bloco de notas
Bibliografia obrigatória
por Francis Vogner dos Reis
O fato de o mercado editorial brasileiro ser pobre, preguiçoso e limitado, torna-o automaticamente cerceador (pensemos no preço dos livros, nas más traduções e nas obras que aqui não foram publicadas), mas nenhuma produção intelectual tem um maior déficit no Brasil do que as publicações sobre cinema, no que diz respeito ao que é fundamental da produção crítica norte-americana e francesa, por exemplo. Pois não é que antes que editores de inteligência e boa vontade se dessem conta que temos o mercado mais ignorante do mundo em pensamento cinematográfico off-universidade, a internet e o altruísmo de alguns poucos têm buscado sanar algumas dívidas que a língua portuguesa (pelo menos no Brasil) tem com o pensamento cinematográfico mais sofisticado? Editado por Luis Soares Júnior (redator aqui da Cinética), o blog Dicionários de Cinema tem traduções feitas pelo próprio editor e por outros críticos que atuam em blogs de cinema como José Roberto RochaFelipe Medeiros, Bruno Andrade, além da colaboração do editor da Contracampo, Luiz Carlos Oliveira Jr. (que traduziu o clássico obrigatório “Sobre uma arte ignorada”, de Michel Mourlet). Apesar do nome do blog ser parecido com o do livro de Jacques Lourcelles (Dicionário de cineastas), não há ali só traduções do mesmo, mas de textos de gente como Jean Douchet, Michel Mourlet e Serge Daney. A existência do blog é um evento sem precedentes, e deve ser tratado como tal: não só por ser uma militância de uma geração crítica insatisfeita com o que se produz na internet, na universidade e no mercado editorial, mas porque o acesso a esses autores certamente pode nos dar, futuramente, críticos e cineastas melhores, transferindo para a internet o papel de vanguarda da informação e do pensamento livre, abnegado e não oficial. Deveria estar na lista de leituras obrigatórias das universidades de cinema. Mas talvez isso já seja pedir demais.

Um bom uso da promoção
por Eduardo Valente
Hoje em dia, sabemos, não se pode lançar um filme sem um site, e muitas vezes sem um blog. Ferramentas de pura promoção, mas que na maioria das vezes além de não adicionarem nada ao acontecimento que é o filme, de fato nem chegam a ter qualquer serventia porque parece que poucos percebem que, para cada Bruxa de Blair, Cavaleiro das Trevas ou Crepúsculo (ou seja, filmes que realmente usaram a internet e sua capacidade viral de criação de expectativa dentro de certas comunidades - especialmente as mais jovens, não por acaso foco destes filmes), existe uma quantidade enorme de lixo virtual, sites criados tão somente porque "é obrigatório que se faça um", mas que não geram absolutamente nada para o filme, nem no sentido criativo nem muito menos no promocional. Por isso, vale destacar o uso feito por Guel Arraes do blog criado para o lançamento do seu novo filme, Romance. Como pode comprovar qualquer um que leia o texto que escrevi sobre o filme, eu não sou nem de longe um admirador do filme. No entanto, não é preciso ser um para se interessar pelas nuances da criação cinematográfica que o diretor expõe neste espaço, permitindo que se compare ensaios com a cena pronta no filme, propondo edições alternativas de determinados materiais ou refletindo e expondo seus métodos de trabalho. É um exemplo de como usar uma ferramenta de promoção de maneira a que ela possa servir para algo mais do que simplesmente entupir a internet com (mais) informação inútil.

Futuro do passado
por Lila Foster
Mal entrou no ar, o site Europa Film Treasures já apresentou problemas técnicos pela alta quantidade de acessos. A procura é totalmente justificável. Criado por 30 arquivos e cinematecas européias, o site disponibiliza para visualização títulos raros produzidos entre 1898 e 1970 acompanhados de textos explicativos e legendas em diversas línguas. Além dos filmes, uma seção em construção chamada "Teaching Resources" pretende disponibilizar kits para professores e escolas utilizarem os filmes em contextos educativos. A seção já traz algumas indicações de filmes recomendados para crianças entre 6 e 10 anos e 10 a 15 anos. Rico em informações, tanto sobre os filmes como sobre as instituições que participam do projeto – basta um clique no mapa para ter um pequeno histórico das instituições – o site é um dos projetos mais completos que se tem notícia aliando tecnologia, preservação, difusão e pesquisa. O melhor de tudo é que o acesso se amplia de tal forma que cinematecas e filmes raros podem deixar de ser assunto e privilégio de especialistas.

