não a enxerga, mas acredita ter a chance de um momento de intimidade com ela, ficando diariamente na espera de um sinal que ele espera sentir, mas não ver. Todas as três mulheres, portanto, partem do olhar para ultrapassarem os próprios limites e desejos. A superação vem da visão renovada diante de uma realidade que parecia estanque e arcaica.

Os arquétipos do filme carregam características de lendas e crenças que se misturam umas às outras para chegar a um desenlace próprio do “realismo maravilhoso” muito próximo de uma certa literatura latina (de novo Juan Rulfo, mas pode-se invocar também García Márquez e Ariano Suassuna): a chuva no semi-árido, que não vem lavar pecados ou purificar os corpos (como faz o mar de Fernando de Noronha em Sangue Azul, de Lírio Ferreira), mas diluir o sangue de uns, celebrar o batismo luxurioso de outros e ser a paisagem de uma Pietà emoldurada pela violência do mundo exterior, que invade o isolamento daquele novo sertão para também submetê-lo a uma reconfiguração.

Share Button