in loco - Festival de Brasília
Competição de curtas
35mm - terceiro dia
por Cléber Eduardo
A Vida ao Lado, de Gustavo Galvão
Imagens-forma
Contrariando o início de meu comentário sobre
Dia de Folga, de André Carvalheira, A Vida ao Lado,
de Gustavo Galvão (um dos dois filmes do diretor presentes na
mostra competitiva), não adota nem o plano-seqüência desnorteado,
nem as percepções alteradas que pontuam algumas produções de Brasília.
Seu estranhamento vem de outra operação. Nota-se uma organização
sutil dos micro-acontecimentos, às vezes movediço, rarefeito,
sempre em via de nos deslocar do entendimento. A atmosfera é da
solidão urbana, registrada com ar blasé, com angústia, com uma
solidariedade com os desgarrados afetivos. Reunindo situações
de três personagens (um homem e duas mulheres), todos moradores
de um mesmo andar de um prédio, em constante movimento de aproximação
e recuo de uns em relação aos outros, Galvão opta pelo plano fixo.
Recorta os espaços com efeito estilístico ao enquadrar por trás
de um ventilador, pela fresta de uma porta, pela janela de um
vagão do metrô. A música apenas acaricia as imagens, com acordes
de guitarra, sem nos seqüestrar pela emoção. Tudo cool.
Realizador em seu sexto curta-metragem, com passagem
como crítico de cinema no Correio Brasiliense, Galvão emprega
sua cinefilia na maneira de filmar, de organizar sua narrativa,
com uma quase óbvia relação com Tsai Ming Liang, tanto na ausência
dos diálogos como nos encontros-desencontros de personagens fisicamente
próximos, mas distantes. Deve haver outras ressonâncias de sua
atividade escrita, talvez Hal Hartley, talvez Paul Thomas Anderson
(em menor medida, com Leonardo Medeiros fazendo ponte com Phillip
Seymour Hoffman,), mas a questão é perceber se elas saem de si
mesmas, abandonam a cinefilia e o racionalismo estético (com momentos
especialmente felizes na troca de olhares e de ângulos em uma
seqüência ambientada no metrô), ajudam a produzir vida dentro
do quadro
Temos aqui traços em diálogo com pelo menos dois
curtas já exibidos no festival, Noite de Marionetes, de
Haroldo Borges, e Noite de Sexta, Manhã de Sábado, de Kleber
Mendonça, que por vias distintas e êxitos diferentes, também vão
à imagem sem necessariamente a transformarem em organismo. Imagens-formas,
às vezes com poder, mas nunca imagens-vida. O curta de Kleber
Mendonça, nesse sentido, consegue respirar melhor, perseguir uma
autenticidade do momento da representação e das motivações do
projeto, mas os de Haroldo Borges (sobretudo) e de Gustavo Galvão,
de diferentes formas, não tocam a vida por meio da imagem. Talvez
nem queiram.
* * *
O Brilho dos Meus Olhos, de Allan Ribeiro
Primeiros
planos podem ser bastante reveladores da proposta estética na
qual um filme opta por se instaurar, ou da qual se origina – processos
diferentes, o de apoiar-se “em” e o de originar-se “de”, embora
se acredite, talvez por comodismo, que sejam a mesma coisa. Nos
primeiros planos de O Brilho dos Meus Olhos, curta de Allan
Ribeiro, produzido pela UFF (Universidade Federal Fluminense),
vemos alguns pontos sinalizadores. A imagem é em preto e branco,
a câmera está no tripé, vemos um trabalhador em uma construção,
executando sua atividade, mostrada em planos dispostos a reter
a experiência no tempo do quadro, mas sem chegar ao tempo da repetição,
da rotina, de uma sensação de ciclo sem escape.
Temos nesse começo uma carta de apresentação do
próprio filme. Está lá um espaço social bem definido, um ambiente
específico (caracterizado por um desenho de som ruidoso e desagradável),
uma maneira de olhar esse trabalhador e seu local de trabalho,
com uma duração estipulada. Se continuasse nessa toada, com o
filme se repetindo, mas não a atividade do trabalhador, teríamos
um mais do mesmo, mais ou menos previsível, com a disposição de,
além de se aproximar de determinado universo, detectar o esvaziamento
dele. Teríamos uma variação de Rotina, de Mauricio Hirata,
que radicalizava essa opção, para bem e para o mal.
Porém, O Brilho dos Meus Olhos, sem aviso
prévio, dá uma guinada. Nos introduz em um novo filme, em um outro
espaço, filmado com outra dinâmica, a partir do momento em que
esse operário esvaziado, ao entrar em um recinto aparentando um
bar, começa a cantar em um karaokê e, quebrando o realismo duro
do filme, penetra o terreno da imaginação. Temos um ponto de fuga,
uma zona de escape, um estranhamento, que, apesar de perder potência
pela repetição de sua “sacada”, tira a narrativa dos trilhos.
O retorno ao começo no final é uma maneira de se retomar a proposta
inicial, do esvaziamento, mas agora a brecha está aberta para
o personagem respirar.
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