E o 3D?
por Julio Bezerra
Eu nunca tinha visto uma película em 3D. Portanto, o que digo, ainda sob seu efeito encantatório, é extremamente parcial. Mas indo direto ao assunto: o que vi é uma nova possibilidade para a sétima arte. Um cinema do truque, que remonta a um ilusionista como Georges Méliès e resgata uma experiência cinematográfica mais elementar e sensorial, que se processa na reconquista do mágico, do fantástico, do encantamento pela imagem.
Nada mais adequado, até por isso, que o primeiro filme live action em 3D
fosse uma adaptação das viagens de Júlio Verne. Viagem ao centro da Terra é veículo exclusivo para o 3D: dirigido por Eric Brevig, um especialista em efeitos especiais, o filme é um primeiro passo, uma experiência ainda insegura e conservadora, concentrada apenas em oferecer da maneira mais direta possível os efeitos do 3D. Abundam então os movimentos frontais de aproximação e distanciamento, e a todo o momento criam-se novas oportunidades para quedas espetaculares, montanhas-russas, e muitas coisas caindo e voando pela tela (e para fora dela) – até mesmo cuspe de escova de dente.
O 3D joga os princípios da construção pictórica pra escanteio. A “perspectiva” se torna inexata e tudo ganha relevo. É como se estivéssemos diante de um holograma. Mas são muitos os desafios a vir: alguns conceitos-chave do cinema moderno, como a profundidade de campo, ganham novos sentidos. Assim, Viagem ao centro da Terra é recheado de momentos toscos, que denunciam maquetes e cenários. Brevig não ajuda, optando por uma direção à moda contemporânea, rápida e com planos curtos. Uma direção que prejudica a visualização de determinadas seqüências e esteriliza a experiência do 3D. E, sendo talvez um pouco rigoroso, os melhores efeitos em 3D do filme se dão com a ajuda de efeitos especiais computadorizados. O que nos faz perguntar: por que o live action?
Se há ainda muito conservadorismo na exploração das potencialidades do formato, é também visível que muitos ajustes de ordem tecnológica ainda precisam ser feitos. Os óculos, por exemplo, em geral incomodam e têm hastes curtas, que vazam nas laterais. Mas eu fico na torcida, esperando ansiosamente o desenvolvimento natural da tecnologia e da prática deste novo cinema. Aguardo com muita esperança o momento em que o 3D se integre orgânica e dramaticamente ao conteúdo de um filme. Penso, por exemplo, na neve de Medos Privados em Lugares Públicos ou nos sapos de Magnólia invadindo o cinema, nos contaminando; imagino o universo de um David Lynch se fazendo presente, ao alcance dos meus medos; lembro das mãos de um Nosferatu e das unhas do Zé do Caixão, próximas a ponto do desespero – e torço muito por Tim Burton e seu Alice no País das Maravilhas, a ser filmado em 3D, cineasta e obra ideais para se expandir o formato. 

