Desejo e Reparação (Atonement),
de Joe Wright (Inglaterra/França, 2007) por
Fábio Andrade
As luzes da memória É mesmo uma
grande ironia a revelação final de Desejo e Reparação vir com o dissabor
do anticlímax: a superexposição do filme como uma rememoração ficcional de sua
personagem/autora só faz iluminar demais algo que, até aquele momento, Joe Wright
já vinha nos indicando pelas frestas da estória. É nos minutos finais que Wright
se deixa levar por um ceticismo (ou seria um excesso de concessão?) em relação
ao poder da linguagem cinematográfica que não parece, de fato, vir do mesmo artista
que, pelos 120 minutos anteriores, tão habilmente a explorara. O problema não
é a revelação em si, mas sim a gratuidade de sua literalidade diante de um ponto
de vista já muito bem exposto pelo filme em seu desenrolar.
Pois, desde
seu primeiro plano, Desejo e Reparação deixa bastante claro de quem são
os olhos que ele seguirá: uma menina sentada à máquina de escrever, concluindo
sua primeira peça. Após o “the end”, ela corre pelos corredores e cômodos vazios
de uma enorme mansão para dividir sua primeira conquista autoral com a família.
O som dos dedos à máquina de escrever servirá como elemento percussivo para a
trilha-sonora, e marcará a passagem dos anos com as legendas informativas. A máquina
onde se escrevem palavras que tentam dar conta do tempo. Estamos diante, portanto,
de um tempo que passou, e que é recontado por uma menina apaixonada pela ficção.
Mais interessante, porém, é a maneira como Joe Wright usa a construção formal
do romance de Ian McEwan para definir a estrutura de seu filme: embora Desejo
e Reparação traga uma trajetória linear, a errância (com duplo sentido) da
narrativa é determinada pela reconstrução da memória. Em vez de se interessar
pela estória em si (ou somente por ela), Wright parece movido pelo mecanismo de
recriação da memória daqueles personagens, e as possibilidades cinematográficas
dessa reconstrução. Os
acontecimentos de definição dramática em Desejo e Reparação são poucos,
e surgem no filme como que pinçados pelo esforço de alguém que tenta se lembrar.
No primeiro momento forte, a escritorinha Briony (Saoirse Ronan; mas com o passar
do tempo também Romola Garai e, ao fim, Vanessa Redgrave) presencia uma cena estranha:
vê sua irmã Cecilia (Keira Knightley) mergulhar na fonte do jardim da casa e,
com as roupas em encharcada transparência e o rosto sem traços de constrangimento,
continuar a discutida conversa que tinha com Robbie Turner (James McAvoy) – filho
da criada da família, que tem sua formação em Cambridge financiada pelo patrão.
Pouco depois, a cena se repetirá, porém de um outro ponto-de-vista. Esse movimento
de ruptura temporal marcará a condução do filme não só como rememoração, mas como
a reconstrução de um passado pelos olhos de um narrador que, como qualquer sujeito,
é parcial e não-confiável. Desejo e Reparação é, desde seus primeiros minutos,
a auto-biografia que Briony gostaria de poder escrever.
Se
o tamborilar das palavras digitadas situa a narrativa como decorrência da lembrança,
a dupla ocorrência do mergulho é o reconhecimento, por parte desse narrador, que
a compreensão dessa estória é determinada pelo ângulo de quem olha. E os olhos
de Briony determinarão os caminhos de todos em Desejo e Reparação: são
eles que lêem a “palavra suja” no bilhete que Robbie manda para Cecilia; que enxergam
na “palavra suja” a exposição de um maníaco sexual, e que “confirmam” essa suspeita
presenciando a relação sexual de Robbie e Cecilia; que, mais tarde, colocarão
o rosto de Robbie no corpo do homem que estupra Lola (Juno Temple) – a prima de
15 anos de idade que se hospedava na mansão dos Tallis. É o testemunho de Briony
– menina apaixonada demais pelas palavras para permitir tamanha profanação, e
obcecada demais pelas amarras da ficção para admitir as pontas soltas – que levará
Robbie à cadeia, à guerra, à distância de sua amada. Não
deixa de ser fascinante ver uma adaptação literária rastrear as origens de seus
desastres justamente nas palavras. Fascinante, pois Joe Wright acerta, em sua
recriação do romance, ao dar preferência às sugestões visuais e à estrutura, não
recuando da necessidade de deixar seu plot às caras logo nos primeiros
minutos. É um trabalho surpreendente justamente por se mostrar um filme-estrutura:
sua narrativa é como um passeio pela escuridão do passado, e o que vemos na tela
é apenas aquilo que a memória conseguiu iluminar. Nesse sentido, Desejo e Reparação
impressiona ao usar a luz como sua maior ferramenta dramatúrgica. É a luz que
nos diz como a Briony que se lembra enxerga a menina que inventara irreparáveis
ficções: a garota que se tranca em casa, como em sua própria imaginação, e que
o mundo – à janela – vem sempre estourado, fora do alcance da visão. É a luz que
reflete na jóia caída ao chão, e que conduz Briony a flagrar o momento de maior
intimidade entre sua irmã e o filho da criada – confirmando, para sua cabeça de
escritora, as suspeitas de que ele é um maníaco sexual. É a luz da lanterna que
revela o estupro, mas não o rosto do estuprador. É a luz frontal que recorta a
menina no isolamento de seu testemunho, jogando o mundo em um fundo de quadro
do negro mais absoluto. A luz que, mais tarde, Robbie buscará no fósforo riscado
para – em cena que metaforiza todo o caminho pelo qual Wright conduz seu filme
– iluminar as fotos do passado, enquanto o presente desaba sobre sua cabeça com
as bombas da guerra.
A
escolha de deixar que elementos de linguagem do cinema se encarreguem da narrativa
é acertada, pois serve como base para construções visuais de uma riqueza raríssima.
Seja na estabilidade da câmera nos trilhos que acompanha Bryoni, ou na livre sensualidade
da câmera solta que dança ao redor de Cecilia – tratando o corpo com interesse
próximo ao de Wong Kar-wai, Clare Denis ou Gus Van Sant – a busca por imagens
em perfeita idealização reforça a ficção dentro da ficção que move o filme. No
fundo, Desejo e Reparação é, como sua última parte faz questão de frisar,
um exercício de wishful thinking de alguém que aprendeu que o mundo não
é um só, de que tudo que ela enxerga é reflexo de si mesma. É a idéia de que a
ficção – e a memória não deixa de ser um grande exercício ficcional – é o espaço
onde a vida que gostaríamos de ter tido pode, de fato, se realizar. Mesmo que
o curso da vida real venha se materializar na enxurrada que inunda as tubulações
subterrâneas onde Cecilia se escondia, tirando sua vida. A enxurrada que faz as
lâmpadas explodirem, devolvendo o corredor à escuridão, como a concretude da vida
destrói a memória, a ficção. É a morte como esquecimento.
Não
deixa de ser decepcionante, portanto, que Desejo e Reparação perca momentos
de força em uma mínima falta de confiança, que no plano final toma uma proporção
bastante incômoda. Que a sutileza do domínio de linguagem de Wright por vezes
se mostre abalada pela aparente necessidade de redundância que ajuda os espectadores
menos atentos. São vacilos que ferem Desejo e Reparação como os grandes
filmes não costumam permitir. Por outro lado, os acertos são tantos e tão preciosos
que torna difícil situar Desejo e Reparação como um filme abaixo dos grandes.
No fim das contas, esse estranho limbo em que ele se inscreve não é um lugar mau
para se estar. Fevereiro de 2008editoria@revistacinetica.com.br
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