O futuro é digital! Mas, o presente...
por Eduardo Valente
No que se refere à projeção digital do nosso circuitinho, quanto aos problemas o assunto a esta altura já está mais que batido e pouco fica a dizer, ainda mais considerando-se a quantidade de leitores que um post preciso como este do Leonardo Cruz no blog da Ilustrada já teve, que será muito maior e mais efetivo que qualquer duas linhas nossas aqui nessa revista. No entanto, nunca é tarde para abrir o espaço para um elogio: se tem algo que diferencia hoje a Imovision das outras distribuidoras ocupando o circuito dito “de arte” no Brasil é que ainda há no olhar desta uma preocupação curatorial clara que, manifestada seguidamente nas escolhas de filmes a exibir (quase sempre arriscadas), fica ainda mais óbvia na questão do lançamento digital ou em película. Enquanto a Europa Filmes teve a coragem de nos apresentar Não Estou Lá, de Todd Haynes, exclusivamente no formato digital-Rain que, para além das questões estéticas, cometia um verdadeiro crime de formato com o filme (uma vez que a Rain não exibe filme em scope, 2.35 – o que, para mim pelo menos, me faz considerar que o filme não foi exibido no Brasil comercialmente), a Imovision faz questão de trazer Luz Silenciosa, de Carlos Reygadas, em cópias em película, mesmo sendo um filme tão arriscado e restrito de público. Para mim, o filme de Haynes (que eu só posso dizer que vi porque passou em cópia em película 2.35 no Festival do Rio) é bem mais interessante que o de Reygadas, mas no contexto brasileiro de hoje, o lançamento do segundo é muito mais importante, ao menos como evento tomado no seu todo, do que o do primeiro.
Enquanto seria fácil cair no discurso econômico do “digital é o único jeito de viabilizar este filme no Brasil” (desconsiderando o básico fato de que, ao adulterar sua forma, não se está viabilizando o filme per se por aqui), me parece claro que a Imovision toma uma posição estética, de quem tem um mínimo de interesse pelo cerne do “produto” que comercia (enquanto, em casos como o do filme de Haynes - mas também em exemplos como o Escafandro citado no blog da Folha - o comércio é a base única de relação com o cinema). Ao tratar diferentemente seus filmes em cartela (Do Outro Lado, por exemplo, foi quase apenas lançado em digital, o que tanto o seu formato quanto a – falta de – investimento estético profundo na imagem permitem sem maiores problemas), a distribuidora está nos dizendo que assiste aos filmes antes de lançá-los, que tem uma opinião sobre eles e que sabe tratar alhos e bugalhos com a diferença que eles possuem. Num mercado onde supostamente se está negociando principalmente com o “valor cultural” do que se exibe, me parece um mínimo a ser exigido – mas é um mínimo que, de tão raro, precisa ser louvado sempre que possível.

O melhor filme do verão...
por Renata Gomes
Não que eu possa de antemão concordar – ou discordar –, mas o fato é digno de nota: Peter Travers, crítico de cinema da revista Rolling Stone americana, elegeu como melhor filme do verão... o videogame Grand Theft Auto IV. No olhar de Travers, isso se deve tanto ao “baixo nível dos blockbusters”, como às qualidades técnicas e narrativas do game, talvez o mais esperado lançamento para a nova geração de consoles de alto padrão gráfico – o game roda apenas nos parrudos Playstation 3, da Sony e Xbox 360, da Microsoft. Exageros à parte – Travers nivela por baixo os tais “lançamentos do verão americano”, reduzindo a pó filmes como Fim dos Tempos e O Incrível Hulk – tal reação de um crítico de cinema traz ainda mais curiosidade sobre o lançamento de um game cujas versões anteriores já eram muito boas. Como “qualidades cinematográficas” de GTA IV o crítico reúne as “afinidades temáticas com Tarantino e Scorsese”, a “ambigüidade moral” dos personagens, as “ironias de roteiro com a vida em Liberty City” (clone virtual de Nova Iorque), o “alto nível técnico da dublagem” por bons (e desconhecidos) atores. Tudo muito interessante, mas não faz sequer sombra aos atrativos de GTV IV como jogo: a possibilidade de continuar vivendo vicariamente a experiência do submundo do crime, assaltando velhinhas indefesas, atropelando transeuntes, metralhando inimigos, fugindo da polícia e – o que é mais importante – vivendo a conseqüência de cada um desses atos. Ou não. Tudo isso – o que fez da franquia Grand Theft Auto um sucesso de público e crítica – agora sob um cenário que procura emular o realismo cinematográfico do cinema de ação e diante de personagens cada vez mais autônomos e verossímeis. Atesta o crítico, e nos deixa com água na boca: o game quer mesmo ser um tipo de cinema interativo. Pena mesmo é precisar desembolsar, no Brasil, algo em torno de R$2300 (R$ 2000 do console, R$300 do game) para pode concordar ou não...

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